aspectos: 1. a área em que se insere a pesquisa e sua natureza; 2. o perfil e a caracterização dos sujeitos; 3. os procedimentos e instrumentos utilizados na geração dos dados; e 4. as bases teóricas da Análise de Conteúdo, com foco nas etapas da pesquisa: pré-análise, análise do material e interpretação dos dados.
3.1 CARACTERÍSTICAS GERAIS DA PESQUISA
Quanto à área em que se insere nosso trabalho, destacamos sua inclusão na linha de pesquisa em Linguística Aplicada (LA), articulando-a ao proposto pela Teoria das Representações Sociais (TRS) e pelos Estudos Críticos do Discurso (ECD). Conforme esclarecemos anteriormente, essa articulação se faz necessária, dada a complexidade e o alcance teórico do objeto a ser pesquisado. Ensejamos abordar temas de interesse dos campos citados, LA, TRS e ECD, uma vez que visamos analisar o discurso docente em torno da avaliação, em um contexto de formação de professores de E/LE, as ideologias compartilhadas e a construção da representação social desse objeto.
Quanto à natureza da pesquisa, trata-se de uma investigação analítico-discursiva, de natureza interpretativista e interdisciplinar. No que se refere à análise da representação social, apoiar-nos-emos na Teoria das Representações Sociais, segundo Moscovici (1976, 2009) e Jodelet (2001), e, no tocante ao conceito de ideologia e poder em torno do discurso docente, tomaremos como base os Estudos Críticos do Discurso, conforme van Dijk (2008). Cabe esclarecer que, em relação ao corpus adotado, de acordo com Coracini (2003, p. 235), as pesquisas de cunho discursivo vinculam-se a uma concepção de Linguística Aplicada entendida como área de investigação que prioriza o processo em lugar do produto, enquanto objeto de estudo. Nessa perspectiva, seu objetivo consiste em,
[...] problematizar as situações naturalizadas pelo hábito e, por isso mesmo inquestionáveis. Analisam-se, enquanto corpus destas pesquisas, recortes
das falas realizadas num dado contexto de interação, os textos escritos
que constituem práticas discursivas, isto é, manifestações concretas de regras anônimas que constituem, num dado momento histórico-social e num dado lugar, as formas de agir, pensar e dizer de um grupo social [...] (CORACINI, 2003, p. 235, grifos nossos)
Em nosso trabalho, tomaremos como corpus de investigação as entrevistas concedidas por docentes de língua espanhola, priorizando recortes de suas falas que nos permitam desvelar seu posicionamento sobre o objeto pesquisado. Também se faz necessário ressaltar que situamos nosso trabalho no campo da pesquisa qualitativa, tendo em vista a natureza dos dados analisados, uma vez que estes se compõem das manifestações discursivas de dois grupos de docentes, acerca do tema proposto.
Ainda no tocante às pesquisas em LA, consideramos pertinente esclarecer que estamos em consonância com o preconizado por autores como Evensen (2007), Signorini (2007), Celani (2007) e Moita Lopes (2007) entre outros, os quais consideram o campo da LA, na atualidade, como sendo de natureza interdisciplinar. A esse respeito, Evensen chega mesmo a afirmar que “a natureza interdisciplinar da Linguística Aplicada tem sido reconhecida, já há algum tempo, e é uma das poucas áreas em que um consenso parece ter sido alcançado” (EVENSEN, 2007, p.83). Nessa mesma coleção, organizada por Signorini e Cavalcanti (2007), Linguística Aplicada e Transdisciplinaridade, discute-se o estado atual da LA, tendo-se em vista a proposição de uma concepção transdisciplinar que se coadune com a área da LA. Celani (2007, p.117) explica as implicações da mudança proposta, da seguinte forma,
Em uma postura multi/pluri/interdisciplinar, disciplinas plurais colaboram no estudo de um objeto, de um campo, de um objetivo (Durand 1993), em uma situação de integração. (...) Uma visão transdisciplinar, no entanto, tenta destacar nessa colaboração de disciplinas um fio condutor e até mesmo uma filosofia epistemológica, a “filosofia” da descoberta. (...) Transdisciplinaridade envolve mais do que a justaposição de ramos do saber. Envolve a coexistência em um estado de interação dinâmica, o que Portella (1993) chamou de esferas de coabitação. A mera justaposição de saberes não leva à interação, condição essencial para a transdiciplinaridade. Não se buscam contribuições de outras áreas, mas sim, a participação ativa de pesquisadores das áreas envolvidas, a fim de se dar conta da problematização que a abordagem do objeto de estudo proposto provoca em cada área.
Pelo exposto, observamos que em uma perspectiva interdisciplinar, diferentes disciplinas contribuem para o estudo de um dado objeto. O foco é a integração dessas diferentes disciplinas. Na perspectiva da transdisciplinaridade, o aspecto central é a interação por meio da participação ativa dos pesquisadores de diferentes áreas, isto é, torna-se necessário um trabalho conjunto. Nesse sentido, entendemos que uma pesquisa transdisciplinar é em primeiro lugar interdisciplinar, contudo, vai além disso, uma vez que além de congregar diferentes disciplinas, requer um trabalho articulado entre pesquisadores.
Na concepção de Moita Lopes (2007), a LA, sendo uma área de investigação interdisciplinar, pode se engajar em processos de investigação transdisciplinares. Segundo o autor,
Está claro que transdisciplinaridade é um modo de investigação que envolve uma forma de produção de conhecimento que corta várias disciplinas, ou seja, não se pode fazer LA transdisciplinarmente. Pode-se, contudo, como linguista aplicado, atuar em grupos de pesquisa de natureza transdisciplinar que estão estudando um problema em um contexto de aplicação específico para cuja compreensão as intravisões do lingüista aplicado possam ser úteis. (MOITA LOPES, 2007, p. 109).
Ressaltamos, pois, que embora nossa pesquisa não seja de natureza “transdisciplinar”, o que seria possível e desejável realizar em outra circunstância, nosso trabalho caracteriza-se por sua natureza interdisciplinar e seu enquadre no campo teórico da LA. Enfatizamos que nosso objeto de estudo enfoca questionamentos sobre a linguagem, o discurso docente e as práticas pedagógicas em contexto de sala de aula no ensino de língua estrangeira. Abordamos a avaliação como parte indissociável do processo de ensino e aprendizagem e, por essa perspectiva, interessa-nos verificar a existência de uma RS partilhada pelos grupos de docentes. Partimos do pressuposto de que tal RS condiciona as práticas e o discurso docente em torno da temática abordada e, dessa forma, propomos a articulação dos campos teóricos citados, a fim de obtermos uma compreensão mais aprofundada de um fenômeno em si mesmo tão multifacetado.
Passemos à caracterização dos sujeitos da pesquisa.
3.2 OS SUJEITOS DA PESQUISA
Os sujeitos participantes desta pesquisa estão divididos em dois grupos dispostos da forma como segue: o primeiro foi composto por 05 (cinco) professores que atuam na modalidade de ensino presencial, no Curso de Letras (habilitação em Português e Espanhol), na Universidade Federal do Ceará. O segundo grupo foi formado por 05 (cinco) professores (tutores) que atuam na modalidade de ensino semipresencial, no Curso de Letras (habilitação em Espanhol), na Universidade Federal do Ceará, em parceria com a Universidade Aberta do Brasil. Esclarecemos que utilizaremos, durante a análise das manifestações discursivas, a denominação “professores tutores” ou simplesmente “tutores” para nos referirmos aos professores que atuam na modalidade semipresencial de ensino.
Esclarecemos que selecionamos do universo de professores que compõe a Instituição Superior de Ensino e os Cursos pesquisados, um total de 10 (dez) sujeitos, 05 (cinco) que atuam no Curso de Letras (habilitação língua espanhola e suas literaturas) na modalidade presencial e 05 (cinco) na modalidade semipresencial. Todos os professores consultados concordaram em participar de todas as fases da geração de dados.
A escolha deveu-se basicamente a dois fatores que são mutuamente complementares: por tratar-se de professores de língua espanhola que exercem suas atividades no ensino superior, na formação inicial de professores de espanhol como língua estrangeira, e por atuarem, respectivamente, nas modalidades de ensino investigadas. Interessou-nos ao definir os sujeitos, descrever e interpretar sua representação sobre a avaliação, considerando-se o fazer docente e os saberes partilhados no interior das práticas docentes.
Também assinalamos que Spink (1994), ao tratar da utilização das técnicas qualitativas para o estudo da associação de ideias nas representações sociais, salienta que a coleta de dados exige longas entrevistas semiestuturadas e que a análise, “centrada na totalidade do discurso, é demorada e consequentemente estes estudos têm utilizados poucos sujeitos”. (p.129). A autora ressalta que os sujeitos participantes dessa forma de investigação são chamados de “sujeitos genéricos” e que, “se devidamente contextualizados, tem o poder de representar o grupo no indivíduo”. Dessa forma, consideramos a amostra coletada representativa do universo de sujeitos em que realizamos a pesquisa.
Ressaltamos, ainda, que para fins de análise será preservada a identidade dos sujeitos participantes, bem como foi solicitada a sua anuência por meio da assinatura de um termo de livre de consentimento para a realização da presente investigação.
3.2.1 PERFIL DOS PARTICIPANTES
Apresentaremos, a seguir, as informações coletadas por meio de um questionário que os sujeitos colaboradores da pesquisa responderam acerca dos seus dados pessoais. Visamos, com a aplicação desse instrumento, obter informações que possibilitassem a caracterização dos participantes, tendo em vista, principalmente, sua formação acadêmica, tempo de atuação no magistério e área de atuação. As informações
solicitadas tiveram a função de ajudar a compor um breve perfil dos sujeitos participantes, mas essas não foram determinantes para a análise dos dados22.