• No results found

A AC preconiza que nessa etapa, far-se-á a aplicação sistemática das decisões tomadas na fase de pré-análise. Geralmente longa e fastidiosa consiste essencialmente na realização de operações de codificação, decomposição ou enumeração dos dados para análise em função de regras previamente estabelecidas.

Tendo em vista a necessidade de, durante a investigação, deixar claro quais as motivações da pesquisa, faz-se necessário determinar ou propor hipóteses iniciais, sobre qual seja a razão ou o porquê de se analisar o objeto proposto e quais procedimentos metodológicos deverão ser adotados. Nesse caso, há a necessidade de se enquadrar a técnica que será empregada dentro de um quadro teórico, dito de outra forma, o como é justificado pela teoria. À exceção a esse procedimento são as chamadas fisinhing

expeditions ou análises exploratórias para ver o que há, em que é a técnica ou o como

que precisa o porquê.

Após as seleções operadas em relação aos sujeitos e aos instrumentos de coleta ou geração de dados; a etapa seguinte consiste no tratamento do material ou na sua codificação. Nas palavras de Bardin (2010, p. 129),

A codificação corresponde a uma transformação – efetuada segundo regras precisas – dos dados em bruto do texto, transformação esta que, por recorte, agregação e enumeração, permite atingir uma representação do conteúdo, ou da sua expressão; susceptível de esclarecer o analista acerca das características do texto, que podem servir de índices, ou, como diz O. R. Holsti – a codificação é o processo pelo qual os dados em brutos são transformados sistematicamente e agregados em unidades, as quais permitem uma descrição exacta das características pertinentes do conteúdo.

Ressaltamos da citação da autora, o fato de que é o tratamento ou codificação do material analisado que permitirá ao analista observar os dados diante de si e analisá-los, permitindo-lhe tomar decisões e basear suas conclusões tendo em vista os objetivos propostos.

Interessa-nos, portanto, responder à pergunta como e em que consiste o processo

recorte ou escolha das unidades (de registro e de contexto); 2. A enumeração ou escolha das regras de contagem e 3. A classificação e a agregação ou escolha das categorias. Vejamos como se caracteriza cada uma delas.

A primeira escolha diz respeito a sabermos quais elementos do texto deverão ser levados em conta e em como recortá-los. Trata-se, pois, de determinar a “unidade de registro”, ou a unidade de significação, a ser codificada e que será considerada como unidade de base, visando à categorização e à contagem frequencial. Na AC, o recorte feito é de ordem semântica, sem excluir a correspondência com unidades formais da língua. Entre as unidades de registro mais utilizadas podem ser citadas: as palavras usadas na construção de um texto; a noção de tema, largamente utilizada em análises temáticas; os objetos ou referentes em torno dos quais o discurso se organiza; o personagem em obras ficcionais e o acontecimento, no caso de relatos e de narrações.

Além da unidade registro, o pesquisador deverá também selecionar a unidade de

contexto, isto é, o segmento que serve para codificar a unidade de registro. Citemos,

como exemplo, a frase (que serve de contexto) para a palavra ou o parágrafo para o tema. São, pois, segmentos maiores que permitem compreender o sentido das unidades de registro. Um exemplo proposto por Bardin (2010) consiste na análise de palavras como liberdade, ordem, progresso, democracia e sociedade presentes em discursos políticos, as quais precisariam de uma análise contextual para a “compreensão do seu verdadeiro sentido” (BARDIN, 2010, p. 133).

A segunda escolha trata da enumeração ou regras de contagem. No tratamento dos dados, é necessário fazer a distinção entre a unidade de registro – o que se conta – e a regra de enumeração, isto é, o modo como se dará a contagem ou frequência de ocorrência dos itens analisados. Para tanto, é possível utilizar-se diversos tipos de enumeração: a) para indicar presença ou ausência – pode-se indicar em um texto a presença ou não dos elementos a, b, c, d e e, enquanto unidades significativas que servem como um indicador; b) para indicar frequência – sendo esta a medida mais comumente utilizada, corresponde ao postulado: “a importância de uma unidade de registro aumenta com a frequência de aparição” (BARDIN, 2010, p. 134); c) elementos notacionais também podem ser utilizados para indicar a intensidade, a direção, a ordem e a co-ocorrências das unidades de registro numa determinada unidade de contexto.

Por fim, quanto à terceira escolha, a seleção das categorias, deve-se, inicialmente, fazer a opção por uma análise quantitativa ou qualitativa, ou, ainda, uma mescla de ambas. Nesse sentido, é preciso considerar que

A abordagem quantitativa funda-se na freqüência de aparição de determinados elementos da mensagem, enquanto que uma abordagem não quantitativa recorre a indicadores não frequenciais susceptíveis de permitir inferências; por exemplo, a presença (ou a ausência) pode constituir um índice tanto (ou mais) frutífero que a freqüência de aparição. (BARDIN, 2010, p. 140)

A autora chama a atenção para o fato de ambas as abordagens, quantitativa e qualitativa, não possuírem o mesmo campo de ação. A primeira se utiliza de métodos estatísticos para coletar seus dados, sendo considerada uma análise mais exata e objetiva, visto que realiza um monitoramento mais controlado das unidades; já a qualitativa corresponde a um procedimento mais intuitivo e mais adaptável a índices que não tenham sido previstos à priori, ou a mudanças nas hipóteses elencadas. Esta forma de análise é válida, sobretudo, na elaboração de deduções específicas sobre um acontecimento ou variáveis de inferências precisas, como também para o tratamento de

corpus reduzido, possibilitando ao analista estabelecer categorias mais discriminantes,

uma vez que não está relacionada a medições quantitativas ou a categorias que dependam de ocorrências elevadas para que os cálculos se tornem possíveis.

Quanto à relação que se estabelece entre ambas as abordagens, a autora considera que,

Por último, precisemos que a análise qualitativa não rejeita toda e qualquer forma de quantificação. Somente os índices é que são retidos de maneira não frequencial, podendo o analista recorrer a testes quantitativos: por exemplo, a aparição de índices similares em discursos semelhantes. Em conclusão, pode dizer-se que o que caracteriza a análise qualitativa é o facto de a inferência – sempre que é realizada – ser fundada na presença do índice (tema, palavra, personagem etc), e não sobre a frequência da sua aparição, em cada comunicação individual. (BARDIN, 2010, p. 142)

Além da definição por uma das abordagens citadas, nessa etapa, faz-se necessário precisar as categorias de análise que serão enfocadas na investigação. De acordo com Bardin (2010, p.145), embora o estabelecimento de categorias não seja uma etapa obrigatória de toda e qualquer análise de conteúdo, a maioria dos procedimentos de análise se organiza em torno de um processo de categorização. Dessa forma, o analista deve ter em mente a forma como se constitui o processo de categorização. Trata-se, em suma, de uma operação de classificação dos elementos que constituem um dado grupo, o que pode ser feito por um procedimento de diferenciação e reagrupamento observando-se os critérios previamente estabelecidos. Como exemplo de

classificação possível, a autora cita que em uma pesquisa sobre ansiedade, foram relacionados todos os temas que significam a ansiedade na categoria “ansiedade”, enquanto que os que significam “descontração” ficaram agrupados na categoria “descontração”.

Dessa forma, a categorização poderá ser constituída por critérios semânticos - como os do exemplo dado; sintáticos - nesse caso, têm-se categorias como verbos, adjetivos etc; expressivos – critério utilizado quando as categorias estabelecidas visam a classificar as diversas perturbações da linguagem; e lexicais – quando ocorre a classificação das palavras segundo o seu sentido.

Em relação à forma de classificação dos elementos, Bardin (2010, p. 146) considera que classificar os diversos elementos em categorias pressupõe a investigação do que cada um deles tem em comum, uma vez que é essa relação que vai permitir a formação de agrupamentos. A autora explica, ainda, que a categorização é um processo de tipo estruturalista, comportando duas etapas: o inventário – que corresponde à identificação e isolamento dos elementos e a classificação – que implica repartir os elementos, dessa forma, impondo uma certa organização ao corpus examinado.

No tocante à qualidade das categorias elencadas, considera que um conjunto de boas categorias se caracteriza por possuir os seguintes atributos: 1. Exclusão mútua: condição que estipula que um elemento não pode estar presente em mais de uma divisão; 2. Homogeneidade: um único princípio de classificação deve governar a organização das categorias; 3. Pertinência: as categorias propostas deverão ser relacionadas a um quadro teórico definido e devem refletir os objetivos da pesquisa; 4.

Objetividade e fidelidade: princípio que postula que as categorias propostas devem ser

codificadas da mesma maneira, devendo-se, para tanto, definir claramente as variáveis e os índices que determinam a entrada de um elemento numa categoria; 5. Produtividade: essa qualidade está presente quando um conjunto de categorias fornece resultados férteis para o analista, tendo em vista responder às suas questões de pesquisa.

Por fim, antes de seguirmos para a fase dedicada ao tratamento dos resultados obtidos e da interpretação, cumpre explicitar, com base no exposto para essa seção, como estamos explorando o material selecionado para a presente pesquisa.

Quanto às nossas hipóteses iniciais:

Partindo de nossa experiência pessoal como docente no Ensino Superior em um Curso de formação de professores de língua(s), das nossas leituras e pesquisas prévias sobre a avaliação e acerca da Teoria das Representações Sociais, postulamos que há entre os docentes uma representação social partilhada sobre a avaliação e que embora essa oriente as atitudes, a conduta e o discurso docente, não é criticamente analisada.

Sendo as representações sociais uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, ligada ao universo consensual, postulamos que uma maneira possível de acessar a tais representações é por meio da análise da organização semântica do léxico presente nas manifestações discursivas dos sujeitos, em conformidade com Harré (2001). Nesse contexto, os docentes ao elencarem palavras em função do termo indutor “avaliação” e ao se posicionarem sobre o tema em entrevistas individuais, deixam marcas de tal RS.

Uma vez que as representações sociais nascem, propagam-se e se naturalizam nas interações cotidianas, podemos inferir que os docentes concorrem para a naturalização dessas representações no exercício da sua prática pedagógica, e, dessa forma, influenciam diretamente nas concepções que orientarão a práxis dos futuros professores. Nossa hipótese é de que promovendo uma reflexão sobre as representações sociais construídas e partilhadas na esfera dos grupos mencionados, formadores e formandos poderão dirigir um olhar mais crítico e centrado sobre suas próprias práticas e representações.

Pensamos, igualmente, que tal reflexão redundará em aprimoramento das práticas levadas a cabo, ou mesmo em transformações que visem a melhorar o trabalho realizado pelos atores envolvidos com o processo educacional. Conhecendo-se a importância e a abrangência dessa esfera para o contexto social em que vivemos, podemos pensar que as mudanças aí ocorridas terão implicações relevantes para a sociedade em geral.

Quanto à escolha das unidades de registro e de contexto:

Como unidade de registro a ser analisada, elegemos enfocar as palavras evocadas por meio da técnica de associação livre de palavras, como também proceder a uma análise temática, tendo em vista analisar o posicionamento expresso pelos sujeitos

sobre o tema em estudo. Embora, já tenhamos nos referido ao “tema” como unidade de registro, vale, ainda, enfatizarmos alguns esclarecimentos. Segundo explicita Bardin (2010), a análise temática é característica da análise de conteúdo. A autora baseia-se em Berelson, para quem a noção de tema pode ser entendida como as afirmações feitas acerca de um assunto. Vejamos em que consiste essa modalidade de análise, segundo as considerações da autora:

Na verdade, o tema é a unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo certos critérios relativos à teoria que serve de guia à leitura. O texto pode ser recortado em ideias constituintes, em enunciados e em proposições portadores de significações isoláveis. [...] Fazer

uma análise temática consiste em descobrir os “núcleos de sentido” que compõem a comunicação e cuja presença ou frequência de aparição podem

significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido. [...] O tema é geralmente utilizado como unidade de registro para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências, etc. (BARDIN, 2010, p. 131, grifos nossos).

Bardin (2010) explica que o tema, enquanto unidade de registro, corresponde a uma regra de recorte do sentido em lugar da forma. O recorte feito pelo analista dependerá do nível de análise e não da aparição de manifestações formais reguladas. Frequentemente, as respostas a questões abertas, as entrevistas (não diretivas ou mais estruturadas) individuais ou de grupo são analisadas tendo o tema por base. Em consonância com os postulados apresentados pela autora, concluímos que uma análise temática das respostas dadas às entrevistas que realizamos com os sujeitos da nossa pesquisa seja a mais adequada, uma vez que enfocamos as enunciações dos docentes sobre o tema em análise, notadamente aquelas em que se pode inferir um posicionamento dos docentes.

No que se refere ao contexto em que se operou o recorte, este corresponde ao material gerado por meio das técnicas mencionadas, conforme descrevemos no item 3.4 “A geração dos dados: procedimentos e instrumentos”. No que concerne a uma noção mais ampla de contexto, precisamos que os dados foram coletados entre professores, em Cursos de formação de professores de língua, em uma Instituição Superior de Ensino.

Quanto aos procedimentos de categorização:

No que se refere à seleção das categorias síntese operadas também pautamo-nos pelo proposto pela AC. Propusemos quadros sínteses, em consonância com os pré-

requisitos de “exclusão mútua, homogeneidade, pertinência e objetividade”, conforme apresentaremos no capítulo, a seguir, dedicado à análise.