Após analisar as diferentes concepções do conceito de ideologia, Thompson (1995, p. 75-76) formula seu próprio conceito, porém, mais interessado em identificar “[...] as maneiras como as formas simbólicas se entrecruzam com relações de poder” e com as “[...] maneiras como o sentido é mobilizado [...] para reforçar pessoas e grupos que ocupam posição de poder”. Assim, para o autor, estudar a ideologia é analisar “as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação”. Apoiando-se em parte da concepção latente de Marx, reforça: “Fenômenos ideológicos são fenômenos simbólicos significativos desde que eles sirvam, em circunstâncias sócio-históricas específicas, para estabelecer e sustentar relações de dominação”. Ou seja, para Thompson (1995), não há ideologia de dominados, ideologia de resistência, ideologias emergentes que buscam subverter os status quo vigente. Há, no máximo, o que ele define como “formas simbólicas contestatórias” ou “formas incipientes da crítica da ideologia”.
A proclamação da república no Brasil e em muitos países da América é efeito direto da instauração das repúblicas americana e francesa e não é simples coincidência o fato
da proclamação no Brasil ter ocorrido exatos cem anos após a da França. Ambos têm origem no iluminismo que exaltava a razão, a ciência, o conhecimento, enfim, a crença de que o
progresso histórico da humanidade se daria não por obra divina, mas como resultado da
razão, do trabalho e do conhecimento humanos.
No Brasil, até a proclamação e talvez por muitos anos ainda, não se pode afirmar que a ideologia republicana fosse dominante. Do mesmo modo, que não se pode afirmar que não havia uma ideologia republicana antes do histórico 15 de Novembro. Era, sim, uma ideologia emergente, de resistência, de oposição à monarquia. Um sistema de idéias que se propunha pensar o Brasil como um estado-nação dentro de novas características e perspectivas.
Não compartilhamos da concepção de que a ideologia serve apenas a grupos dominantes, que seja apenas um instrumento de classes (burguesia e proletariado), uma forma enganadora para sustentar os que estão no poder ou o meio pelo qual opositores procuram desmascarar os grupos de dominação. Porém, percorremos a trajetória de Thompson até aqui para situarmos a origem e as variadas vertentes do conceito de ideologia e compreendermos o desenvolvimento de sua metodologia que visa identificar os modos de operação da ideologia nos meios de comunicação. O objetivo é aplicá-la à análise discursiva da imprensa republicana catarinense. Este percurso também contribui para identificarmos o conceito de ideologia mais apropriado ao nosso objeto de pesquisa.
O método desenvolvido por Thompson (1995) para verificar o modus operandi da ideologia nas construções simbólicas é dividido em cinco categorias – legitimação, dissimulação, unificação, fragmentação e reificação – cada qual com suas respectivas estratégias discursivas. Foi desenvolvido para identificar como esses modos e estratégias servem para estabelecer e sustentar a ideologia dominante. Porém, nossa proposição é, por meio deste mesmo método, analisar os modos e as estratégias de operação da ideologia pela imprensa republicana catarinense, que buscava subverter a ideologia dominante.
Ainda que o método tenha sido elaborado para analisar a ideologia nos discursos dominantes, entendemos que ele seja válido para a análise discursiva da ideologia em outros grupos que não o de dominadores. Não identificamos, necessariamente, neste procedimento, um confronto entre referenciais teórico e metodológico. Trata-se de uma adaptação viável pois todos os elementos apresentados por Thompson (1995) como componentes dos modos e estratégias discursivas da ideologia dominante, podem constar também na ideologia de discursos emergentes, uma vez que as formas simbólicas, por sua natureza arbitrária, são
suscetíveis das mais variadas formas de análise e interpretação. O método de análise será o mesmo, porém, com objetivos diferentes.
Não nos interessa aqui identificar se a ideologia é boa ou má, se é enganadora ou não. Interessa-nos analisar como a ideologia era operacionalizada nos discursos dos jornais republicanos, qual a estratégia utilizada no sentido de persuadir o leitor à causa republicana. Para tal, adotaremos como conceito de ideologia aquele formulado por Mannheim (1968) e já desenvolvido no item 2.5.2., na sua formulação geral da concepção total, qual seja, analisar todos os fatores sociais que influenciam o pensamento dos mais variados grupos imbuído da “coragem de submeter não só o ponto de vista do adversário, mas todos os pontos de vista, inclusive o seu, à análise ideológica” (Ibidem, p. 103).
A adoção desta concepção nos é reforçada por aquelas que Marcondes Filho (1997) apresenta como características da ideologia: pertencer sempre a um grande grupo de pessoas, nunca a um sujeito separadamente; viver fundamentalmente de símbolos, trabalhada com símbolos e formada por estereótipos; um conjunto de valores que o indivíduo preza, algo pelo qual a pessoa tem uma grande consideração; uma forma de ver o mundo, uma visão de mundo; tem uma grande capacidade de mobilizar as pessoas e as massas; apresenta-se como progressista, avançada ou revolucionária, não pelas declarações, pela ostentação, pelo que o sujeito fala, ela só o é pela prática, pela ação do sujeito.
Marcondes Filho (Ibidem, p. 9) desmistifica a ideologia apresentando-a como algo vivo, “um conjunto de idéias, valores, intenções aspirações na cabeça das pessoas” e que “participa da vida cotidiana, como influencia e atua nas pessoas em todos os ramos de atividade”. Ele argumenta que a ideologia vai além da questão de classes, de quem domina quem.
A ideologia não é apenas uma questão política: ser contra ou a favor ao proletário, contra ou a favor à burguesia, contra ou a favor ao capitalismo ou ao socialismo. Estes conceitos já não estão muito claros pelo fato de, por um lado, os países chamados ‘socialistas’ demonstrarem uma grande resistência a passarem ao trabalhador o controle real do país, em suprimirem de fato as classes, a burocracia, as elites e, de, por outro, a burguesia ou a sociedade capitalista oferecerem uma série de vantagens (que de fato são vantagens provisórias, aparentes) aos trabalhadores (Ibidem, p. 19).
Fundamentalmente, prossegue Marcondes Filho (Ibidem, p. 33), a ideologia surge a partir do “processo de trabalho como algo que faz parte da vida e da consciência das pessoas, as quais através desse processo almejam provocar mudanças”. É essa idéia de
ideologia que tem como característica a ação, a mudança, a recriação dentro de um processo dialético, o ideal que move os mais variados grupos, que entendemos ser a força motriz da sociedade. Nosso objetivo é analisar de que modo essa ideologia emergente era operacionalizada no discurso da imprensa republicana catarinense.
Para tal objetivo, entendemos que o método de modos de operação da ideologia, desenvolvido por Thompson (1995), é uma ferramenta eficaz. Esses modos serão nossas categorias de análise dentro da técnica de análise de conteúdo apresentada por Bardin (2004). Com base em Thompson (1995), apresentamos uma síntese desses modos e suas respectivas estratégias de construção simbólica:
Legitimação: segue a definição de Weber como “algo justo e digno de apoio”. Está baseada em três fundamentos: racionais (que fazem apelo à legalidade de regras dadas), tradicionais (que fazem apelo à sacralidade de tradições imemoriais) e carismáticos (que fazem apelo ao caráter excepcional de uma pessoal individual que exerça autoridade).
As estratégias através das quais a legitimação se insere nos discursos midiáticos são a racionalização (cadeia de raciocínio que visa defender ou justificar relações ou instituições sociais, e persuadir o público em torno de uma causa); a universalização (aquilo que é de interesse de alguns passa a ser veiculado como de interesse de todos); e a narrativização (o presente é apresentado como decorrência das tradições do passado).
Dissimulação: dá-se pela negação, ocultação, pelo obscurantismo ou pelo desviar da atenção do leitor à questão central. Sua estratégia está no deslocamento (quando as conotações positivas ou negativas são transferidas de uma pessoa a outra); na eufemização (realce do aspecto positivo da situação, das pessoas ou instituições); no tropo (sinédoque, metonímia e metáfora são usadas para dissimular certas relações).
Unificação: cria uma identidade coletiva através de formas simbólicas. Suas estratégias são: padronização (as formas simbólicas são adaptadas a um referencial padrão);
simbolização da unidade (criação e difusão de símbolos de unidade, de identidade e de
identificação coletiva com bandeiras, hinos, etc).
Fragmentação: ao contrário da unificação, visa segmentar o grupo dominante ou de oposição. Tem como estratégia a diferenciação (dá ênfase às diferenças, às divisões que desunem os grupos de oposição); expurgo do outro (implica em construir a imagem do outro como inimigo, mau, ameaçador, contra o qual os grupos são chamados a resistir ou expurgá- lo).
Reificação: aquilo que é transitório, histórico, pode ser construído como permanente, natural, atemporal. Visa eliminar ou ofuscar o caráter sócio-histórico dos fenômenos. Usa como estratégia a naturalização (coisas resultantes de um processo social e histórico são retratados como acontecimentos naturais); eternalização (fatos sócio-históricos são esvaziados de seu caráter histórico ao serem apresentados como permanentes, imutáveis e recorrentes); nominalização e passivização (a primeira estratégia se dá quando as sentenças, descrições da ação e dos participantes são transformadas em nomes – “o banimento das importações” ao invés de “o Primeiro-Ministro decidiu banir as importações; a segunda estratégia ocorre quando a estrutura da sentença é colocada na voz passiva). Em suma, a
nominalização e a passivização visam minimizar os atores e as ações desenvolvidas como se
elas pudessem se realizar por si só.
Apesar de sustentar em toda sua argumentação que estas estratégias são instrumentos para criar e sustentar relações dominantes, Thompson (Ibidem, p. 89) abre sua retaguarda ao considerar que
Se as formas simbólicas assim produzidas servem para sustentar relações de dominação ou para subvertê-las (grifo nosso), se servem para promover indivíduos e grupos poderosos ou para miná-los (grifo nosso), é uma questão que só pode ser revolvida examinando como essas formas simbólicas operam em circunstâncias sócio-históricas particulares, como elas são usadas e entendidas pelas pessoas que produzem e recebem nos contextos socialmente estruturados da vida cotidiana.
Parece-nos claro que a imprensa republicana catarinense, nas construções simbólicas estampadas em suas páginas, visava justamente subverter e minar a ideologia monarquista e inserir na agenda pública um novo regime de governo estruturado dentro de uma emergente vertente ideológica: o republicanismo. De natureza laudatária, aquela imprensa se utilizou de estratégias para legitimar a república e negar a monarquia. A forma como foi construída e o sentido dado a essa legitimação e essa negação através das formas simbólicas, são as essências dessa pesquisa.