• No results found

Discussion and further work

O professor Júlio César tem 35 anos, é casado e tem filhos. Reside em São José dos Campos, acumula cargo na rede estadual e na rede municipal. Concluiu o curso de Licenciatura em Educação Física em 2000, na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, na Unidade de Rio Claro/SP. No ano de 2010 atuou na rede estadual com o 2º ano e a 4ª série do ensino fundamental e na rede particular, com o 1º ao 5º. Já atuou na Educação Infantil e no Ensino Médio. Atua na rede estadual há quase 5 aos e sua carga horária no ano de 2010 era de 40 horas/semanais.

A entrevista com o professor Júlio César foi realizada em 18/11/2010, na biblioteca da escola em que atua na rede estadual. Entramos em contato por telefone e o professor preferiu ser entrevistado após suas aulas do período da manhã. A entrevista durou cerca de uma hora e 40 minutos. Seguem os núcleos de significação construídos a partir da fala do professor Júlio César na entrevista realizada com este sujeito:

Núcleo I. Eu tenho a vocação pra ser professor de Educação Física. Surgiu essa oportunidade dentro do concurso.

O professor Júlio Cesar relatou, na entrevista, como foi o processo de sua escolha profissional pela área da Educação Física escolar. A partir do seu discurso, pudemos destacar trechos, agrupados neste núcleo, que apontassem sua história, seus sentimentos, suas ideias e seus valores, desde seu emprego numa empresa até seu ingresso na rede pública estadual paulista de educação. São eles:

“(...) trabalhei quatro anos numa empresa (...) sai para mexer com esporte, competir com atletismo. (...) não suportava mexer com empresas.”

156 “(...) eu tinha uma necessidade muito grande de trabalhar com gente e, justamente, quando eu comecei a mexer com colônia de férias, eu tive uma identificação muito grande com a área de Educação Física.”

“(...) eu tenho uma vocação pra ser professor de Educação Física. Então, esta foi minha opção.”

“(...) antes, eu só mexia com academia, então, assim, logo que eu me formei sai, assim, pegando tudo que... primeiros empregos, aí, eu consegui mexer com escola e academia. Só que, a escola (...) não era minha atividade principal. (...) a partir do concurso que se transformou atividade principal.”

“Eu não gostava de trabalhar na empresa. (...) eu já tinha uma carreira mais ou menos encaminhada (...) era só terminar o curso técnico (...) já estava dentro da empresa já e fazia engenharia.”

“(...) ir trabalhar na empresa pra mim era um desespero. Calçar o botinão, ficar lá, mexer com desenho, material, organizar as coisas.”

“(...) tive a oportunidade de conhecer a vida de atleta mesmo. (...) Quando eu vi a vida que o pessoal levava, eu falei: „Eu não quero isso pra mim não! ‟”.

“(...) sempre fui apaixonado pela área de Educação Física. (...) não eram meus planos. (...) minha ideia era mexer com cardíacos, tudo, com clínica, mas aí como surgiu essa oportunidade, principalmente, dentro do concurso, uma estabilidade financeira (...)”

Este núcleo evidencia o percurso que o professor Júlio Cesar constituiu para a escolha da sua profissão de professor de Educação Física escolar. A partir dos depoimentos do professor, podemos notar que não houve um planejamento constituído com o objetivo de escolher a Educação Física escolar como profissão. Ele relata que “(...) tinha uma carreira mais ou menos encaminhada (...) era só terminar o curso técnico, já estava dentro da empresa e fazia engenharia.” Mas alega que não gostava do trabalho que realizava na empresa: “Ir trabalhar na empresa pra mim era um desespero. Calçar o botinão, ficar lá,

157 mexer com desenho, material, organizar as coisas.”. Mesmo sem suportar o trabalho que realizava, permaneceu nele durante 4 anos; saiu para competir na modalidade de atletismo e alega: “Eu tinha uma necessidade muito grande de trabalhar com gente.”.

Antes de entrar na faculdade, trabalhou na área de recreação e alega ter tido: “uma identificação muito grande com a área de Educação Física”. Durante sua graduação, trabalhou em academia e logo que se formou começou a atuar, também, como professor de natação e de futebol numa escola de Educação Infantil; mas com poucas aulas, sua atividade principal era a academia. Atuar como professor de Educação Física escolar se tornou sua atividade principal quando passou no concurso público e pode inverter sua carga horária, trabalhando mais intensamente na escola.

O professor também relata que concomitante ao seu trabalho na empresa e ao curso técnico, era atleta de atletismo, sendo que no primeiro ano da graduação teve a oportunidade de observar a vida que levavam os atletas de atletismo de nível profissional e chegou a pensar: “Eu não quero isso pra mim, não!”.

Júlio Cesar relata que trabalhar como professor de Educação Física escolar não estava nos seus planos, pois ele pretendia trabalhar com clínica de cardíacos, mas alega que: “surgiu essa oportunidade, principalmente dentro do concurso público da rede estadual paulista, uma estabilidade financeira”. Atualmente, Júlio Cesar trabalha como professor de Educação Física na rede estadual pública paulista e numa escola particular e afirma: “(...) sempre fui apaixonado pela área de Educação Física”.

Núcleo II. Eu dei a sorte de ter uma formação boa... e nós não fomos preparados para isto.

Este núcleo agrupa os trechos do discurso do sujeito que evidenciam questões relacionadas à formação que o preparou para o trabalho profissional de qualidade, mas que também apresentou limitações.

“Tem 10 anos que eu sou formado. (...) comecei em X (uma faculdade estadual localizada no interior do estado de São Paulo), e aí eu vim para Y (outra unidade da mesma instituição) que o curso era melhor. (...) um currículo mais atualizado (...) tinha a possibilidade de mestrado, vários laboratórios (...) todos os professores eram doutores (...) era uma diferença muito grande. (...) um ano de vôlei, depois mais um ano de técnico, aprofundamento em vôlei. (...) era muito tecnicista o curso (...). É porque ela (a faculdade X) foi encampada.”

158

“Educação Física escolar (...) contextualizava o jogo dentro da prática da escola. Introdução à teoria da Educação Física (...) situava o aluno em relação às linhas, à história da Educação Física. (...) teve outra disciplina (...) trabalhava muito a questão da gente começar a perceber o comportamento, a atitude dos alunos por meio do jogo. (...) Atividades Lúdicas (...) trabalhava toda esta questão da recreação. Educação Física Adaptada mexia bastante com esta questão do jogo, de estar buscando novas alternativas, materiais alternativos.”

“ grande parte dos professores eram professores desenvolvimentistas (...) trabalhavam muito esta questão da atividade apropriada para tal idade, para estar desenvolvendo habilidades. Isto contribuiu bastante para a formação e para o jogo em si.”.

“(...) eu dei sorte de ter uma formação muito boa. (...) a grande maioria dos professores (...) são formados antes da LDB, são formados antes de todas essas mudanças. (...) A questão da formação, da informatização, o acesso que as crianças têm a computadores (...) já teve caso que alunos que não sabiam ler e escrever, mas a gente ia, ali, na Lan House e está ele lá, jogando GTA, jogando Need for Speed. (...) o que a gente propõe aqui, muitas vezes, não está de acordo com aquilo que as crianças esperam.”.

“(...) eu acompanhei a aula, acho que, de três professores, para os alunos de 4ª séries. (...) foram aulas muito parecidas, aquela estrutura, chegava, formava roda, fazia o aquecimento, aí formava quatro filas. (...) as crianças tinham condições de estar fazendo atividades mais elaboradas, alguns jogos mais elaborados (...) mas ao mesmo tempo acabou sendo nivelado por baixo.”

“Eu acho interessante o curso, não a forma como está sendo feito. (...) seria interessante nós estarmos fazendo o curso (...) acho que está sendo um desperdício de dinheiro muito grande com o curso de formação. (...) eu acho importantíssimo, sabe, esta formação pros nossos professores. [aqui o entrevistado se refere ao curso de formação oferecido aos professores como pré-requisito para ingresso no cargo]. (...) uma grande leva de professores que estão fazendo este curso agora vão desistir,

porque estão tentando só o ponto. (...) eu acredito que possivelmente (...) foi estruturado em cima da nova proposta (...) com certeza, estes novos professores vão entrar muito mais preparados e têm condições de desenvolver um trabalho muito mais eficiente.”

“(...) (proposta) do ciclo I (...) pra EF especifica não existe. A gente acaba mesmo elaborando um planejamento. (...) está como era antes. (...)a Secretaria Estadual está realmente passando mesmo o Ciclo I pra rede municipal.”

“(...) o estado de São Paulo implementou uma mudança muito grande em relação a EF, uma estruturação muito grande. Mas ao mesmo tempo, faltou uma formação melhor para os nossos professores. Então, entrou com uma proposta nova, uma metodologia nova de trabalho, e nós não fomos preparados para isso.”

Neste núcleo, o professor Júlio Cesar evidencia a preocupação com a “boa” formação na área da Educação Física. Ele se formou há 10 anos numa universidade estadual no interior do estado de São Paulo; iniciou o curso em uma unidade e transferiu para outra, em decorrência da anterior ter sido “encampada” e, principalmente, porque: “o curso era melhor (...) um currículo mais atualizado (...) tinha a possibilidade de mestrado, vários laboratórios (...) todos os professores eram doutores”, e enfatiza: “era uma diferença muito grande”, inclusive porque, na outra unidade, o curso de Educação Física “era bastante tecnicista (...) um ano de vôlei, depois mais um ano de técnico, aprofundamento em vôlei”.

159 Além disso, relata que foram várias as disciplinas que trabalharam o jogo, na sua graduação, em perspectivas bem diferentes: “Educação Física escolar (...) contextualizava o jogo dentro da prática da escola. Introdução à teoria da Educação Física (...) situava o aluno em relação às linhas, à história da Educação Física. (...) teve outra disciplina (...) trabalhava muito a questão da gente começar a perceber o comportamento, a atitude dos alunos por meio do jogo. (...) Atividades Lúdicas (...) trabalhava toda esta questão da recreação. Educação Física Adaptada mexia bastante esta questão do jogo, de estar buscando novas alternativas, materiais alternativos.”

O professor expressa satisfação pela sua formação: “a grande parte dos professores eram professores desenvolvimentistas (...) trabalhava muito esta questão da atividade apropriada para tal idade, para estar desenvolvendo habilidades. Isto contribuiu bastante para a formação e para o jogo em si.”.

Júlio Cesar afirma: “eu dei sorte de ter uma formação muito boa” e critica a formação que alguns professores tiveram, alegando não estarem em condições de trabalhar com os alunos que se tem hoje, devido a todas as mudanças que estão acontecendo; a informatização é um dos exemplos citados por ele: “já teve caso que, alunos que não sabiam ler e escrever, mas a gente ia, ali, na lan house, e estava ele lá, jogando GTA, jogando Need for speed. (...) o que a gente propõe aqui, muitas vezes, não está de acordo com aquilo que as crianças esperam.”.

Relata, ainda, que teve oportunidade de acompanhar algumas aulas de três professores de Educação Física escolar e pôde observar que eles trabalham o jogo “nivelado por baixo”, numa estrutura de aula que segue a seguinte sistematização: “chegava, formava roda, fazia o aquecimento, aí formava quatro filas”.

Quanto ao curso de formação oferecido pela SEE antes do ingresso dos professores de Educação Física na rede, o professor relata ser muito importante, mas critica a forma como está sendo desenvolvido: “um desperdício de dinheiro muito grande com este curso de formação”, e completa: “uma grande leva de professores que estão fazendo este curso agora vão desistir, porque estão tentando o ponto”. Segundo o professor: “seria interessante nós estarmos fazendo o curso (...) acho importantíssimo, sabe, esta formação para os nossos professores”.

Ainda no que se refere ao curso de formação on line da SEE, Júlio Cesar comenta: “(...) eu acredito que possivelmente (...) foi estruturado em cima da nova proposta (...) teve uma selecionada melhor para professores, acabou exigindo o perfil de profissional mais dentro da nova proposta, acho que é uma coisa positiva (...)”, e acrescenta afirmando que,

160 com isso, “novos professores vão entrar muito mais preparados e têm condições de desenvolver um trabalho muito mais eficiente”. Trata-se de curso de formação específica para o concurso de professores do Ciclo II e Ensino Médio.

Quanto à proposta para as primeiras séries do ensino fundamental, o professor alega que: “(...) não existe. A gente acaba mesmo elaborando um planejamento. (...) está como era antes”, e acrescenta; “a Secretaria Estadual está, realmente, passando mesmo o Ciclo I pra rede municipal”.

Apesar de grande parte do discurso de Júlio Cesar ser de uma avaliação positiva sobre sua formação básica e complementar, a última frase indica limitações para enfrentar as mudanças implementadas na rede estadual. O professor, assim, alega: “(...) nós não fomos preparados para isso”.

Núcleo III. O jogo vai preparando para a vida.

Este núcleo agrupa os trechos do discurso do sujeito que evidenciam o que ele considera ser a função do jogo na Educação Física escolar: questões relacionadas com tomada de decisões, participação de todos, respeito pelo adversário, valorização do trabalho coletivo, busca por um objetivo em grupo, busca por condições igualitárias, autoconhecimento, autocontrole e busca do prazer. São eles:

“(...) ele (o jogo) acaba revelando, realmente, a nossa personalidade. (...) na situação de jogo você, primeiro, tem uma liberdade grande de expressão. Segundo, muitas vezes, você é meio que testado (...) você tem que fazer, senão, nosso time vai perder (...) a gente trabalha muito com o êxito e com a vitória.”

“(...) são representações da vida. (...) dentro do jogo a gente faz pequenas representações, de situações que a gente vai ter um êxito grande, de situações que a gente vai lidar com uma frustração grande, de situações que a gente vai ter que, muitas vezes, aguentar aquela pessoa, lá, que não está contribuindo tanto. (...) isso que acontece dentro da nossa família, dentro do meio em que nós vivemos, dentro do nosso trabalho. (...) o jogo tem essa coisa fascinante, que de certa forma, vai preparando a criança para a vida.”

“(...) as crianças da rede particular, por terem uma condição melhor, têm um acesso a uma cultura melhor que os nossos alunos da escola pública. (...) essas vivências que as crianças têm fora, além da escola, com certeza, contribui muita para, principalmente, estar entendendo melhor, dentro do jogo (...). As crianças transformam uma linguagem oral numa linguagem gestual (...) quando você tem uma cultura maior, uma bagagem cultural maior, acaba facilitando esse entendimento.”

“(...) eu procuro proporcionar um maior número de vivências possíveis pra eles. (...) eu espero que eles consigam se organizar. (...) estar implementando os jogos aqui da escola na vida cotidiana deles.”

161

“(...) eu consigo exigir mais dos meus alunos, daqui, do estado, que da rede particular. (...) Mas, acho que, principalmente, isso depende muito do nosso compromisso. A gente acaba tendo que ter uma automotivação muito grande (...)”.

“Um grupo ganhou. (...) tem que comemorar só a vitória, não a derrota dele (o adversário). Se não fosse ele, ali, você não teria ganhado. (...) a partir do momento que começou a comemorar a derrota dele, quem perdeu foi você. (...) você tem que respeitar o estado, aquilo que o amigo está vivendo naquele momento.”

“(...) é importante ter a questão da cooperação, do respeito, da participação, de todo mundo participar de uma forma efetiva. Então, eu costumo aproveitar estes aspectos dos jogos cooperativos. Mas, ao mesmo tempo (...) a gente não tem tudo que coopera para que a gente participe (...) tem que trabalhar com as frustrações das crianças, o jogo cooperativo acaba tendo esta limitação.”

“Já, os jogos competitivos (...) é importante a criança ter esta questão da superação, estar superando as dificuldades, estar superando as limitações, estar superando o adversário, mas ao mesmo tempo, é não fazer disso tudo, seu principio, ser sua atividade principal, seu principio de vida, ganhar de qualquer jeito, não respeitando as regras, não respeitando as pessoas.”

“(...) eu costumo variar os tipos de jogo, competitivo, cooperativo. Tem situações que eu faço com que a criança saia, tem situações que eu deixo a criança mais (...) a nossa vida vai ter situações que eu não vou poder entrar. (...) posso concluir a vaga (num processo seletivo) mas posso ser eliminado antes, também. Então, tem que estar preparando para tudo isso.”

“Todo jogo para que ele possa se caracterizar precisa ter algumas regras (...). Não a regra do que pode, mas sim a orientação do jogo, como ele vai acontecer. (...) que o grupo tem que fazer para conseguir, qual vai ser a meta dele e as regras que vai orientar, vai dar uma organização pra criança.”

“(...) as regras definidas pelo grupo, são as variantes que o jogo acaba proporcionando. (...) tem as regras que mantêm as características do jogo e tem as regras que surgem no decorrer do jogo. Essas que mantêm eu passo e aquelas que têm possibilidades de mudança é o próprio grupo que define.” “(...) o esporte tem uma seriedade muito grande (...) tem todas as regras, cerimonial, tem que cumprir a regra certinho. (...) O jogo tem que ter não, necessariamente, todas as regras, mas ele tem que ter algumas para ele começar. No jogo pode acontecer algumas mudanças, variações, até mesmo na forma, ele dá mais liberdade para isso. Já, a brincadeira está muito ligada a liberdade, da criança estar fazendo aquilo ali para se divertir, não tem nenhum objetivo (...)”

“(...) segundo ano eu acabo trabalhando o jogo com regras mais simples e, principalmente, com atividades que utilize a imaginação da criança, mexe muito com a fantasia da criança.( ...) jogos menos complexos, geralmente, jogos individuais, que não têm uma dependência muito grande do grupo (...). Quarta série eu trabalho com jogos mais elaborados.”

“(...) a sensação de jogar é muito boa, principalmente, quando eu sou desafiado. Gosto muito dessa sensação de ser desafiado, de ter um desafio grande, de repente, estar superando algum limite, algum adversário, de estar lidando com várias alternativas (...)”

“Acho que a questão lúdica é essencial. Poderia muito bem passar uma série de conteúdos, uma série de atividades, de forma sistematizada (...) Mas, não! (...) Eu quero que meus alunos se divirtam, mesmo ganhando ou perdendo. Eu quero que meus alunos consigam se divertir na minha aula, que seja uma aula divertida.”

162

“(...) eu passo, através do jogo, principalmente, a questão do respeito e da participação. (...) o respeito em relação ao outro aluno, em relação à turma. Modo de falar, modo de agir, violência e motivo muito os alunos deles estarem se esforçando (...)”

“(...) através do jogo (...) é o local que as crianças vão estar se relacionando realmente. (...) é o momento que a criança tem uma liberdade para se expressar, tem uma liberdade para de repente se movimentar (...) aprende a lidar com a expressão do outro também.”

“(...) eu consigo contextualizar algum jogo em relação com aquilo que alguns alunos vivem. (...) Eu já montei jogos baseado em filme. (...) eu fiz uma queimada que invés de queimar uma pessoa tinha que queimar um objeto que cada um tinha (...)”

“Eu pego, passo a brincadeira, explico o que pode, o que funciona. Aí, de repente, surge um problema, e aí, eu devolvo para eles. E aí, como é que a gente vai fazer? (...) Eu costumo dar esse espaço para que eles opinem no jogo também, para que eles mudem algumas características.”

“Quarta série, eu já inicio o jogo com eles fazendo com que eles se organizem. (...) primeiro eles montam as equipes (...) discutindo como vão se organizar enquanto grupo, enquanto turma, as questões, as identificações, de como eles vão estar equilibrando os times, pra não ficar algo, assim, desproporcional, de um time pro outro. Costumo atribuir muita responsabilidade pra crianças.” “(...) eu costumo dividir, de forma igual, meninos e meninas. Geralmente, menino escolhe menina, menina escolhe menino. Ou, então, eu mando as meninas separem dois times, os meninos separam dois times e depois eu junto os dois times.”

“(...) final de mês eu costumo deixar a aula liberando para eles (...). Seria um momento que eles pudessem escolher (...) principalmente, as meninas acabam repetindo o jogo da aula na hora do recreio.”

“(...) trabalhei com bandeirinha estratégica. Eles têm que ter uma estratégica de jogo, uma combinação da defesa pro ataque pra estar ganhando o jogo. Então, eles montam o plano, apresentam o plano, depois tentam executar. (...) antes de começar o jogo, eu vou na cortina, escuto o plano, ai, depois volto com eles, vejo o que deu certo, o que deu errado.”

Inicialmente, Júlio Cesar expressa sua concepção sobre a função educativa do jogo para as primeiras séries do ensino fundamental. O professor considera o jogo como revelador da personalidade. Destaca que o jogo “trabalha muito com o êxito e com a vitória” E, ainda, com a liberdade de expressão das pessoas; por isso, acaba por expressar sentimentos que, talvez, não seriam revelados fora de uma situação de jogo. O professor relata que o jogo é uma representação da vida: “(...) representações de situações que a gente vai ter um êxito (...) vai lidar com uma frustração grande (...) tem que aguentar pessoas, lá, que não está contribuindo tanto.”. São situações que acontecem no meio familiar, no meio em que vivemos e dentro do nosso trabalho. Júlio Cesar afirma: “o jogo (...) vai preparando para a vida.”

Júlio Cesar tem a expectativa de ampliar as vivências lúdicas dos alunos da rede estadual. Para ele, os alunos da rede pública, embora tenham maior facilidade motora, têm

163 maior dificuldade de abstração do jogo, devido à limitada “bagagem cultural” desses alunos. O professor considera que “proporcionar um maior número de vivência possível para eles (...)” pode contribuir para “estar implementando os jogos, daqui da escola na vida cotidiana deles.”. Ao mesmo tempo, atribui a si a responsabilidade por estar diminuindo as diferenças no que se refere ao entendimento do jogo na rede estadual e na escola pública. Segundo ele: “(...) isso depende muito do nosso compromisso, a gente acaba tendo uma... precisa de ter uma automotivação muito grande (...).

No que se refere ao adversário, Júlio César alega que em suas aulas as crianças têm que respeitar o adversário, principalmente, quando eles ganham num jogo. Segundo ele: “Um grupo ganha. Tem que comemorar só a vitória não a derrota dele. Se não fosse ele ali você não teria ganhado. (...) a partir do momento que começou a comemorar a derrota dele quem perdeu foi você.”

O professor destaca a importância de respeitar o sentimento do outro, principalmente de quem perde, e enfatiza: “(...) vai ter dia que você vai estar num time e vai ganhar, vai ter dia que você vai estar no time e vai perder (...) você tem que respeitar o estado, aquilo que o