A dor faz parte de um contexto de entendimento escasso, principalmente quando se está perante uma dor crónica, acabando por ser difícil para os doentes portadores de dores crónicas, assim como para os profissionais de saúde, que se sentem desesperados e incapazes (Seldrake, 2005). Isso acontece porque existe uma compreensão de que a dor crónica não é curável, contudo é possível realizar uma administração adequada para o doente.
Desta forma, neste ponto iremos explorar o uso de modelos conceptuais que promovem e desenvolvem a compreensão da dor crónica. A perceção que existe em relação à dor é que esta não é comportada de forma sequencial, permanecendo na maior parte das vezes muito tempo depois de já ter sido tratada. Posto isto, percebe-se a importância do controlo da dor crónica, a nível médico e psicológico mas, continua a ser um problema particularmente de difícil resolução.
3.2.1. Modelo Biomédico
O modelo biomédico envolve processos patológicos, identificando padrões consistentes observáveis de sintomas, as causas e a duração desses sintomas (Seymour
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& Paz, 2004). Este modelo não inclui fatores psicológicos ou sociais, refletindo sobretudo processos orgânicos (Pais Ribeiro, 2005).
O modelo biomédico é aplicado de forma sequencial, sendo frequentemente utilizado para descrever processos que envolvem estados físicos e que são tratados por meios fisiológicos. A dor faz parte do campo de investigação da medicina, pelo facto de ser um acontecimento do corpo a nível físico (Bonica, 1990, cit. in Seldrake, 2005). Quando isto acontece, os tratamentos para a dor, que estão disponíveis na medicina são: medicação, cirurgia e fisioterapia.
Contudo, quando a dor crónica não responde às medidas tomadas pela medicina, torna-se um grande problema. Em muitos casos, essas medidas que são tomadas para ajudar o paciente, por vezes acabam por agravar a situação e gerar novos problemas, o que faz com que haja um aumento da dor e da incapacidade (Seldrake, 2005). Deve-se ter em consideração o fator ambiental, o fator psicológico e as emoções que estão a ser produzidas pelo paciente, pois isto tudo é traduzido, interpretado e respondido pelo sistema nervoso. Quando falamos do sistema nervoso, deve-se referir que este é complexo e, as representações holísticas que surgem não são excluídas pelas perceções e interpretações do dia-a-dia, contudo, isto pode influenciar as atitudes (Bendelow & Williams, 1995). Perante isto, o modelo biomédico normalmente não é utilizado da devida forma a nível da sofisticação neurofisiológica e, quando é necessário ser utilizado para o tratamento da dor crónica, acaba por excluir e ignorar diversos fatores que são envolvidos no desenvolvimento e manutenção da dor.
Tradicionalmente, a dor, que cada vez tem sido mais estudada, é considerada como parte da perspetiva do modelo biomédico (Bendelow & Williams, 1995). Nesta linha de pensamento, o tratamento da dor crónica é estimado que seja feito num hospital, por uma equipa treinada, em que o objetivo é alcançar primeiramente o diagnóstico e seguidamente a cura. Os profissionais de saúde observam a parte do corpo onde se manifesta a dor, estando preparados para conseguirem identificar o porquê dos sujeitos sentirem dor.
Na maioria das situações clínicas existe um compartilhamento de tratamentos a nível físico entre os especialistas, sendo isso considerado como necessário e importante. Segundo Bendelow e Williams (1995), quando se está perante áreas específicas, como a reabilitação, cuidados paliativos, oncologia e dor crónica, o compartilhamento de
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tratamentos já não faz sentido, pelo facto que é necessário observar os aspetos psicológicos, sociais, não sendo apenas físico.
Todavia, este modelo biomédico é limitado e incapaz de explicar vários prodígios observáveis. Um exemplo disto é referido por Beecher, em 1956, quando comparou civis e soldados feridos em Anzio na 2ª Guerra Mundial com ferimentos e traumatismos graves, apresentando o mesmo grau de lesão (Loeser, 2001). No pedido de alívio da dor, oitenta por cento dos civis implorava por mais medicamentos, enquanto que nos soldados apenas vinte e cinco por cento o faziam. O significado que Beecher deu a esta constatação foi o sentido atribuído aos ferimentos, ou seja, no caso dos soldados ter ferimentos era uma condição positiva pois significava que tinham terminado a sua participação na guerra, acabando por mediar a dor.
3.2.2. Modelo Biopsicossocial
Segundo Seldrake (2005), existe três áreas que afetam o indivíduo: 1- O corpo do indivíduo a nível fisiológico, como por exemplo órgãos.
2- Os pensamentos, interpretações, sentimentos, respostas internas e externas e aprendizagens, ou seja o psicológico do indivíduo.
3- O fator social e ambiental do indivíduo, onde está inserida a família e os restantes elementos que vivem consigo, assim como o contexto cultural onde vive.
Quando se está perante o modelo biopsicossocial estas três áreas são imprescindíveis e estão relacionadas umas com as outras. Sendo importante perceber onde cada área está inserida e qual é o seu contributo consoante os fenómenos analisados (Brown, Bonell & Pollard, 2005).
Na perspetiva do modelo biopsicossocial, a dor é avaliada juntamente com a recuperação. Caso isto não aconteça, provavelmente a dor poderá aumentar e assim terá que ser tratada e controlada com os métodos tradicionais (Brown, Bonell & Pollard, 2005). Quando está presente uma incapacidade de controlo da dor, podem surgir traumas psicológicos e emocionais, podendo assim gerar problemas secundários, por exemplo aumento da ansiedade, depressão, estigmatização por parte da sociedade e diminuição de atividades do dia-a-dia.
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Neste modelo, o tratamento para a dor crónica requer que o indivíduo considere uma perspetiva multidimensional, ou seja deve incluir o estado físico, psicológico e social (Pais Ribeiro, 2005). Para isso são utilizados meios sistemáticos e conceptuais, tendo sempre em conta a complexidade que existe na dor crónica, principalmente quando nos referimos ao desenvolvimento e manutenção. Este modelo biopsicossocial auxilia os profissionais para que estes consigam ajudar os indivíduos, no que diz respeito ao controlo da dor e a evitarem a decadência.
O modelo biopsicossocial também tem impacto nas famílias, permitindo que exista um maior entendimento das relações em simultâneo com o contributo que isso possa ter para a dor (Pais Ribeiro, 2005). Isto pode ajudar os indivíduos a entenderem melhor as explicações que são feitas através dos profissionais de saúde e, permitindo que aprendam como devem controlar a dor.
Como referido anteriormente, é um facto que as emoções e os sentimentos são reconhecidos pela dor, de forma a não ser apenas uma experiência sensorial como também emocional, pelo que as investigações são bastante complexas no que diz respeito à experiência emocional. Porém Silva e Branco (2001) referem que os indivíduos que apresentem estados emocionais negativos, como por exemplo ansiedade e depressão, estes tendem a apresentar uma maior tendência para a dor, existindo um declínio na sua qualidade de vida.
Para além disto, os pensamentos e as crenças do indivíduo também fazem parte da experiência da dor, sendo que este pode adquirir uma postura psicológica adaptativa ou não-adaptativa. Assim, o indivíduo pode encontrar maneiras de lidar com a dor, como por exemplo estratégias de coping.