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Gostaríamos de começar por um ponto crucial para a compreensão do fato de um coletivo de performance se propor à produção de um evento de performance. Essa discussão despontou dentro do Coletivo ES3 entre a primeira e segunda edição do Circuito BodeArte, e dentre diversos argumentos e debates, apontou um rumo importante para esta dissertação e para a própria condição do evento.

Na primeira edição do Circuito BodeArte, com o menor número de inscritos, a performer Chrystine Silva e nós decidimos realizar uma apresentação de sua performance “Outro Manifesto”. Dentro do Coletivo ficou acordado que essa performance representaria nossa produção no transcurso do evento, e foi realizada na primeira noite de apresentações de performances.

Além desta performance, o nosso Trabalho de Conclusão de Curso28, assim como o da performer Chrystine Silva, foram apresentados dentro das atividades do Circuito, considerando o enfoque de pesquisa de ambos sobre performance e performatividade no campo de processos criativos na cena.

Em reunião de planejamento para a segunda edição do Circuito BodeArte, com as inscrições já encerradas, o ES3 pode se dar conta do crescimento exponencial de trabalhos que teria de produzir durante os dias de evento, e dessa vez se veria impossibilitado de apresentar performances próprias. Esse momento em específico marcou o início da discussão mencionada e complementou seu questionamento: afinal porque um coletivo de performance produziria um evento no qual ele mesmo não pode performar?

No enfrentamento dessa questão o ES3 encontrou um ponto em comum entre as quatro vozes de seus integrantes: “o BodeArte é a nossa performance”. Precisamente numa atitude de reflexão política sobre a produção da coletividade de performers que compõem o Circuito BodeArte, o Coletivo percebeu que todo o trabalho, esforço e criação envolvidos para ativar aquela coletividade era uma ação de performance. De performance como BodeArte, como esforço de sobrevivência e coletividade na precariedade de condições.

Ampliando essa discussão denotamos que ao produzir o Circuito BodeArte o Coletivo ES3 ativa em sua prática um discurso movente de empoderamento das ações em performance que produz.

Ao tramar visibilidade para ações que acontecem “clandestinamente” em espaços que trazem a nomenclatura de outras linguagens artísticas, a produção de um espaço como o Circuito BodeArte se estrutura como um esforço bravio e político de desvio do olhar para uma produção de performance arte, chamada e discutida como tal, no território brasileiro.

O ponto que destacamos nessa reflexão é o de que a ação política de evidenciação da ausência de espaços de performance, assim como a abertura para a convivência com a performance e processo do outro, o diálogo com performers para definição de lugares mais interessantes para acontecimento de suas performances, hospedar um performer e conviver com ele, são uma performance, pois são produtoras de um hackeamento (AQUINO, HOFMANN, MEDEIROS, 2012) nas estruturas de visibilidade da produção artística nacional, é propositora de desvios na forma de curadoria e convivência entre artista e

28 Os TCC apresentados durante o Circuito BodeArte foram ambos do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com orientação da Prof.ª Dr.ª Naira Ciotti, intitulados: “Você tem fome de quê? Estudos de pertencimento” (Chrystine Pereira da Silva), e “Gatilhos de Teatralidade: O Caso ES3” (André Luiz Rodrigues Bezerra).

produção de um evento, é fomentadora de uma zona de “viralização”, contaminação e diálogo entre processos criativos até então aquém uns dos outros, mesmo que apenas em parte.

Produção como performance é o esforço para fazer ver, sentir e conviver a própria linguagem da performance arte. Inferimos essa possibilidade com base no contexto de onde se lançou a proposta do Circuito BodeArte, o cenário das políticas culturais públicas e privadas potiguar, que na ocasião do acontecimento das duas edições locais e três edições regionais do evento não reconhecia a linguagem da performance em seus editais ou espaços de circulação29, deixando para a performance apenas a perspectiva de apresentar-se em eventos dedicados a outras linguagens artísticas.

Perceba-se que mesmo a visão de produção ora apresentada é um ato contaminado e polimorfo, a produção aqui não trata apenas das etapas de planejamento e execução do trabalho, mas também de ações como a do designer gráfico de peças de divulgação, assessoria de imprensa e manutenção de redes de comunicação on-line, deslocamento de artistas até seu local de hospedagem e até o evento, hospedar artistas, responsável pelo registro fotográfico e videográfico do evento, etc. Todas as ações citadas foram performadas pelo Coletivo ES3 como produtor do evento, como performer da construção dos caminhos para a existência do BodeArte.

Pensar a produção do Circuito BodeArte como performance é destacar o encontro como possibilidade de arte (RANCIÈRE, 2009), isto é, essa produção como esforço de possibilitar conviver práticas e fazeres diferentes da performance arte nacional estrutura “um arte30”, um risco, um deslocamento da ideia de performance trabalhada pelos diferentes processos criativos de performers advindos de vários pontos do Brasil através do encontro e troca entre si. “Um arte” é esta produção de deslocamentos assimétricos e que não podem ser

29 Na atual conjuntura, a partir da visibilidade promovida pelas edições do Circuito BodeArte e do diálogo movido pelos produtores desse, e performers da cidade do Natal, algumas instâncias privadas apresentam a performance como campo específico de seleção e envio de projetos para compor suas programações, como é o caso do Cena Aberta, promovido pelo Centro Cultural Casa da Ribeira, que abria vagas apenas para as linguagens artísticas do Teatro, Dança, Música e Ideias, esta última onde se indicava a possibilidade de inscrição de trabalhos de performance. Atualmente o Cena Aberta, em sua seleção 2012-2013, abriu legenda específica para a inscrição de performances, confirmando sua aposta no diálogo e visibilidade desta linguagem ao aprovar seis performances, num total de 18 selecionados.

O edital do Circuito Ribeira, que envolve um conjunto de atividades promovidas por cerca de dez espaços culturais no bairro da ribeira (Atelier Flávio Freitas, Espaço Gira Dança, Casa da Ribeira, DoSol Rock Bar, Buraco da Catita, etc.), e tem público médio de vinte mil pessoas, tomando ruas, halls, bares e palcos, abriu em sua seleção 2012-2013 espaço específico em sua convocatória para a seleção de performances, aprovando cerca de dezesseis trabalhos nessa área.

30 “Um arte” é uma corruptela tradicional da linguagem oral nordestina, e significa ação de risco, risco do corpo. Por exemplo, se uma criança corre pela rua onde há trânsito de carros, ela vai “acabar fazendo um arte”, ela está na iminência de um risco ao seu próprio corpo, e/ou ao corpo de terceiros. Esse ponto será discutido mais amplamente no Capítulo 3.

comensurados ou premeditados com relação a determinadas visões históricas e conceituais de performance formuladas a partir dos contextos americanos ou europeus de produção.

A produção de incomensurabilidades práticas e conceituais, através do encontro entre sujeitos e fazeres, torna-se também performance no trajeto do risco e imprevisibilidade da sua ação de autoquestionamento: o que é a performance entre os corpos dos que afirmam fazer performance no Brasil atual? Colocando-se fora de uma possibilidade de resolução desta gigantesca questão, o ato de produzir curadorias e eventos de performance no Brasil, paisagem onde se insere o Circuito BodeArte, não pode eximir-se dela.