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Discussions of the 1966 draft Act

3. The protection against encroachments in Norwegian legislation

3.1 The draft Reindeer Husbandry Act of 1966

3.1.3. Discussions of the 1966 draft Act

Quando se discute sobre a prática de apresentação de pacientes, geralmente, uma das primeiras referências que nos ocorre lembrar, é a imagem de Charcot15, ao lado de uma de suas histéricas hipnotizada, diante de seleto público de médicos e escritores famosos. Esta cena, eternizada no célebre quadro de André Brouillet - Une leçon clinique a la Salpêtrière (1887)16, serve como suporte material para duas perspectivas míticas da apresentação de pacientes. Numa primeira perspectiva, contemporânea ao próprio ensino de Charcot, tal imagem retrata o encantamento que tais apresentações produziam em seu público, testemunhas do avanço da ciência, que por fim desvendava a histeria.

Entretanto, cerca de 100 anos depois, na década de 60 do século XX, sob a influência dos movimentos que questionavam o saber e a prática psiquiátrica, Charcot será tachado como sendo “o grande mestre da loucura” (Foucault, 2006, p.343). Nas palavras de Foucault (1981): “o personagem mais altamente simbólico do abuso do poder médico” (p.122). Temos então uma fusão entre a crítica a Charcot e a imagem do quadro, o que lhe imprimiu uma nova conotação, passando a representar o mestre em plena ação: manipulando a paciente, fabricando sua histeria. A partir de então, a apresentação de pacientes, assim retratada, torna-se o instrumento mais perverso da violência e dominação psiquiátrica, precipitando-nos numa posição de censura e repúdio a essa prática.

Mas como Charcot se tornou o representante máximo do abuso do poder psiquiátrico? Afinal, Charcot não era um psiquiatra, mas um renomado neurologista, e foi enquanto tal, que ele investigou os fenômenos histéricos. Será que como Bichat17, que foi vítima dos cadáveres que investigava, Charcot, o primeiro que ousou abordar a histeria, acabou vítima do mesmo descrédito que a condenava? Afinal, foi seu trabalho com as histéricas que o transformou em sua própria época, numa figura controversa – uma lenda: admirado por uns e criticado por outros, a polêmica em torno dele oscilava da fascinação absoluta à mais veemente condenação. Um terreno fértil para sua posterior mitificação.

15

Jean Martin Charcot (1862-1893). 16

ANEXO A 17

Marie François Xavier Bichat (1771-1802) – fundador da anatomia patológica. Bichat revolucionou a medicina de sua época ao convidar os médicos: “Abram alguns cadáveres!”. “Aos 32 anos, feriu-se durante uma dissecação e morreu em conseqüência de ‘envenenamento cadavérico’, como se dizia na época” (Barreto, 1999, p. 103).

Como exemplo da impressão positiva que Charcot podia causar em seus contemporâneos, vejamos um pequeno trecho de uma carta de Freud (1976a) à sua futura esposa, quando de seu encontro com o mestre, em 1885:

Acho que estou mudando muito. Vou dizer-lhe detalhadamente o que me está afetando. Charcot, que é um dos maiores médicos e um homem cujo senso comum tem um toque de gênio, está simplesmente abalando minhas metas e opiniões. Algumas vezes saio de suas aulas como se estivesse saindo de Notre Dame, com uma nova idéia de perfeição. (...) Se a semente frutificará, não sei; o que sei é que ninguém jamais me afetou dessa maneira (p.19).

A admiração de Freud por Charcot é verificada mesmo em seus textos mais tardios, pois apesar das diferenças teóricas, Freud (1977c) sempre reconheceu Charcot com sendo o primeiro a explicar a histeria, como aquele que a retirou do “caos das neuroses" (p.43).

Por outro lado, Charcot recebia contundentes críticas de seus opositores. Os ingleses18 questionavam as condições de suas experimentações, alegando que as enfermas, por verem o que se lhes aplicava, e ouvir o que era dito a seu respeito, produziam os fenômenos esperados, como efeito de uma espécie de auto-sugestão. Bernheim19, feroz opositor de Charcot, interrogava a existência mesma da histeria. Ele acreditava que as histéricas de Charcot atuavam como atrizes, simulando seus sintomas, insinuando que Charcot “fabricava a doença tal como um mágico retira coelhos de sua cartola” (Roudinesco, 1988, p. 39).

Não que Charcot fosse ingênuo quanto ao risco da simulação. Pelo contrário, desde seus primeiros encontros com a histeria (1870-1872) já se mostrava atento ao problema:

A simulação? A encontramos a cada passo na história da histeria, e às vezes nos surpreendemos admirando a astúcia, a sagacidade e a tenacidade inauditas que as mulheres afetadas pela grande neurose empregam para enganar... sobretudo quando a vítima da impostura é um médico. (Charcot, 1886, pp. 281-282, citado por Swain, 2000, p. 48)

18

Para os autores ingleses, como Hugues Bennet e Hack Tuke, o efeito da desaparição dos sintomas, provocados pela metaloscopia, não seria decorrente da ação física, mas da ação psicológica (Trillat, 1991).

19

A fim de tornar os dados inquestionáveis Charcot sempre procurou tomar todas as precauções para confundir suas pacientes e evitar as simulações. Mas, de fato, parece não ter considerado o efeito de sugestão que ele mesmo exercia sobre estas. Geralmente, em suas apresentações, iniciava dizendo: “‘Vejam de que doença está acometida’ e praticamente ditar os sintomas à doente” (Foucault, 2006, p.409).

A propósito dessa polêmica em torno da figura de Charcot, acreditamos que somente o estudo aprofundado de seu percurso clínico e teórico, nos possibilitaria entender as nuances e reviravoltas de sua obra, permitindo-nos adotar uma posição esclarecida. Entretanto, como isso ultrapassa muito o objetivo desse trabalho, nos restringiremos em indicar como referência a cuidadosa investigação de Gauchet e Swain, sobre o tema, apresentada no livro El verdadeiro Charcot (2000).20 Neste trabalho o que encontramos foi o retrato de seu investimento, de seu entusiasmo, dedicação e seriedade. Não há dúvidas de que, longe de um exibicionismo vazio, de uma ostentação de poder através do domínio e manipulação, do qual foi acusado, o trabalho de Charcot, se sustentava em uma pesquisa séria, meticulosa e cujo legado teve enorme importância para o entendimento da histeria.