Desde o conceito como “ciência das idéias”, formulado pelo filósofo francês Destutt de Tracy, em 1796, até suas concepções contemporâneas, a ideologia tem sido alvo de diferentes definições, dependendo do contexto sócio-histórico e político em que é formulado, dos diferentes campos do conhecimento no qual é empregado, do posicionamento político de seus autores, dos objetivos e interesses desses estudiosos, entre outros fatores de interferência na sua elaboração.
São tantas as concepções e significados atribuídos ao conceito de ideologia que os pesquisadores sobre o tema têm realizado verdadeiras “escavações arqueológicas” para resgatar a origem, identificar o sentido e analisar a evolução e os atributos de tal conceito. Löwy (1993, p. 11), investigando-o sob o enfoque das ciências sociais, conclui que “nele se dá uma acumulação fantástica de contradições, de paradoxos, de arbitrariedades, de ambigüidades, de equívocos e de mal entendidos, o que torna extremamente difícil encontrar o seu caminho neste labirinto”.
Stoppino (Apud. BOBBIO et al. 2004, v. 1, p. 588), sob o viés da ciência política, faz a mesma advertência:
[...] tanto na linguagem política-prática, como na linguagem filosófica, sociológica e político-científica, não existe talvez nenhuma outra palavra que possa ser comparada à ideologia, pela freqüência com que é empregada e, sobretudo, com a gama de significados diferentes que lhe são atribuídos.
Como um dos enfoques centrais da HP, Thompson (1995) também recupera a origem do conceito de ideologia. Sua escalada inicia-se em de Tracy e chega até pensadores mais contemporâneos. Neste percurso, seu objetivo não é apenas apresentar um novo conceito de ideologia mas, principalmente, sistematizar uma metodologia que identifique os modos como a ideologia opera nos meios de comunicação de massa já que estes se tornaram “fator principal de transmissão da ideologia nas sociedades modernas [...]”, embora não seja o único (Ibidem, p. 31). Identificar a ideologia e as maneiras como esta operava no discurso da imprensa republicana catarinense são as questões centrais de nossa pesquisa, daí a necessidade de retomarmos a trajetória de Thompson.
No conjunto de análises do conceito de ideologia feitas pelo autor, ele destaca duas categorias de concepções: neutra e crítica. Na primeira, ele enquadra os conceitos de
Tracy, Lênin, Lukács e Mannheim (na sua formulação geral da concepção total). Na segunda, inclui os conceitos de Napoleão, Marx e Mannheim (na concepção particular).
As concepções neutras, conforme Thompson (Ibidem, p. 72), “tentam caracterizar fenômenos como ideologia, ou ideológicos, sem implicar que esses fenômenos sejam, necessariamente, enganadores ou ilusórios, ou ligados com os interesses de algum grupo em particular”. Em outras palavras do próprio autor (Ibidem, p. 72-73),
A ideologia pode estar presente, por exemplo, em qualquer programa político, independentemente de estar ele orientado para a revolução, a restauração ou a reforma, independentemente de desejar a transformação ou a preservação da ordem social. A ideologia pode ser necessária tanto para manter submissos os grupos, em luta contra a ordem social, como para os grupos dominantes, na defesa de seu status quo.
Por outro lado, as concepções críticas são aquelas que “possuem um sentido negativo, crítico ou pejorativo”, que é “enganador, ilusório ou parcial” (Idem).
Examinemos, pois, a construção destas concepções. O conceito de ideologia como “ciências das idéias”, formulado por de Tracy, é de inspiração iluminista e nasceu associado ao republicanismo francês. O filósofo argumentava que “não podemos conhecer as coisas em si mesmas, mas apenas as idéias formadas pelas sensações que temos delas”. Portanto, como um meio de análise das idéias e das sensações, “a ideologia possibilitaria a compreensão da natureza humana e, desse modo, possibilitaria a reestruturação da ordem social e política de acordo com as necessidades e aspirações dos seres humanos”. Apresentava-se como “ciência superior” ou “primeira ciência”, com função “positiva, útil e suscetível de exatidão rigorosa” (Ibidem, p. 45).
Por sua aproximação com o ideal republicano, o que confrontava com o autoritarismo de Napoleão Bonaparte, este desqualificou o conceito de ideologia de Tracy como “doutrina especulativa abstrata, que estava divorciada das realidades do poder político” (Ibidem, p. 46). Apesar das críticas e da desconfiança de subversão do pensador francês e de seu grupo de pesquisadores, Napoleão se apoiou em algumas das idéias de Tracy na elaboração da constituição francesa.
À medida que a tirania napoleônica começou a ruir, se acirrou a oposição do imperador às idéias de Tracy e seus colaboradores, os quais Napoleão chamava de ideólogos. Nesta fase, Napoleão imprime uma conotação negativa ao conceito de ideologia. Mais que
uma representação simbólica ou um discurso, a ideologia passou a ser um instrumento de coação, de censura, de repressão. “Praticamente todos os tipos de pensamento religioso, ou político, foram condenados como ideologia. O próprio termo se tornou uma arma nas mãos de um imperador, lutando desesperadamente para silenciar seus oponentes e para sustentar um regime em destruição” (Ibidem, p. 47).
De Karl Marx, Thompson (1995) extrai três concepções dos muitos conceitos de ideologia formulados pelo pensador alemão e das várias interpretações feitas a partir desses conceitos por seus seguidores como Engels, Lênin, Lukács e Gramsci: a concepção polêmica, a epifenomênica e a latente. Concepções que, na análise de Thompson, apresentam ambigüidades e sobrepõem uma à outra e que ora são abstratas ou impraticáveis, errôneas ou ilusórias, expressam interesses dominantes ou ainda sustentam relações de dominação. Como essência, atribuem um sentido negativo ao conceito de ideologia assim como o fez Napoleão, porém, apresentam maior consistência ao incorporar um referencial teórico e um programa político, ou seja, uma visão crítica.
Na concepção polêmica, Marx e Engels definem ideologia como “uma doutrina teórica e uma atividade que olha erroneamente as idéias como autônomas e eficazes e que não consegue compreender as condições reais e as características da vida sócio-histórica” (Ibidem, p. 51). É polêmica porque seus autores criticam, zombam e procuram desacreditar o “pensar crítico” dos jovens hegelianos (Feuerbach, Bauer e Stirner) que defendiam a ideologia como uma luta de idéias contra idéias como se estas fossem autônomas, desvinculadas da realidade e ao mesmo tempo pudessem modificar essa realidade.
A polêmica, de acordo com Thompson (Ibidem, p. 51-53), não está na concepção em si, mas por ela apresentar pressupostos como:
a) as formas de consciência dos seres humanos são determinadas pelas condições materiais de sua vida; b) o desenvolvimento das doutrinas teóricas e das atividades teóricas que vêem das idéias como autônomas e eficazes se torna possível pela divisão, historicamente emergente, entre trabalho material e trabalho mental; c) as doutrinas e as atividades teóricas que constituem a ideologia podem ser explicadas pelo estudo científico da sociedade e da história, e por tal estudo devem ser substituídas.
A concepção epifenomênica, para Thompson (Ibidem, p. 54), coloca a ideologia como “dependente e derivada das condições econômicas e das relações de classe e das relações de produção de classe”. A ideologia, nesta perspectiva, é definida como “um sistema
de idéias que expressa os interesses da classe dominante, mas que representa relações de classes de uma forma ilusória” (Idem).
Na terceira e última concepção com base em Marx, a latente, a ideologia é definida como
[...] um sistema de representações que servem para sustentar relações existentes de dominação de classes através da orientação das pessoas para o passado em vez de para o futuro, ou para imagens e ideais que escondem as relações de classe e desviam da busca coletiva de mudança social (Ibidem, p. 58).
Esta concepção, na interpretação de Thompson (Ibidem, p. 59), chama atenção para o fato de que “as relações sociais podem ser sustentadas, e as mudanças sociais impedidas, pela prevalência ou difusão de construções simbólicas”, o que ele chama de “processo de conservação social dentro de uma sociedade que está passando por uma mudança social sem precedentes [...]”.
Mannheim (1968), em uma concepção mais atual de ideologia, estabelece uma ponte entre a teoria da ideologia e a Sociologia do Conhecimento. Inicia sua análise distinguindo a ideologia em dois significados: o particular (vinculado ao nível psicológico do indivíduo) e o total (estrutura global do pensamento coletivo). O primeiro denota ceticismo em relação às idéias e representações apresentadas pelo oponente, são como “disfarces mais ou menos conscientes da real natureza de uma situação, cujo reconhecimento não estaria de acordo com seus interesses” (Ibidem, p. 82). O segundo, caracteriza-se por ser ideologia de uma época ou de um grupo histórico-social concreto.
A partir da concepção total, Mannheim faz a distinção entre formulação restrita e
genérica do conceito de ideologia. Para Thompson (1995, p. 67), na perspectiva da
formulação genérica, pode-se definir ideologia como “sistemas interligados de pensamentos e de modos de experiência que estão condicionados por circunstâncias sociais partilhadas por grupos de pessoas, incluindo as pessoas engajadas na análise ideológica”.
Esta concepção, de acordo com Thompson, deu ao conceito de ideologia um caráter neutralizante. Como observa o próprio Mannheim (1968, p. 103-104), “a teoria simples da ideologia evolui para a Sociologia do Conhecimento. O que anteriormente constituía o arsenal intelectual de uma das partes se transformou em um método de pesquisa da história intelectual e social em geral”. Esse método, acrescenta Thompson (1995, p. 67), não tem como objetivo “denunciar e criticar o pensamento do adversário de alguém; ao
contrário, é analisar todos os fatores sociais que influenciam o pensamento, incluindo o próprio”. Ou, em outras palavras de Mannheim (1968, p. 104), visa “dotar os homens modernos de uma visão retrospectiva de todo o processo histórico”.
Finalizando o percurso de Thompson, este entende que os conceitos de ideologia de Lênin e Lukács também apresentam uma “neutralização implícita” porque ambos apontam em direção a uma ideologia do proletariado. Porém, Lênin temia que o proletariado não conseguiria desenvolver uma ideologia genuinamente socialista e que permanecesse influenciado pela ideologia burguesa. Daí, sua ênfase de que só os intelectuais, distanciados das lutas cotidianas, poderiam conceituar a ideologia do proletariado – a ideologia socialista – “no sentido que ela expressa e promove os interesses do proletariado no contexto da luta de classes” (Ibidem, p. 63).
Lukács também atribuía um papel significativo ao proletariado e sua ideologia dentro do processo de luta de classes. Porém, seguindo a perspectiva marxista, Thompson (Idem, p. 64) defende que a ideologia “são idéias que expressam os interesses da classe dominante; elas não são idéias que expressam os interesses de classe como tais”.