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Matéria publicada no dia seis de junho de 2013, pelo portal de Notícias G1, da Globo, informa que a presença de meios mediáticos em tribos indígenas, principalmente a Internet deixa de ser espanto ou novidade. A publicação apresenta como manchete: “Índios usam mídias sociais para fortalecer voz própria172”.

O texto, reproduzido da rede BBC, descreve como os índios utilizam principalmente o Facebook para comunicarem-se entre eles e fora das aldeias. A reportagem cita, como exemplo, a morte do índio Terena Gabriel Oziel, no dia 30 de dezembro de 2012, pela Polícia Federal de Mato Grosso do Sul. O confronto ocorreu durante uma ação de reintegração de posse em Sidrolândia (MS), poucos minutos bastaram para que outra batalha se organizasse em outro front: na Internet.

O texto assegura que a força do uso das mídias sociais pelos indígenas por meio da Fanpage: "Resistência do Povo Terena173" obrigou o Ministro da Justiça, José

170 Ibid., p.118. 171 Ibid., p.128.

172 Link acessado pela última vez no dia 3 de janeiro de 2014.

http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/06/indios-usam-midias-sociais-para-fortalecer-voz-propria.html

Eduardo Cardozo, ir a público para assegurar que a corregedoria da PF investigaria o caso.

Figura 24: Foto como ilustração Índio Terena Dionédison administra o Facebook da página

Resistência do Povo Guarani.

Fonte: VENDRAME, 2013

O advogado terena Luiz Henrique Eloy, de 24 anos, diz que jornais e TVs que cobrem conflitos agrários em Mato Grosso do Sul costumam se posicionar contra os índios.

"Quando nos ouvem, colocam apenas a parte que (lhes) interessa", afirma à BBC Brasil. Eloy aponta, ainda, que muitos jornalistas, em vez de divulgarem as opiniões dos índios sobre temas que lhes dizem respeito, costumam tratar a Fundação Nacional do Índio (Funai) – órgão subordinado ao Ministério da Justiça – organizações não governamentais (ONGs) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – ligado à Igreja Católica – como representantes legítimos dos indígenas174.

O dito pelo índio Eloy, é visto por Charaudeau como: “Assim constituem-se exclusões, e, portanto, os territórios e fronteiras de um espaço ao redor do qual é percebido como o mesmo ou o outro, num jogo permanente entre movimentos de “normatização segundo Habermas, de publicitação segundo Arendt, e,

174 Trecho da reportagem: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/06/indios-usam-midias-sociais-para-

acrescentaríamos, para compreender o papel desempenhado pelas mídias, de “presentificação175”.

Na tentativa de obter mais informações sobre o suporte mediático usado pela tribo, no dia 17 de janeiro de 2014, mensagem176 foi enviada ao administrador do

Facebook mantido pela Resistência do Povo Terena: “— Você pode passar seu telefone para eu conversar? Na minha tese eu estou escrevendo sobre a chegada da Internet na aldeia guarani Tekoha Añetete aqui no Paraná, em Diamante do Oeste, perto de Foz do Iguaçu”.

Em menos de 15 minutos, Dionédison respondeu: “— Olá Sonia, meu tel é 67/ 9932-8740 (Vivo). Meu nome é Dionédison. Sou da etnia terena de MS. É um tema interessante a questão do meio de comunicação nas aldeias. Sabe que somos vítimas da televisão, jornais e outros... Temos um desafio grande pela frente como lidar ou seja, saber usá-la e não nos usando. Adiantando um pouco, na minha aldeia, a Internet tem mudado comportamentos, principalmente dos adolescentes, muitos deles preferem conhecer mais a internet e esquecer nossa cultura”.

Na primeira tentativa de falar via telefone, Dionédison atendeu, porém disse que estava em uma reunião. “Você pode ligar, novamente, às 13h, horário daqui do MS e 14h de vocês do Paraná”, pediu. Ao tentar no horário solicitado, apenas informava a caixa postal. Apesar de a tentativa não seguir adiante, o diálogo revelava um novo discurso do interlocutor.

“Meu celular é Vivo”. Ao indicar a operadora, o índio já adianta de onde falava. Ao dizer: “Estou em uma reunião”, indicava que a aldeia estava reunida, ele estava ocupado com o mundo moderno, falava como o mundo moderno fala. Dionédison usava os signos para comunicar-se fora da aldeia.

Ao responder a mensagem sobre o motivo do contato que era a Internet, que o fazia ‘moderno’, ele não rejeitava o suporte, ao contrário, dizia fazer uso dele para combater outra leitura, a de apagamento ou de interpretação outra da propagada pela “TV, jornais e outros”.

Ao mesmo tempo em que usava a Internet como arma para fazer frente aos veículos mais tradicionais, ele acusava a própria Internet de estar apagando a própria

175 CHARAUDEAU, Patrick. Discursos da Mídia. Tradução Ângela S. M. Correa. São Paulo, Contexto,

2006. p. 117.

existência. “A Internet tem mudado comportamento, principalmente dos adolescentes, muitos deles preferem conhecer mais Internet e esquecer nossa cultura”.

Dionédison vivia a contradição e, ao fazê-lo, instalava a diferença, e nesta diferença declarava a resistência ao dizer: “Temos um desafio grande pela frente como lidar, ou seja, saber usá-la e não nos usando”. “As identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela”177.

O motivo da “reunião” citada por Dionédison foi estampada na página, cerca de 40 minutos após o fim da ligação. Chamava líderes e moradores para assembleia. Em 47 minutos a postagem foi compartilhada por 14 pessoas. Ao observar quem era a comunidade que havia partilhado, estavam outras aldeias e também simpatizantes do movimento em diversas cidades do Brasil.

177 HALL, Stuart. Quem precisa da identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da et al. (orgs). Identidade e

Figura 25: Foto como ilustração Conteúdo divulgado no Facebook, resultado da “reunião”, citada por Dionédison.

Fonte: VENDRAME, 2013