De acordo com Deeke, Casagrande Jr. e Silva (2008) o conceito de Campus Verde ou “Green Campus” surgiu como produto do engajamento das universidades com as políticas de Desenvolvimento Sustentável. Os autores afirmam que ele foi difundido inicialmente nos Estados Unidos, Europa, Austrália e Nova Zelândia. Contudo, se expandiu para países da América do Sul e dos continentes Africano e Asiático, como relatado no estudo de Yuan, Zuo
e Huisingh (2013), que apontou o reconhecimento desse termo por um número considerável de universidades na China, abrangendo não só os aspectos ecológicos da sustentabilidade, mas também as dimensões da pesquisa e desenvolvimento, educação, entre outros.
A saber, o panorama da produção intelectual nessa temática no âmbito internacional, utilizando a base de dados Web of Science, aponta que nas últimas décadas as publicações relacionadas a Green Campus (Campus Verde), Green University (Universidade Verde), Sustainable University (Universidade Sustentável) e Campus Sustainability (Campus Sustentável) emergiram, como pode ser visto no Gráfico 1. E nesse contexto, destacam-se Velazquez et al. (2006) e Alshuwaikhat e Abubakar (2008), autores que utilizaram o termo Universidade Sustentável ou Campus Verde8 para descrever uma instituição de ensino superior empenhada com a temática ambiental nos diversos âmbitos, desde a promoção do ensino, pesquisa e extensão até a forma de ocupar e gerir o ambiente físico, sendo que ambos propuseram modelos gráficos de maturidade com indicadores para a construção desse conceito, propostas flexíveis podendo variar de uma universidade à outra.
Gráfico 1 – Evolução dos artigos relacionados à temática Campus Verde, publicados por pesquisadores ao longo do tempo.
Fonte: Plataforma Web of Science
Esses modelos vão ao encontro da função de uma universidade, que transcende o ensino, a pesquisa e a extensão e se estende a transmissão do conhecimento tácito, como
8 Essa pesquisa optou pelo uso do termo Campus Verde, baseado no arcabouço teórico estruturado sobre o tema,
uma vez que esse conceito é o que mais se aproxima da concepção de uma instituição de ensino superior que incorpora práticas para a mitigação dos danos ambientais e socioeconômicos causados pelo campus universitário, tanto na gestão quanto na prática acadêmica.
ANOS P U B L I C A Ç Õ E S
atestam Casagrande Jr. e Deeke (2009). Para os autores, a preocupação com a sustentabilidade deve refletir na infraestrutura física, na administração e na linha pedagógica de uma IES (CASAGRANDE JR. e DEEKE, 2009). Segundo Kraemer (2004) cabe à instituição não só discutir a respeito do desenvolvimento sustentável, mas também propor soluções racionais, dando assim o seu exemplo à sociedade na busca pela educação para o DS, principal papel das IES no século XXI.
Alshuwaikhat e Abubakar (2008) afirmam que a sustentabilidade afeta a todas as esferas da universidade. Assim, para os pesquisadores o Campus Verde além de gerar economia por meio da conservação dos recursos naturais, reduzir os resíduos e promover uma gestão ambiental eficiente, deve fomentar a equidade e a justiça social, transcendendo esses valores à comunidade, a nível global. Para isso, os autores preveem a integração de três estratégias de forma sistêmica: Sistema de Gestão Ambiental; Participação Pública e Responsabilidade Social; Sustentabilidade no Ensino e na Pesquisa. Assim, eles apresentam um modelo gráfico para avaliar o processo de sustentabilidade no campus universitário, detalhando as variáveis propostas, conforme a Figura 3.
Nessa abordagem sistemática e integrada, Alshuwaikhat e Abubakar (2008) alertam para a importância do compromisso com a sustentabilidade nas políticas institucionais e nas práticas universitárias e do estabelecimento de um gestor dessas ações. A saber, o Green Office ou Escritório Verde desempenha essa função, sendo uma realidade em algumas instituições do mundo. Segundo Finlay e Massey (2012) o escritório de sustentabilidade da Universidade de New Hampshire, por exemplo, delineia claramente as estratégias para a instituição lidar com as mudanças climáticas e as emissões de gases do efeito estufa.
A University of California Berkeley, apontada por Gaion (2013) como uma experiência internacional relevante devido ao seu planejamento físico e gerencial integrados com as questões socioambientais e a participação significativa da comunidade acadêmica nas ações que envolvem a Política de Práticas Sustentáveis da Universidade, é outro exemplo que instituição que possui o EV. As ações desenvolvidas no campus são gerenciadas pelo Office of Sustainability and Energy Team, que estabelece as metas e estratégias voltadas às boas práticas ambientais, fomentando a implementação de projetos, planejamento, parcerias e engajamento com a comunidade9.
No Brasil, a Universidade Tecnológica Federal do Paraná por sua vez foi a primeira IES brasileira a implantar esse modelo, com o objetivo de desenvolver a política de
sustentabilidade inicialmente no Campus Curitiba e depois estender aos outros campi (CASAGRANDE JR, 2010).
Figura 3 – Abordagem proposta para alcançar a sustentabilidade do campus.
Fonte: Alshuwaikhat e Abubakar (2008).
Ainda neste contexto, cabe destacar também a definição dada por Sorrentino e Nascimento (2010) para um Campus Verde. Segundo os autores, esse modelo realiza-se por meio da redução do consumo dos recursos naturais, no incentivo à reciclagem de materiais de consumo do dia-a-dia, pela promoção do questionamento crítico do consumo, na substituição dos descartáveis por alternativas duráveis e pelo incentivo ao consumo de produtos agroecológicos, permitindo que a instituição dê testemunho daquilo que é proposto em sala de aula. Eles afirmam ainda que a sustentabilidade abrange o ensino, pesquisa, extensão e gestão dentro da universidade. E nessa conjuntura, a Educação Ambiental é fundamental ao exercer dois papéis:
(...) o de educar a própria instituição, para ela incorporar a questão ambiental no seu cotidiano – a ambientalização da Instituição, presente em todas as suas atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão; e o de contribuir para educar ambientalmente a sociedade – um projeto ambientalista de país e as ações educadoras com ele comprometidas (SORRENTINO e NASCIMENTO, 2010, p.25).
Por sua vez, Velazquez et al. (2006) apresentam a seguinte definição a respeito do Campus Verde:
Uma instituição de ensino superior, como um todo ou em parte, que aborda, envolve e promove, a nível regional ou global, a minimização dos impactos negativos ambientais, econômicos, sociais e à saúde gerados pelo uso dos recursos quando do cumprimento de suas funções de ensino, pesquisa, extensão, bem como na gestão da forma de ajudar a sociedade a fazer a transição para estilos de vida sustentáveis (VELAZQUEZ et al., 2006, p. 812).
Para isso, os autores elaboraram um modelo gerencial abrangente, baseado em dados empíricos extraídos de várias IES em todo o mundo, composto por quatro fases em um processo de gestão estratégica, baseado na análise de dados e experiências de várias instituições de ensino superior de todo o mundo, tais como iniciativas de sustentabilidade, métricas, barreiras, sistemas de gestão ambiental, ensino, projetos de pesquisa, falhas, sucessos, relações de proximidade, conforme Figura 4 (segue folha estendida no anexo 1).
A primeira fase desse modelo está relacionada ao desenvolvimento de uma visão de sustentabilidade na Instituição. A segunda consolida-se com a inclusão dessa temática dentre as missões universitárias, seguindo a proposta de Alshuwaikhat e Abubakar (2008). Finlay e Massey (2012) corroboram essas duas etapas, apontando que o primeiro passo para um Campus Verde está na inserção da sustentabilidade nas políticas acadêmicas, na missão e planejamento institucional. Assim, tendo como exemplo a University of California Berkeley, a missão da universidade aponta a sua intenção em se comprometer com o meio ambiente e com a promoção do pensamento global e ação local, abraçando práticas sustentáveis, desempenhado melhor as funções de ensino, pesquisa e serviço público, tendo o compromisso de mudar o mundo para melhor10.
Haja vista, Sorrentino e Nascimento (2010) também validam essas duas etapas ao afirmarem que para as universidades incorporarem a dimensão ambiental em seu cotidiano primeiramente é preciso que elas definam a direção a seguir no contexto complexo da contemporaneidade, para em seguida estabelecerem a forma como fazer isso. Embora caiba ressaltar a ineficiência de planos socioambientais estratégicos se não houver indicadores de monitoramento e mecanismos de implementação dessa visão (LOZANO, 2006).
A terceira fase relaciona-se com a estrutura organizacional da IES, no qual se faz necessária a criação de um comitê para estabelecer políticas, metas e objetivos institucionais voltados a sustentabilidade, além de coordenar as iniciativas, evitando a sobreposição de esforços. Novamente, o modelo de Velazquez et al. (2006) se alinha com a proposta de
Alshuwaikhat e Abubakar (2008) com o seu EV. Por fim, a quarta fase está ligada a implantação de estratégias para minimização de impactos ambientais, econômicos e sociais nas dimensões da educação, pesquisa, extensão e gestão do campus. Sorrentino e Nascimento (2010) corroboram essa etapa ao alertar que os desafios que envolvem essas questões são abrangentes e englobam:
(...) da pedagogia à política pública, das salas de aula aos objetivos institucionais, das políticas de ensino às políticas de governo, dos debates sobre Ciência e Política ao papel do movimento ambientalista e do chamado desenvolvimento sustentável (SORRENTINO E NASCIMENTO, 2010, p.18).
Ademais, Velazquez et al. (2006) alertam para a necessidade de monitoramento, análise e controle das iniciativas. Segundo os autores, na maioria das universidades há escassez de condições para o estabelecimento e cumprimento das fases desse modelo, por isso essa não é uma estrutura rígida, mas sim, pretende ser um modelo para o desenvolvimento e instauração de missões, políticas, estratégias, procedimentos e indicadores de sustentabilidade. E finalizando as considerações sobre esse modelo, Velazquez et al. (2006) salientam que dois meios são fundamentais para o êxito na implantação das quatro estratégias propostas: o aumento da consciência ambiental entre os indivíduos envolvidos nessa proposta e o uso de tecnologia visando reduzir a carga ambiental a nível local e global (VELASQUEZ et al.,2006).
Por fim, considerando o conjunto teórico desenvolvido por Alshuwaikhat e Abubakar (2008) e Velazquez et al. (2006) observam-se características que se assemelham as iniciativas relatadas nas universidades brasileiras, descritas no Capítulo 2.3, tais como o Sistema de Gestão Ambiental, apresentado por Tauchen e Brandli (2006), que é elemento obrigatório no modelo de Alshuwaikhat e Abubakar (2008) e fundamental para a gestão estratégica proposta pela estrutura de Velazquez et al. (2006). Por meio desse instrumento é possível esclarecer o papel e as responsabilidades de todos os envolvidos com o processo de sustentabilidade na universidade e promover melhorias por meio do monitoramento, análise e controle do desempenho das iniciativas socioambientais no campus (VELASQUEZ et al., 2006; ALSHUWAIKHAT e ABUBAKAR, 2008).
Figura 4 – Proposta de modelo universitário sustentável.
2.5 RESTRIÇÕES À EFETIVIDADE DA SUSTENTABILIDADE NOS CAMPI