9. DISCUSSION
9.3 Discussion of main results
Em geral, na região onde vivem os jovens que estudam na EFASB e EFA Puris, parte da obtenção dos meios de vida se dá, principalmente, pela produção agrícola, orientada, após a década de 1960, pelo modelo produtivo proveniente da Revolução Verde, com o predomínio de paisagens monoculturas, em pequenas propriedades, com
expressiva dependência de insumos externos. Tal modelo de agricultura e dependência de insumos externos confere menor autonomia aos agricultores desta região. Portanto, tais meios de vida são reflexos da história agrária da região da Zona da Mata, como se pode perceber em vários estudos sobre a região.
Para Valverde (1959), na Zona da Mata encontravam-se junto aos primeiros ocupantes, as populações indígenas Puris e Cataguás. Ao redor dos primeiros núcleos embrionários de populações foram se estabelecendo roças que garantiam o autoabastecimento e os alimentos para pessoas e animais que circulavam e transportavam as mercadorias. Além destes núcleos, com o início do esgotamento do ouro, houve migrações das populações em busca de novas terras na Zona da Mata. Essa frente de povoamento se ateve à criação de gado e ao cultivo de cana de açúcar, café, e principalmente roças alimentares destinadas ao consumo local. A transformações na estrutura econômica e social da Zona da Mata ocorreram de forma similar ao Vale do Paraíba, com a formação de latifúndios cafeeiros, a utilização de mão-de-obra escrava, e consequentemente a dominação de uma aristocracia rural, que modificaram as paisagens às custas da derrubada da mata. Com o tempo, os solos se esgotaram, vindo transformarem-se em pastos. Ao mesmo tempo, as matas foram adentradas para formação de novas lavouras cafeeiras, que aumentavam o domínio dos plantations e a concentração da terra. Com a crise do café e após a abolição da escravatura, houve o predomínio da meação, o pagamento de diaristas e o aluguel da força de trabalho do pequeno proprietário pelo fazendeiro. As dificuldades econômicas forçaram a partilha das terras por herança, já que o pequeno proprietário tinha menos possibilidades para se sobressair às crises. Muitas propriedades foram parceladas, divididas em heranças, que formaram minifúndios ou levaram à perda da propriedade, nos domínios dos
plantations.
Nessa perspectiva, observa-se que desde o estabelecimento das posses e sesmarias no período colonial, a expansão das atividades econômicas agrícolas na Zona da Mata, formaram duas paisagens rurais distintas quanto à estrutura agrária e à articulação com o mercado: uma a partir da fragmentação e a outra com a concentração da terra. Estes são processos distintos e complementares. Nota-se que o segundo processo é predominante na microrregião de Viçosa, onde se localizam os municípios de Ervália, Araponga e Canaã priorizados nesta pesquisa (CARNEIRO & MATOS, 2008). Para Valverde (1959), nestas zonas cafeeiras, o café era cultivado, em terrenos altos e inclinados, de forma irracional e antieconômica; da mesma forma, na cultura de
milho utilizavam-se técnicas como queimadas, sem o uso do esterco, cujos trabalhadores rurais viviam em condições econômicas de miséria.
Dessa forma, os manejos realizados nos cafezais, desde o século XIX, seguiam um modelo bastante próximo daqueles utilizados pelos cafeicultores do Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro, o que resultou em uma progressiva erosão dos morros, tanto lá, em terras fluminenses quanto na Zona da Mata mineira (LIMA, 2008). Ademais, a utilização, a partir da década de 1960, do pacote tecnológico proveniente da Revolução Verde intensificou a degradação das terras e a perda da biodiversidade na Zona da Mata mineira, com o predomínio da monocultura. Isto resultou em precarização dos meios de vida, principalmente, para aqueles agricultores de base familiar e de menor porte, que representam a grande maioria dos ocupantes da região.
Dentre outros processos fundamentais para essa precarização no campo a partir da década de 1970, destacam-se: a modernização4 parcial e conservadora que, de acordo com José Graziano da Silva (1980), aumentou as disparidades regionais, que causou desigualdade econômica e tecnológica na medida em que priorizou alguns cultivos e regiões específicas e as propriedades de maiores extensões. Aliado à modernização da agricultura, ocorre a intensificação das relações de trabalho assalariado, aumento da concentração fundiária, o que implicou em expropriação de pequenos agricultores, posseiros e de meeiros, intensificação das correntes migratórias campo/cidade e a deficiência de políticas agrárias voltadas para setores rurais menos favorecidos. Além disso, intensificaram-se mudanças nos padrões culturais, principalmente no que diz
4 Conforme o glossário de termos utilizados no desenvolvimento rural, publicado pelo Instituto Souza
Cruz, o conceito de modernização da agricultura também pode ser entendido da seguinte forma:
MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA (Brum, 1988): o fenômeno da modernização da agricultura
pode ser definido como sendo o processo através do qual ocorrem modificações na base técnica da produção. Assim, a agricultura moderna (ou modernizada) é a fase agrícola que se caracteriza pelo uso intensivo, a nível das unidades produtoras, de máquinas e insumos modernos, bem como para uma maior racionalização do empreendimento e pela incorporação de inovações técnicas, que dizer, a utilização de métodos e técnicas de preparo e cultivo do solo, de tratos culturais e de processos de colheita mais sofisticados. Em outras palavras: modernização da agricultura é o processo de mecanização e tecnificação da lavoura. Neste sentido, o grau de modernização avalia-se pelo índice de máquinas, equipamentos, implementos e insumos modernos utilizados. Todavia, o conceito de modernização não se esgota no acima exposto. Pode ser definido ainda como sendo um processo de modificação nas relações sociais de produção. Neste caso, implica numa maior integração do produtor e da produção no mercado e na racionalidade do lucro. O objetivo principal da produção agrícola ou agropecuária, então, passa a ser o lucro, através do qual se dá a acumulação. A produção destina-se antes de tudo ao mercado, no qual vai ter atuação privilegiada o segmento que controla a comercialização. Outra característica importante é a transformação capitalista da agricultura. À medida que o processo de modernização se implanta e avança, a agricultura tende a especializar-se, orientando-se para um ou dois produtos (raramente mais), em cada região. Esta tendência em direção à monocultura, de um lado, cria dificuldades e estrangulamentos à pequena propriedade rural e aos produtores autônomos e, de outro, viabiliza e estimula a empresa rural, grande e média, onde se estabelecem as relações capitalistas de produção, com os proprietários dos meios de produção (terras, máquinas etc.) assumindo o papel de patrões e os trabalhadores diretos, destituídos dos meios, assumindo a condição de assalariados rurais.
respeito aos perfis alimentares regionais, decorrentes, em grande medida, das ideias e sugestões difundidas pelos técnicos extensionistas, com visíveis prejuízos para estes agricultores (SOUZA, 2006; SILVA 1980).
Ao analisarmos as transformações no arranjo sócio-espacial dos últimos anos da região Zona da Mata (MG), e conforme os dados do Censo Agropecuário (IBGE, 2014), nós identificamos a predominância da população rural nas décadas de 1970 e 1980; porém após a década de 1980, houve uma queda da população rural, o que pode ser explicado pela predominância deste modelo de produção, a partir da ampliação da agricultura preconizada pela Revolução Verde.
Em relação ao perfil fundiário da Zona da Mata, conforme o Censo Agropecuário (IBGE, 2006), nós podemos constatar que a área dos estabelecimentos destinados à agricultura familiar5, é de 41,90%, enquanto a área destinada a estabelecimentos não familiares corresponde a 58,10%. Por outro lado, o número de estabelecimentos familiares corresponde a 82,05%, e o número de estabelecimentos não familiares corresponde a 17,95%. Esse fato elucida que o percentual das áreas destinadas à agricultura não familiar é muito superior aos familiares, o que mostra que ainda ocorre o predomínio de latifúndios, reflexos de uma história marcada por traços do período colonial.
Gráfico 1: Número e Área dos estabelecimentos Agropecuários na Zona da Mata (MG).
Fonte: IBGE - Censo Agropecuário 2006. Organizado pela autora, 20106.
É preciso enfatizar que a Zona da Mata mineira ainda apresenta uma quantidade expressiva de áreas agropecuárias destinadas à agricultura familiar, 41,90%, se
5 A utilização do termo Agricultura Familiar se deve a conceituação proposta pelo Ministério do
Desenvolvimento Agrário (MDA) e sindicatos rurais no momento da consolidação de políticas públicas, como para o acesso ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). Da mesma forma o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), utiliza a terminologia para representação dos dados estatísticos. Neste caso, utilizamos esta denominação para designar os dados do IBGE.
6 Disponível em: <http://www.novoscursos.ufv.br/graduacao/ufv/geo/www/wp-
comparada à escala do Brasil, que possui apenas 24,32% das áreas agropecuárias destinadas a este setor social (IBGE, 2006), conforme pôde ser observado pela pesquisadora durante a elaboração da monografia de curso (OLIVEIRA, 2011). Uma questão a ser problematizada seria o que levou a agricultura familiar a se manter nessa mesorregião? Tal questão sugere o aprofundamento dos estudos das estratégias de meios de vida no campo.
Entretanto, como essa não é uma questão central nesta pesquisa, apesar da extrema importância, o levantamento destes dados secundários foi no sentido de delinear o perfil específico de manejos agrícolas que começaram a se territorializar e se intensificar na Zona da Mata, sobretudo a partir da década de 1990: a Agroecologia. Por se tratar de agricultores de base familiar, as formas de acesso e uso da terra são fundamentais para a implementação de manejos agroecológicos, vindo definir o padrão dos meios de vida. Observamos que a ampliação dos sistemas agroecológicos originou- se após a introdução dos Sistemas Agroflorestais (SAF´s). Assim, as experiências alternativas de fazer agricultura que surgiram na Zona da Mata, aconteceram, principalmente após a fundação, na década de 1980, do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA - ZM), organização não- governamental preocupada em estabelecer juntamente com os agricultores da região formas mais sustentáveis de agricultura, hoje denominada de base agroecológica, com vistas a solucionar problemas relacionados aos cultivos locais (SOUZA, 2006). Além disto, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e os sindicatos de trabalhadores rurais, fundados em vários municípios da região, também durante a década de 1980, contribuíram sobremaneira para a reflexão e para a introdução de manejos mais sustentáveis, com o objetivo de aumentar o cuidado com a terra. Porém, tal perspectiva de manejo está longe de ser predominante, sobretudo pelas barreiras impostas historicamente, como ditas anteriormente. Assim, a partir das diversas redes que conectam agricultores agroecológicos, organizações, e movimentos sociais do campo, podemos visualizar redesenhos dos meios de vida, que se configuram por conhecimentos e práticas inovadores.
Dessa forma, os municípios escolhidos para esta pesquisa, Ervália, Araponga e Canaã, onde estão localizadas as duas escolas e onde vive a maioria dos estudantes, não são exceção ao processo descrito acima. Além disso, essas alterações contribuíram para o surgimento de ações, na região, com vistas a buscar saídas para a melhoria da produção e das condições de vida, de forma a influenciar também e fornecer elementos para a criação das EFAs, como lugar essencial para a reflexão e a prática de novas
modalidades de produção e de compreensão da realidade imediata. Tal perspectiva é central para a compreensão dessa proposta investigativa.