IV. Discussion
4.1 DISCUSSION OF THE MATERIALS
Diante do exposto até aqui, urge a compreensão do processo neoliberal, pois o mesmo foi/é anunciado como globalização quando na verdade o neoliberalismo é a face mais atual da globalização.Os sujeitos que destacamos nesse processo epistemológico de constituição de uma narrativa histórica marxista são os trabalhadores brasileiros como classe social e econômica oriunda das mudanças ocorridas nas décadas de 1990 a 2010.
As transformações no capitalismo mundial e, portanto, trabalhadores brasileiros inseridos numa nova forma de acumulação capitalista num processo reestrutural da produção e consequentemente de suas próprias condições de vida. Assim, o contexto histórico são as mudanças produtivas veiculadas e vinculadas pelas classes dominantes evidenciadas nas ações do Estado brasileiro, nas suas reformas de 1990 a 2010, e no novo papel do mercado mundial liderado pelo mercado financeiro também global.
O fazer-se da classe thompsoniano nestes tempos de globalização precisa ser pensado pelas ações estruturantes do capitalismo, pois negar a estrutura é negar o mundo real e essa realidade é materializada pelo/no cotidiano, manifesto na edificação de espacialidades, em outras palavras, a classe trabalhadora faz-se mediante os desafios e esses são espacializados, daí a não homogeneidade da classe, todavia, a globalização constitui para a classe trabalhadora de todo o mundo desafios extremamente próximos ou mesmo idênticos. As experiências são estruturadas a partir das imposições do modo de produção capitalista, o qual não deve ser compreendido apenas pelo viés econômico, pois as relações da cultura material e imaterial são pontos nevrálgicos neste contexto, são essas relações que resultam em especificidades na produção de espacialidades. Essas especificidades não garantem a autonomia ou a liberdade dos trabalhadores, são apenas especificidades que também serão transformadas pelo movimento dialético da produção da vida material, mas isso não significa
passividade dos trabalhadores, já que existirão resistências à medida que o capitalismo é transformado.
As classes são formadas a partir do imbricamento das condições materiais à imaterialidade. O modo de produção capitalista engendra as relações sociais de produção, mas não os engessam, obviamente que existe a promoção de uma delimitação pelas condições materiais da classe trabalhadora. Não aceitamos, deste modo, os impeditivos superestruturais como delimitadores da classe, como se suas experiências fossem compactuadas por um viés soberano, como se os trabalhadores fossem uma massa, também não aceitamos a visão limitada das tensões sociais como partilhamento identitário. As tensões existem pelas desigualdades oriundas das relações sociais de produção, existem entre os próprios trabalhadores também, mas isso não garante o fazer-se da classe, pois entendemos que essas delimitações pelas tensões desigualdades e exploração colocam as classes trabalhadoras em profundo estado apático, como se esperassem desgraças para se identificarem.
As classes trabalhadoras identificadas pela fragilidade reforçam o discurso burguês de neutralidade e assistência ao trabalhador pelo próprio trabalho. É fundamental dissociarmos a classe trabalhadora das expectativas negativas, foram ao longo das últimas décadas tecidas inúmeras críticas a Lukács (2003), todavia o aspecto mais importante da sua obra está na identificação da classe trabalhadora pela resistência, ou seja, a identificação da classe se dá pela capacidade de ir além das condições materiais e culturais impostas.
O fazer-se da classe não deve ser relacionado com a negatividade, com as tensões pelas tensões, mas pela possibilidade de irem, enquanto trabalhadores unidos, além das debilitações do capitalismo. Isso é para nós na atualidade o fazer-se da classe. O enfrentamento demarca posições e a resistência garante a afinidade classista, esse processo não se encerra no momento, o agora dos trabalhadores marcados pelas indignações das
ingerências as suas condições de vida impõem aos mesmos a construção de um caminho iniciado no não pacto com a classe dominante.
Diante disso, é importante pensarmos criticamente a partir da afirmação de Thompson (2001, p. 17): “O fazer-se da classe operária é um fato tanto da história política e cultural quanto da econômica. Ela não foi gerada espontaneamente pelo sistema fabril. Nem devemos imaginar uma força exterior [...]”. Essa afirmação tem como centralidade a constituição da classe trabalhadora por elementos nem espontâneos e nem estruturais, enfim, a classe trabalhadora simplesmente surge, como Hoggart (1973) buscou compreender os trabalhadores nas suas dimensões não econômicas e políticas, assim, os trabalhadores para Thompson são feitos e se fazem num movimento dialético que não demonstra a operacionalidade permanente do capitalismo na constituição dos sujeitos a partir da divisão social do trabalho e da contradição capital e trabalho.
Neste sentido, falar de auto-formação da classe não compõem as exigências do pensar quanto ao neoliberalismo. As classes não foram feitas no século XIX e engessadas, Thompson (2001) colocou uma data da formação das classes operárias de 1790 a 1830, logo não poderíamos mais falar de classe de trabalhadores, de operários, de camponeses, de sujeitos que se vendem pedaço a pedaço como assinalou Marx. As classes de trabalhadores tomaram novas configurações e exigências, novas condições de desenvolvimento e aprisionamento, novas formas de exploração e novas formas de libertação, porém continuam as classes de trabalhadores desde a sua origem no século XVIII na mesma estrutura configurada na divisão social do trabalho e, portanto, produtora de mais-valia.
Os elementos constitutivos do cotidiano dos trabalhadores com as ações e pensamentos associados ou mesmo iniciados pelas condições da classe obrigam os trabalhadores a refletirem sobre os seus cotidianos, assim, o problema está em quais
elementos serão pensados, daí a importância da constituição dos processos históricos na estrutura política e econômica.
. Thompson (2001, p. 18) afirmou que: “A classe operária formou a si própria tanto quanto foi formada”. Para constituir-se enquanto classe não depende apenas da identidade, do espiritualismo e da empatia entre os sujeitos, depende das condições dadas na estruturação dos sujeitos pela superestrutura, não como ponto último e determinante, mas como centralidade, como coluna de sustentação dos outros pontos que atingem e formam os sujeitos como classe trabalhadora.
A classe trabalhadora em tempos neoliberais tem especificidades que precisam ser pensadas, principalmente, a subjugação do Estado aos ditames do mercado financeiro mundial somado à concorrência internacional da mão de obra entre trabalhadores. Quando especificamente pensamos no Brasil de 1990 a 2010 temos trabalhadores que tiveram substancialmente seus direitos trabalhistas sufocados, diminuídos e ameaçados, bem como momentos de perdas salarias e disputas acirradas em busca de trabalho, somado as transformações políticas, econômicas e tecnológicas. Esses trabalhadores vivenciaram as transformações do fordismo para o toyotismo e com isso a transformação dos administradores e/ou gerentes das empresas, portanto, seus cotidianos de trabalho foram modificados e com isso até mesmo as relações com os sindicatos e os movimentos sociais. Assim, não se trata de uma classe engessada, pois os trabalhadores são obrigados a terem o dinamismo da economia, da política e da tecnologia, ao mesmo tempo em que esses trabalhadores são constituídos por valores extremamente caros a ideologia capitalista, valores que desobrigam a coletividade e valorizam a individualidade.
A classe trabalhadora brasileira de 1990 a 2010 encontrou dificuldades em se enxergar como classe, como sujeitos com vidas congruentes, com condições similares de trabalho, lazer e cultura, por exemplo. Essa dificuldade aproxima-se da não organização de
resistência, pela própria condução das condições de trabalho e vida, somadas as ineficientes memórias de lutas e resistências operacionalizadas no cotidiano dos mesmos, isto é, as memórias deveriam ser evidenciadas para os mesmos, serem discutidos seus papéis na produção capitalista, seja pelos sindicatos ou mesmo pelos grêmios recreativos das empresas.
Nas crises do capitalismo sempre são os trabalhadores que sofrerão todas as represarias imagináveis. Os trabalhadores brasileiros nestas últimas crises mostraram-se, em grande parte, submissos as mudanças impostas pelas empresas para que as mesmas não falissem. Para isso os trabalhadores brasileiros de várias empresas, dentre elas a Thyssenkrupp, aceitaram reduzir seus salários com perdas significativas. Essa decisão em subtrair os próprios salários produziu uma memória de submissão, a luta histórica destes trabalhadores passará por muitos anos por esse caminho de submissão; assim, as memórias de não resistências poderão prevalecer e conduzir esses trabalhadores para a nulidade histórica quanto às lutas, exigências e resistências. O agora dos trabalhadores que aceitaram a diminuição de salários foi marcado por essa submissão, ou seja, a interpretação dos momentos cotidianos destes trabalhadores foi marcada pela não radicalidade e pelo movimento pacífico e ordeiro em lidar com as próprias opressões. O agora marcado pela submissão terá enorme dificuldade em avançar para além da exploração, por isso entendemos que a relação memórias e experiências vinculam-se diretamente as lutas de classes. Entendemos deste modo, pois partimos das evidências das transformações do capitalismo nestes tempos de globalização. O agora marcado pelos fatos será projetado continuamente se as memórias dos trabalhadores não forem questionadas pelos mesmos, atribuindo as suas condições de vida às explorações capitalistas.
Thompson (2004) quanto à classe operária inglesa que se formou nos séculos XVIII e XIX afirmou algo extremamente importante para pensarmos também esses tempos de globalização, pois esses trabalhadores ingleses “[...] viveram nesses tempos de
aguda perturbação social e nós não”. (p. 13). Essa negativa de Thompson (nós não) tem um imperativo de resistência a pensar conjuntamente com a classe trabalhadora, visto que a classe sempre desfavorecida vive aguda perturbação, vive em contínua crise, mesmo nos tempos de prosperidade. Deste modo, a crise permanente da classe trabalhadora é também importante elemento para a constituição de uma narrativa histórica realizada por professores, acadêmicos, historiadores e movimentos sociais.
Nestes tempos neoliberais nós vivemos essas perturbações e compreendemos os valores culturais, sociais e econômicos pelas nossas próprias experiências sem distanciarmos da questões econômicas e políticas. Sabemos a validade das lutas e dos silêncios dos trabalhadores como formas de resistências, mas as mesmas constituirão história quando posta como fato, como transformação sócio-espacial dinamizada nas muitas articulações temporais.
O fazer-se da classe trabalhadora no tempo presente passa pelas perturbações das crises econômicas e políticas, pelo desenvolvimento tecnológico e as mudanças sociais nas relações de trabalho. As evidências históricas serão analisadas, nestes tempos de globalização no qual vivemos. O ponto importante que deve ser analisado é a relação da classe trabalhadora com as transformações recentes no capitalismo e como essa é materializada no espaço pela recepção cotidiana dos trabalhadores.
As transformações capitalistas injetaram nas classes trabalhadoras brasileiras outras dinâmicas de organização e reivindicações, as grandes greves e as manifestações públicas foram pouco a pouco sendo substituídas por acordos internos nos quais muitas vezes o sindicato apenas intermedia sem maiores interferências. O sindicato não forma a classe trabalhadora, representa-a na medida em que os trabalhadores assim permitem, em alguns casos, ou, em outros, nem representam, pois já compactuam inúmeras alianças com o patronato, basta pensarmos na história da CUT e da Força Sindical.
O fazer-se trabalhador ou constituir-se como sujeito de uma classe não o obrigada à vinculação sindical, pois a classe independe da oficialização institucionalizada. Não descartamos os papéis das instituições políticas, econômicas e culturais, todavia, essas não delimitam a classe trabalhadora, pois a combinação dos processos históricos econômicos, políticos e culturais é que entrecruzados possibilitam a compreensão de um padrão classista, tendo, nesses tempos neoliberais, uma ação mais forte dos fatores econômicos.
A padronização da classe trabalhadora somente será compreendida pelos iguais, por meio da identificação de si a partir do outro e esse retorna ao sujeito obrigando-o a pensar em ambos como sujeitos de um mesmo processo histórico, econômico, político e cultural. Todavia, essas considerações identitárias somente serão possíveis com a identificação primária: ser trabalhador e, portanto, explorado. Ser explorado nessa nossa proposta de leitura e narração da história é categoria central, já que ser trabalhador significa mais do que apertar parafusos ou criar sistemas vetoriais complexos para a computação, ser trabalhador é antes de tudo ser um sujeito explorado. Marx e Engels já no Manifesto sinalizaram esse caminho.
Thompson (2001, p. 21) afirmou que: “[...] tanto o contexto político quanto a máquina a vapor tiveram a maior influência sobre a formação da consciência e das instituições da classe operária”. Assim, entendemos que as aproximações econômicas imbricadas às instâncias tecnológicas e ao papel regulador das políticas sociais e econômicas no cotidiano dos trabalhadores tem considerações importantes nesse processo, todavia, não se trata de um outro, mas os processos imbricos na formação da consciências dos trabalhadores. A máquina a vapor trouxe novas repercussões ao cotidiano dos trabalhadores e atingiu diretamente a organização coletiva e seus modos de operações nas lidas diárias e, portanto, novos contextos políticos e, consequentemente, novas ações sobre as matérias e a tecnologia e essas novas constituições políticas, todas precedidas pelo econômico, pela objetivação do
lucro no cotidiano dos trabalhadores. O mesmo ocorreu e ocorre nas últimas três décadas (1990-2010) com o avanço sistemático dos imperativos capitalistas de mercado pela sujeição dos territórios nacionais às operações de créditos e de investimentos do mercado somado a ampliação das tecnologias em movimentos dialéticos permanentes.
Pensar o ser social e a consciência social é fundamental para a compreensão do movimento dialético da História, já o sujeito e a sociedade imbricam-se continuamente, não existe o sujeito isolado da sociedade e nem a sociedade sem o sujeito. O ser social independe de críticas, de pensar na sua própria existência, pois o mesmo existe independente de qualquer relação. O ser social infringe seu status quo ao tecer críticas aos fatos direcionadores de seus cotidianos, ao criticar suas limitações sociais, políticas, culturais, históricas e espaciais; assim, o ser social destina-se pela consciência social, ou seja, terá estratégias claras que definem suas limitações diárias. A consciência social não é mágica, ela depende das relações cotidianas e das pressões que esses trabalhadores vivem, deste modo, as experiências e as memórias são fundamentais para o aperfeiçoamento quanto à compreensão das relações sociais, políticas, econômicas e culturais para os trabalhadores.
A consciência social depende da memória de lutas e as experiências travadas no embate classista, a negação da classe é o movimento próprio das articulações dominantes do processo capitalista globalizado no neoliberalismo. Negar as classes trabalhadoras e subtrair a importância do movimento de classe é a característica predominante nestes tempos de globalização.
O discurso neoliberal e a crise cíclica do capitalismo produziram enorme reforço para que as memórias dos trabalhadores não retornassem aos momentos históricos de lutas, como se as lutas tivessem desaparecidas e a rebeldia estivesse vinculada a agressão à normalidade. Não retomar significa que a sociedade interrompe em várias instâncias as discussões referentes a esses processos históricos, esse interromper deve ser pensado como a
constituição de uma história desvinculada das lutas de classes e, portanto, “naturalizada” nas relações capitalistas.
As evidências destas afirmações estão cotidianamente nos noticiários apresentando os sem-terras, os sem-tetos, os atingidos por barragens, os desempregados, enfim, todos aqueles promovedores de resistências são achincalhados pela grande mídia vinculada diretamente as classes dominantes, em outras palavras, as lutas de classes vigoram- se pelas contradições capitalistas e nem o avanço tecnológico e a suposta subtração das fronteiras territoriais impediram que as mazelas continuassem.
Os impeditivos legais e a construção de um logos dominante dificultam as ações dos trabalhadores para além da coletividade dentro das empresas, são raros os movimentos de solidariedade entre os trabalhadores de uma empresa para com outra. Isso não diminui ou anula a característica social de classe: ser trabalhador. Porém, ser trabalhador nestes tempos implica dificuldades ímpares, a partir de Chesnais (1996), entendemos que os desafios ancoram-se na tecnificação do trabalho e da economia, no dinamismo eletrônico das transações comerciais, no fluxo de pátios industriais com uma fluidez histórica, no fluxo maior de pessoas e na dependência máxima dos Estados quanto aos investimentos diretos e indiretos das empresas multinacionais.
Entendemos que os trabalhadores não se anularam e que suas resistências foram apresentadas nos momentos decisivos de negociações e até mesmo de embates, porém os trabalhadores não estavam e não estão vinculados a outras perspectivas, pois os mesmos objetivam garantir seus empregos e seus rendimentos, garantir suas sobrevivências e de seus dependentes. Outra perspectiva para além do capitalismo é ponto importante na compreensão dos processos históricos, assim, não se trata apenas do imediato sobre os trabalhadores na constituição da consciência de classe, mas também o mediado. Mediação na relação processual das condições materiais, divisão social do trabalho e instâncias de poder. O
mais importante é termos a consciência histórica da regulação da formação de homens e mulheres como trabalhadores, pois:
A procura por homens regula necessariamente a produção de homens assim como de qualquer mercadoria. Se a oferta é muito maior que a procura, então uma parte dos trabalhadores cai na situação de miséria ou na morte pela fome. A existência do trabalhador é, portanto, reduzida à condição de existência de qualquer outra mercadoria. O trabalhador tornou-se uma mercadoria e é uma sorte para ele conseguir chegar ao homem que se interesse por ele. E a procura, da qual a vida do trabalhador depende, depende do capricho do rico e capitalista. (MARX, 2008, p. 24):
Deste modo, a formação da consciência histórica dos sujeitos precisa partir da afirmação de Marx (2008) e compreenderem-se nesse processo como sempre determinados no mercado de trabalho, ou seja, no capitalismo, no modo de produzir e vender no capitalismo, os trabalhadores sempre serão mercadorias.
Diante disso, podem nos acusar de estruturalistas, por pensar dessa forma, por defender o econômico como última instância, como coluna de sustentação do capitalismo, por trazer a palavra mercadoria aos trabalhadores nas suas próprias condições de vida, em outros termos, a apresentação das instâncias de Marx ao cotidiano dos trabalhadores na produção da história é fundamental por trazer questões práticas quanto aos mesmos nas suas múltiplas relações sociais, econômicos, políticas e culturais vinculadas sempre a divisão social do trabalho.
A mediação da consciência de classe dos trabalhadores nestes tempos neoliberais precisa ir além das imposições capitalista transpostas pelas questões operacionais toyotistas num discurso carregado de finalidades mercadológicas sem incluir o trabalhador nessa lógica.
“Com esta divisão social do trabalho, por um lado, e o acúmulo de capitais, por outro, o trabalhador torna-se sempre mais puramente dependente do trabalho, e de um trabalho determinado, muito unilateral, maquinal”. (MARX, 2008, p. 26).
Classes e lutas de classes, portanto, na compreensão do processo histórico marxista parte das premissas produtivas, das formações sociais articuladas pela divisão social do trabalho, dos objetivos empreendidos pelas classes dominantes.
[...] a economia nacional consider[a] apenas como trabalhador o proletário, isto é, aquele que, sem capital e renda da terra, vive puramentedo trabalho, e de um trabalho, unilateral, abstrato. Ela pode, por isso, estabelecer a proposição de que ele, tal como todo cavalo, tem de receber o suficiente para poder trabalhar. Ela [a economia nacional] não o considera como homem no seu tempo-livre-de-trabalho [...], mas deixa, antes, essa consideração para a justiça criminal, os médicos, a religião, as tabelas estatísticas, a política e o curador da miséria social. (MARX, 2008, p. 30).
O trabalhador nesses critérios marxistas é sempre uma preocupação para a produção, assim, precisa pensar e agir como trabalhador, em outras palavras, figurar e agir em conformidade as exigências daqueles que o empregam. Marx (2008) coloca o Estado a serviço das classes dominantes e, deste modo, não pensa nos trabalhadores como homens e mulheres com vidas, mas trata-os como números e são empregados nas suas justificativas estatísticas as quais demonstrarão como os mesmos utilizam muito as verbas públicas para tratamentos médicos ou mesmo aposentadorias e como os trabalhadores são criminosos.
A consciência de classe nesses tempos neoliberais no Brasil precisa ser pensada sobre as considerações de Marx (2008, p. 108) no século XIX: “O lugar de todos os sentidos físicos e espirituais passou a ser ocupado, portanto, pelo simples estranhamento de todos esses sentidos, pelo sentido do ter”.
Essa é uma consideração histórica importante, pois o primado da produção capitalista é a formação de seres humanos ora em consumidores ora sendo consumidos pela produção.
O homem carente, cheio de preocupações, não tem nenhum sentido para o mais belo espetáculo; o comerciante de minerais vê apenas o valor mercantil,