Apresentados os principais conceitos concernentes à AD, são traçadas, então, algumas considerações sobre o dispositivo de análise, ou de escuta dos dizeres dos participantes dessa pesquisa. Tais considerações pautam-se predominantemente em Orlandi (2002).
Em AD cabe ao analista construir seu dispositivo de análise, dados seus objetivos, o domínio científico ao qual vincula seu trabalho e os materiais que constituem seu corpus de análise. De acordo com a autora mencionada, um dispositivo de análise em AD deve
[...] colocar o dito em relação ao não-dito, o que o sujeito diz em um lugar com o que é dito em outro lugar, o que é dito de um modo com o que é dito de outro, procurando ouvir, naquilo que o sujeito diz, aquilo que ele não diz mas que constitui igualmente os sentidos de suas palavras (ORLANDI, 2002, p. 59).
Ademais, a escuta discursiva deve explicitar gestos de interpretação, os quais se ligam à identificação do sujeito e suas filiações de sentido, como também descrever a relação do sujeito com sua memória. Mas, em AD, não há descrição sem interpretação e estas relacionam-se, de modo que sua distinção cabe ao analista, o qual está envolvido no processo de interpretação (ORLANDI, op. cit.)..
Faz-se necessário introduzir um dispositivo teórico que possa intervir na relação do analista com o objeto simbólico que analisa. O analista deve ir além dos limites da transparência da linguagem, da onipotência do sujeito e da literalidade dos sentidos. Ele não interpreta, contudo trabalha nos limites da interpretação, de modo que não está fora da história, do ideológico ou do simbólico, mas em uma posição deslocada, por meio da mediação teórica, que o permite contemplar o processo de produção de sentidos (ORLANDI, 2002).
No que diz respeito ao corpus dos dados, a autora diz que a construção deste e sua análise estão intimamente ligadas, visto que ao se decidir o que constitui o
corpus já se está decidindo sobre as suas propriedades discursivas.
O analista parte do texto, o remetendo a
um discurso, que por sua vez, se explicita em suas regularidades pela sua referência à uma ou outra formação discursiva que, por sua vez, ganha sentido porque deriva de um jogo definido pela formação ideológica dominante naquela conjuntura (ORLANDI, 2002, p.63).
Cabe dizer que o texto, do qual o analista parte, não precisa, necessariamente, ser extenso, todavia ao ser referido à discursividade, deve constituir uma unidade em relação à situação. A análise não se interessa pelo texto como objeto final de sua explicação, mas como unidade que possibilita o acesso ao discurso (ORLANDI, 2002).
Essa autora diz que, inicialmente, o analista deve partir da superfície linguística (material de linguagem bruto, como por exemplo, a transcrição de uma entrevista) passando para o objeto discursivo, que é definido pelo fato de que o
corpus já recebeu um tratamento de análise superficial, chamado de de-
superficialização.
A de-superficialização consiste na análise da materialidade linguística do texto: quem diz, como se diz, em que circunstâncias, a quem se diz, etc. Assim, alguns vestígios vão se tecendo no fio do discurso. Nesta direção, procura-se dar conta do esquecimento de número dois (o da enunciação), o qual dá a impressão de
que aquilo só poderia ser dito daquela forma. O analista desfaz-se da ilusão de que o que foi dito só poderia ser dito daquela maneira.
É por meio da de-superficialização que o analista constrói um objeto discursivo em que se analisa o que é dito nesse discurso e o que é dito em outros, em memórias e condições distintas. Nesta etapa da análise, o trabalho com paráfrases, sinonímias, relações entre dizer e não-dizer faz-se relevante. Observada a relação que existe entre as distintas superfícies linguísticas, aparece aí o modo de funcionamento do discurso, sendo possível detectar a relação deste com as formações discursivas que estão dominando o processo discursivo em questão (ORLANDI, 2002), que é a produção de sentidos (BRANDÃO, 2004).
Na segunda etapa da análise, o analista vai relacionar as distintas formações discursivas que podem ter se delineado ao longo do processo de análise com a formação ideológica que as rege, atingindo a constituição dos processos discursivos responsáveis pelos efeitos de sentido. Logo, no processo de análise, deve-se remeter o texto ao discurso e estes às formações discursivas, pensando nas relações destas com a ideologia.
No processo de análise, conforme aponta Orlandi (2002), há que se considerar também a relação do dizer com o não-dizer, em razão de que ao longo do dizer há não-ditos que também significam.
Neste sentido, a fala é silenciadora em vários níveis. Tomando, por exemplo, a perspectiva do autoritarismo, “[...] às relações de poder interessa menos calar o interlocutor, do que obrigá-lo a dizer o que se quer ouvir, a isso chamamos injunção
do dizer” (ORLANDI, 1996b, p. 263-264, grifo da autora).
Silenciar não é o mesmo que calar. A fala instaura espaços de silêncio e “o sentido está sempre no viés. Ou seja, para se compreender um discurso é importante se perguntar: o que ele não está querendo dizer ao dizer isto? Ou: o que ele não está falando, quando está falando disso?” (ORLANDI, 1996b, p. 275).
Assim como as palavras, na perspectiva da AD, o silêncio também é opaco. Este tem suas condições de produção e, dada a diversidade dessas, seu sentido varia, sendo tão ambíguo quanto as palavras (ORLANDI, 1996b).
Para Orlandi (2002), existem:
• o silêncio fundador: aquele silêncio que indica que o sentido pode ser outro e; • o silenciamento/política do silêncio: se divide em silêncio constitutivo (uma
local (a censura, ou seja, o que não pode ser dito em uma determinada conjuntura).
Portanto, as palavras são acompanhadas e atravessadas pelo silêncio. Desenrola-se entre o dizer e o não dizer um espaço de interpretação no qual o sujeito se move. Nesta perspectiva, o analista deve dar, por meio da análise baseada em conceitos discursivos, visibilidade a tal espaço (ORLANDI, 2002).
Finaliza-se as considerações a respeito da AD enfatizando que, como diz Orlandi (2002, p. 96),
[...] o sujeito discursivo não realiza apenas atos. Se, ao dizer, nos significamos e significamos o próprio mundo, ao mesmo tempo, a realidade se constitui nos sentidos que, enquanto sujeitos, praticamos. É considerada dessa maneira que a linguagem é uma prática; não no sentido de efetuar atos, mas porque pratica sentidos, intervém no real. [...] O sentido é história. O sujeito do discurso se faz (se significa) na/pela história. Assim, podemos compreender também que as palavras não estão ligadas às coisas diretamente, nem são o reflexo de uma evidência. É a ideologia que torna possível a relação palavra-coisa [...].
Portanto, entende-se que a escuta discursiva dos dizeres das participantes desta pesquisa se faz pertinente, pois estas, aluna e professoras, são interpeladas pela ideologia, ou seja, são sujeitos e falam a partir de determinadas condições de produção, bem como de posições distintas dentro da instituição escolar e, possivelmente, o que dizem/disseram à pesquisadora é efeito de uma memória discursiva, do que já foi dito em outro lugar e que significa e se reflete, por exemplo, nas práticas pedagógicas no ambiente escolar.