O segundo ponto que gostaríamos de tratar é a escolha do Coletivo ES3 em realizar um evento “sem curadoria”. Explicamo-nos, a ideia de uma “não-curadoria” não se relaciona com a abolição de quaisquer aspectos relacionados à curar os trabalhos que compõem o Circuito BodeArte, mas conecta-se à divergência com relação à alguns princípios pressupostos nessa atividade.
A palavra curadoria tem raiz etimológica latina (curator) e especifica uma atividade de tutoria, que se liga praticamente às dimensões de tutoria como ensino, “aquele que ensina”, e como responsável, “aquele que é responsável por terceiro(s)”. A carga etimológica que traz essa palavra evidencia o curador como um sujeito cuja responsabilidade recai sobre uma atitude de atravessador e planejador. Atravessador no sentido de uma travessia de conhecimentos e objetos, e planejador no recorte de organizador das pré-definições daquilo que se diz, mostra, apresenta.
Múltipla e formada pelos mais diversos modos de operar a atividade do curador na arte contemporânea tem ganhado evidência como possibilidade formal da organização de mostras, festivais, bienais, etc. Como coloca Sonia Salcedo Del Castillo:
O exercício dessa atividade tem por objetivo determinar o conteúdo da exposição, normalmente obtido por meio de agrupamentos e articulações de semelhanças ou diferenças visuais ou conceituais que as obras possam revelar. Para isso, geralmente determina-se um conceito ou tema, a partir do qual, funcionando como fio condutor, elabora-se o processo para obtenção de uma unidade na mostra. (CASTILLO, 2008, p. 299/300).
Ao discutir-se a questão da curadoria nas reuniões que levaram a criação do Circuito, um fator transparecia na colocação dos membros da produção: a insegurança com relação ao
apontamento de seleções de artistas incluídos e excluídos da participação no evento. Essa insegurança advinha primeiramente pelo fato de que o Circuito BodeArte, apesar de todas as viabilizações e conexões que procura tecer para todas as performances inscritas, se trata de um evento “independente”, um evento realizado a partir de parcerias e investimentos financeiros pessoais de seus realizadores, não oferecendo qualquer tipo de premiação ou compensação monetária aos seus participantes.
Num segundo ponto, a produção do Circuito BodeArte era formada por um coletivo jovem em sua trajetória temporal, um coletivo de performers que possuía uma prática e funcionamento próprio, e que não desejava sobrepô-lo como uma inteligência normativa do que seria ou não aceitável.
Para o ES3, no momento de reflexão trazido por aquelas reuniões o ensejo era o de criar um espaço de encontro, questionamento e suspensão de “verdades” pressupostas sobre o que era ou não performance arte. Adentrar o espaço de uma seleção de trabalhos era uma atitude afirmativa que contradiria a própria intenção de abertura a imprevisibilidade do encontro entre fazeres distintos ensejada com a proposição do evento.
Assim, o Coletivo ES3 se propôs a não selecionar participantes, não optar por visões específicas de performance, já que a sua própria trajetória artística nesse campo respondia de maneira plural e movente a essa questão. Reafirmar o que o ES3 compreendia como performance (se é que existiria contração possível no Coletivo para este consenso), não era o interesse ao promover o Circuito BodeArte.
Ao optar por não selecionar performers e performances que viriam a compor o Circuito, surgia um entrave, ligado a ordem ética de que, em certo nível, a abertura total do Circuito deixava precedente para a premissa de que tudo é performance. Optou-se então por instaurar um sistema de inscrição presente e contínua, isto é, diferente de uma inscrição num festival ou edital, onde o material necessário e requerido é enviado e, após determinado período de espera, uma comissão de seleção se posicionará sobre sua inclusão ou não no recorte do evento, o Circuito BodeArte optaria por uma inscrição que não se encerra, que demanda que o inscrito reafirme sua presença como tal para participar do evento.
Insistir numa presença, insistir que autonomamente o performer optasse por afirmar-se unido ou não ao evento em construção, passou a ser o “critério de curadoria”. Decidiu-se que para participar do BodeArte, o performer deveria enviar a ficha de inscrição, disponibilizada pela produção, preenchida com as informações necessárias para o diálogo de organização de sua proposta, e além disso deveria participar de fóruns, enviar textos, e dialogar com outros performers para apresentar seu trabalho como parte do Circuito.
Assim não bastaria inscrever-se e estaria aceito e incluído, mas era o grau de envolvimento e comprometimento na construção das pontes de troca, que são o próprio sentido de performance do Circuito BodeArte, que determinariam se o performer estaria ou não participando com seu trabalho no evento. Estar no BodeArte não era apenas agregar um espaço de abertura para apresentação de uma performance, era antes um desejo manifesto de disponibilidade para o encontro com outras visões de performances dos demais participantes, e para a abertura de seu processo criativo e suas práticas aos demais performers.
A seleção como aspecto curatorial era ampliada em direção a outro enfoque prático, e a ação de cuidar da circuitação de conversas, questionamentos e encontros se tornava um processo compartilhado. Essa mudança apontou para um movimento em direção a convivência (viver-com) como espaço de produção de pensamento em performance, procurando fugir da performance-palavra-chave, no sentido de uma expressão repetida ou recortada segundo determinada afirmação discursiva, e admitindo a indeterminação do conteúdo e da forma do que seria articulado como performance.
Ainda a propósito da colocação de Castillo, essa atitude de não-curadoria, adotada para elaborar-se o Circuito BodeArte, desvia também da proposição de “unidade da mostra”. Assumindo a possibilidade de troca como espaço de criação de vínculos entre performer e evento, e do evento em si, admitir uma unidade nos trabalhos ou nos performers seria assumir o cessar do próprio movimento da performance e assim encerrá-la.
Percebendo a ideia de unidade como ação de reunião sem evidenciação das singularidades, pensar nesse princípio numa mostra não foi a intenção do Circuito BodeArte e sua produção, que compreendeu a partir de sua escolha a possibilidade epistemológica da pluralidade que não se une sob uma coesão temática, processual, ou conceitual, a riqueza de uma possibilidade de coletividade sem unidade.
É possível viver-com na paisagem ampla e diversa de artistas que operam no campo da performance arte, criando um espaço coletivo de relações, sem ceder ao referente de uma unicidade planejada para posicionar a afirmação de determinado recorte discursivo, intencionou mostrar o Circuito BodeArte. Afirmando esse modo de compor a ação das edições do Circuito realizadas pelo ES3, não denegrimos outros formatos de curadoria, ou fazeres de produção, apenas apontamos determinado território conceitual e prático que alinhavou as escolhas deste evento. Dito isso, é necessário manter em mente que, quando tratamos de performance arte, é importante nunca considerar que uma escolha ou prática discursiva é plana, é esvaziada de afirmações ou reafirmações que empoderam modos de arte, comportamento e existência no mundo.
Embora essa unidade da visão do curador não signifique o estabelecimento de significados permanentes, como coloca Aracy Amaral (2006), ou mesmo mais acertados, continua a se colocar como ponto de vista individual (AMARAL, 2006) sobre uma realidade, que posteriormente passará por eventuais revisões ou confrontos.
Na dinâmica a que se propõe o Circuito BodeArte em suas duas edições regionais, o percurso traçado não é o de revisionismos sobre enquadramentos orquestrados e apresentados ao público. A conjunção da coletividade produzida pelo evento, ao tecer uma maior autonomia e reconhecimento da singularidade da voz de seus indivíduos, é produtora de uma complexa heterogeneidade de possibilidades de reflexão, e assim como os artistas ao se comunicarem e formularem suas trocas constituem a curadoria mais ampla do evento em si, também realizam microcuradorias nos grupos menores que dialogam entre si, por determinadas afinidades ou discordância. Por sua vez o público com seu olhar, nos fóruns, palestras e mostras estabelece sua própria curadoria também.
O interessante nessa massa complexa de discursos que não pretende chegar a um arrazoado sobre suas diferentes vozes, mas vê-las manifestas como ato de pluralidade inerente, é o espalhamento quase micropolítico da esfera da curadoria nos mais diversos graus de experiência instituídas tanto pelo corpo dos performers, assim como das equipes técnicas, e público.
A revisão ou confronto é performada nas próprias trocas incomensuráveis dos graus diversos de experiência de cada sujeito em seus diferentes níveis de envolvimento com a coletividade produzida pelo Circuito BodeArte.
É sobre estes aspectos que se concentra a proposta de “não-curadoria” do Circuito BodeArte, que, como afirmamos no início desse tópico, é um termo que não define a contrariedade à uma ideia de curadoria, mas sim à determinadas políticas e enfoques que residem nas práticas curatoriais.