O presente trabalho procurou investigar a competitividade da cadeia produtiva da carne bovina no Estado de São Paulo, com foco nos segmentos de produção de matérias- primas (pecuária de corte) e de abate e processamento (frigoríficos). Foram considerados fatores mercadológicos, econômicos e políticos que vêm alterando a geografia do setor ao longo das últimas décadas. A estratégia de atuação das empresas paulistas tem evoluído de acordo com essas alterações no ambiente de negócios.
A importância cada vez maior do tema “competitividade”, seja no nível da empresa, da nação ou, no caso, da cadeia produtiva, é decorrente da necessidade de as empresas buscarem mercados em diferentes países, uma vez que o processo de globalização impôs condições acirradas de competição no mercado interno. Para o país, o crescimento da competitividade das empresas traz benefícios, principalmente na forma de superávit na balança comercial. Como as idéias a respeito da competitividade das nações tornaram-se cada vez mais discutíveis, dada a impossibilidade de falência de uma nação como conseqüência da sua perda de competitividade, optou-se pela análise da competitividade em nível setorial, mais precisamente ao nível de uma cadeia agroindustrial.
Analisar a relação Estado-empresa, ou Estado-cadeia, é de extrema importância para a correta condução de estudos de competitividade. Afinal, o Estado é, em grande medida, o responsável ou o catalisador de alterações no ambiente macroeconômico, No caso específico desse estudo, ficou evidente a influência da tributação (alíquotas, pautas, incentivos e exceções), que é definida pelos governos estaduais, no abastecimento e na competitividade das empresas frigoríficas de São Paulo, pois estas são muito dependentes do gado de outros estados. É preciso considerar também a questão da febre aftosa, um fator parcialmente controlável pelos governos estaduais e federal, em função dos recursos destinados ao combate da doença e da fiscalização do trânsito de animais. Vale lembrar que as exportações de carne bovina de São Paulo foram seriamente afetadas em função de focos de febre aftosa recentemente registrados no Mato Grosso do Sul e no Paraná.
Ainda no que diz respeito ao ambiente macroeconômico, a valorização da moeda nacional afetou a competitividade da carne brasileira no exterior, sendo que o impacto é extremamente significativo para a cadeia paulista, pois o estado possui o maior parque exportador do país. Investimentos na área de infra-estrutura e logística poderiam reduzir os custos de transação e, dessa forma, minimizar impactos negativos de eventuais retrações da
148 taxa de câmbio. Nesse aspecto, ficou demonstrado que o Estado de São Paulo é particularmente bem servido, graças à boa malha viária e à eficiência relativa do porto de Santos. Porém, a necessidade de buscar matéria-prima (gado) a longas distâncias minimiza essa vantagem.
A intensificação das ações do governo e da iniciativa privada nas áreas de segurança do alimento, que envolvem, principalmente, a correta implantação de um modelo de rastreabilidade (Sisbov) eficiente, o combate e a posterior erradicação da febre aftosa são de extrema importância para o aumento da competitividade da carne bovina do estado de São Paulo, cujo destino principal é, justamente, o mercado externo. O desafio é grande, em função da dependência da aquisição de gado de outros estados, tanto por parte de recriadores e invernistas quanto de frigoríficos.
A principal vantagem de São Paulo é o mercado consumidor. No estado encontra-se a fatia mais representativa e de maior poder aquisitivo da população brasileira, além de uma enorme rede de distribuidores e varejistas, incluindo hotéis, supermercados, restaurantes, lanchonetes, etc. O estado também é a principal via de exportação. A principal desvantagem está no segmento de produção, em função da escassez de matéria-prima e dos elevados custos de produção, tanto no campo (preços da terra, de animais para reposição e de grãos mais elevados) quanto nas indústrias frigoríficas (o preço do boi é o mais alto do país). Parece óbvio, portanto, que as políticas públicas devem priorizar ações que atuem no sentido de: minimizar os custos tributários para a entrada de matérias-primas (grãos e gado) no estado; reduzir o risco e melhorar o status sanitário do estado; maximizar as vantagens paulistas no que diz respeito à infra-estrutura e logística interna (os agentes entrevistados apontaram a necessidade de melhorias no porto de Santos) e; alocar recursos para áreas de P&D que busquem, junto às indústrias, o desenvolvimento de produtos de maior valor agregado e, junto aos produtores, novas tecnologias para aumentar a eficiência técnica e econômica da produção intensiva (aproveitamento de resíduos, otimização do uso de máquinas, integração lavoura- pecuária, implementação de sistemas de gestão, etc.).
Em síntese, o estado de São Paulo, definitivamente, não é competitivo, na comparação com o Centro-Norte do país, quando se considera a produção de “carne commodity” para o atendimento dos mercados de massa. É preciso agregar valor à carne do estado, priorizar as atividades que propiciem melhores resultados (a desossa e a industrialização, por exemplo) e trabalhar no sentido de conquistar e manter os melhores mercados, tendo o suporte, no campo,
149 de uma pecuária eficiente, que abasteça as indústrias locais com uma matéria-prima relativamente abundante e de qualidade.
A revisão teórica e a metodologia exerceram decisivo papel na condução do estudo, na análise e na discussão dos resultados. Como a metodologia permitiu que as discussões fossem participativas, através da entrevista de agentes-chave, foi possível ter acesso a um universo bastante rico de informações. Além do mais, justamente por contar com o suporte dos principais interessados na conclusão do estudo, pode-se considerar que esse procedimento é uma excelente ferramenta de validação dos resultados.
Destaca-se também que a opção pela análise de direcionadores ou fatores críticos de competitividade, ao invés do simples uso de indicadores de competitividade revelada, permitiu que se chegasse à origem dos problemas que limitam a competitividade da cadeia produtiva da carne bovina de São Paulo. Só dessa forma, compreendendo-os e analisando-os, foi possível realizar as sugestões de políticas públicas para aumento da competitividade.
5.1. Sugestões para trabalhos futuros
Algumas situações e particularidades que surgiram durante a realização deste estudo sugerem novas pesquisas. Ficou evidente, por exemplo, que a competitividade dos confinamentos em São Paulo depende, em boa medida, dos resultados da produção de grãos e oleaginosas no estado. Portanto, um estudo da competitividade da agricultura paulista, com foco em grãos e oleaginosas, buscando já as sinergias com a engorda intensiva de bovinos, seria de extrema valia.
Avaliações mais aprofundadas de vários fatores apresentados e analisados neste estudo também se fazem importantes. A questão tributária, por exemplo, em função da complexidade do tema e da importância que exerce sobre a competitividade da cadeia produtiva em questão, merece um estudo específico.
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