3. METHODOLOGY
3.2 D ATA C OLLECTION
A constituição dos dados referentes a esta pesquisa ocorreu entre os meses de março e junho de 2015.
Os dados foram constituídos por meio de:
a. Observações das aulas de Física da aluna A e das atividades desenvolvidas por esta na SR;
b. Entrevistas semiestruturadas realizadas com todos os participantes e;
c. Um documento que consiste na transcrição para o braille, realizada pela professora S, do enunciado em tinta de um exercício de Física.
3.2.1 As observações
A realização das observações (das aulas de Física de A, bem como das atividades desenvolvidas por ela na SR) como um dos procedimentos para constituição dos dados se deu porque essas (as observações) permitem ao pesquisador um contato pessoal e estreito com a realidade estudada, chegando mais perto da perspectiva dos participantes da pesquisa, além de possibilitar a descoberta de aspectos novos do problema estudado (LUDKE; ANDRÉ, 1986). Ademais, Alves-Mazzotti e Gewndsznajder (2004), apontam algumas vantagens atribuídas à observação, a saber: independe do nível de conhecimento e/ou da capacidade verbal dos participantes; possibilita “checar”, na prática, a sinceridade de certas respostas que podem ser dadas só para “causar boa impressão”; permite identificar comportamentos não-intencionais ou inconscientes, bem como explorar tópicos que os informantes não se sentem à vontade para discutir e; possibilita o registro do comportamento em seu contexto temporal-espacial.
“Os focos de observação nas abordagens qualitativas de pesquisa são determinados basicamente pelos propósitos específicos do estudo. que por sua vez derivam de um quadro teórico geral, traçado pelo pesquisador” (LUDKE; ANDRÉ, 1986, p. 29). Neste sentido, dado o objetivo da pesquisa em tela, as observações
tiveram como foco as práticas pedagógicas adotadas pelas professoras de Física e da SR com vistas a acompanhar o processo de ensino-aprendizagem de Física da aluna A, bem como para averiguar o nível de interação entre as supramencionadas professoras e da aluna com essas professoras e colegas de classe.
Há que dizer que ao longo do processo de constituição dos dados, o nível de participação da pesquisadora no contexto observado se modificou, de modo que a observação passou de não participante à participante, que é aquela em que
[...] o pesquisador se torna parte da situação observada, interagindo por longos períodos com os sujeitos, buscando partilhar o seu cotidiano para sentir o que significa estar naquela situação (ALVES-MAZZOTTI;
GEWNDSZNAJDER, 2004, p. 166).
Embora a realização de observação participante não fosse a intenção da pesquisadora, ela ocorreu gradualmente, visto que, no decorrer do processo de constituição dos dados, a professora de Física solicitou à pesquisadora, por exemplo, que: ditasse as provas de Física e uma lista de exercícios à aluna e; levasse as resoluções de provas/listas de exercícios e trabalhos para serem transcritos do braille para tinta na SR.
Tanto as aulas de Física da aluna A, quanto as atividades realizadas por esta na SR foram gravadas em áudio. Além disso, foram feitos registros escritos de todas as aulas/atividades observadas. Tais registros escritos, chamados de “diários de campo”, são de cunho predominantemente descritivo e contemplam também algumas reflexões.
As gravações de áudio realizadas durante as observações das aulas/atividades mencionadas não foram transcritas, mas utilizadas como um complemento para elaboração dos diários de campo. Neste sentido, alguns dos elementos observados, cuja descrição no diário de campo se mostrou confusa/incompleta, puderam ser retomados nas gravações de áudio. Salienta-se que, embora consideradas como um respaldo relevante, as gravações de áudio possuem limitações, uma vez que não possibilitam ao pesquisador o acesso à algumas informações tais como esquemas visuais e expressões faciais.
Com relação ao exposto, há que se dizer que para o referencial teórico de análise dos dados (Análise de Discurso de linha francesa), o acesso do analista às expressões faciais e movimentos corporais dos participantes pode indicar elementos importantes para a análise. Contudo, dado o fato de que a pesquisadora possui baixa visão e, portanto, mesmo que fossem feitas gravações de vídeo, grande parte
das informações visuais não seriam percebidas por ela, optou-se pelas gravações de aúdio, o que não compromete de modo significativo a realização do trabalho, embora deva ser levado em consideração naquilo que diz respeito às análises.
Na Escola A foram observadas 16 aulas de Física, o que contabilizou aproximadamente 11 horas e 30 minutos de observações. Cabe dizer que a aluna tem duas aulas semanais de Física e a duração de cada aula é de 50 minutos. A quantidade total de horas observadas na Escola A é uma aproximação, uma vez que a duração de cada aula de Física foi contabilizada a partir do momento em que a professora F chegava na sala de aula até o momento de sua saída. Tal contabilização foi estimada a partir das gravações de áudio.
Durante o período de observação das aulas de Física, os principais assuntos abordados pela professora F foram: temperatura, calor, escalas termométricas e processos de transferência de calor27. A professora utilizou uma metodologia predominantemente expositiva e apoiou-se no Caderno de Aluno28, o qual, por atraso na entrega, não estava disponível em formato acessível à aluna A. No que diz respeito à realização de experimentos e demonstrações, foi realizada uma demonstração que abordou os processos de transferência de calor (uma breve descrição dessa demonstração é apresentada no quadro síntese das aulas de Física de A – APÊNDICE C). A avaliação foi realizada por meio de: tarefas, listas de exercícios, pesquisas (uma sobre os cientistas Celsius, Kelvin e Fahrenheit - com foco na época em que viveram, onde viveram e as descobertas científicas que fizeram – e outra sobre processos de transferência de calor) e provas escritas. A professora F ditou à aluna A os conteúdos que eram passados na lousa. Houve alguns momentos que os colegas de classe de A também ditavam o conteúdo à essa aluna, a qual participou das aulas respondendo às questões propostas pela professora F. Há que se dizer também que a aluna utilizava, no âmbito da sala de aula regular, uma máquina Braille para escrever os conteúdos que eram ditados pela professora e pelos colegas.
27Como aponta Galbiatti (2014, p. 56), [...] em Física, muitos conceitos exibem nomenclaturas que são
utilizadas por professores e livros didáticos, que geram equívocos conceituais e dificuldades de compreensão dos conceitos de calor e temperatura”. O termo “transferência de calor”, por exemplo, implica em erro conceitual por sugerir que o calor seria uma propriedade intrínseca do sistema. Ao contrário, calor é processo de transferência de energia entre sistemas a diferentes temperaturas.
28 O “Caderno do Aluno” juntamente com o “Caderno do Professor” foram implementados na Rede
Estadual de São Paulo em 2008 e contemplam a Proposta Curricular do Estado de São Paulo, que propõe um currículo para o Ensino Fundamental II e Ensino Médio (CASSIARI, 2011).
Na SR foram contabilizados 12 dias de observações das atividades realizadas pela aluna A, totalizando, aproximadamente, 19 horas e 35 minutos de observações. A aluna frequentava a SR duas vezes por semana, no período diverso ao que frequentava a sala de aula regular. O horário de realização dos seus atendimentos na SR era das 13 horas às 14 horas e 40 minutos, ou seja, cada vez que ia até a SR, seu atendimento tinha uma duração prevista de 1h e 40 min. Ressalta-se que a quantidade de horas de observações contabilizadas na SR é uma aproximação, visto que foi contabilizada a partir do momento em que A chegava na SR até o momento em que a professora S ia embora (após S ir embora a aluna ainda permanecia na SR esperando o transporte escolar). Tal contabilização foi estimada a partir das gravações de áudio.
Em linhas gerais, na SR foram observadas as seguintes atividades: transcrições do braille para tinta realizadas pela professora S, de provas, trabalhos e resoluções de exercícios; a professora ditou para a aluna A textos e enunciados em tinta; auxílio à aluna na busca de fontes bibliográficas para a realização de pesquisas e; descrição de figuras. A professora atendia, durante o horário em que A frequentava a SR, outros alunos de escolas e séries distintas.
No APÊNDICE C são apresentados dois quadros que sintetizam as observações das aulas de Física de A, bem como das atividades realizadas por essa aluna na SR. Tais quadros apresentam uma breve descrição das principais atividades e/ou conteúdos trabalhados em cada aula de Física e na SR durante o período da constituição dos dados.
Nos quadros supramencionados constam as observações realizadas até o final do mês de maio de 2015. Entretanto, a pesquisadora permaneceu nas escolas até o dia 24 de junho desse ano, uma vez que ficou combinado com a aluna participante e suas professoras que a pesquisadora estaria presente nas aulas de Física e na SR até o final do 1º. semestre letivo.
3.2.2 As entrevistas
No que se refere ao uso de entrevistas também como procedimento de constituição dos dados, estas possibilitam ao pesquisador uma maior interação com
os participantes, havendo influência recíproca entre quem pergunta e quem responde. Ademais, permite também um aprofundamento da realidade estudada, assim como a “[...] captação imediata e corrente da informação desejada, praticamente com qualquer tipo de informante e sobre os mais variados tópicos” (LUDKE; ANDRÉ, 1986, p. 33).
Optou-se pela realização, com cada participante, de entrevista semiestruturada, ou seja, aquela que
[...] parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do informante. [...] essas perguntas fundamentais que constituem, em parte, a entrevista semi-estruturada, no enfoque qualitativo, não nasceram a priori. Elas são resultados não só da teoria que alimenta a ação do investigador, mas também de toda a informação que ele já recolheu sobre o fenômeno social que interessa [...] (TRIVIÑOS, 1987, p. 146).
No APÊNDICE D são apresentados os roteiros das entrevistas semiestruturadas realizadas com todos os participantes desta pesquisa. Com vistas a avaliar a adequação da linguagem utilizada, a forma como as questões estão dispostas nos roteiros, se os termos utilizados são compreensíveis e adequados aos participantes da entrevista e se as questões propostas atingem o objetivo da pesquisa (BELEI et. al., 2008), os roteiros das entrevistas foram submetidos à apreciação de dois juízes externos, os quais possuem graduação em licenciatura em Física, Doutorado nas áreas de Educação e Educação para a Ciência e pesquisam questões relacionadas à inclusão escolar de alunos com deficiência visual nas aulas de Física.
Foram feitas gravações de áudio de todas as entrevistas. No APÊNDICE E são apresentadas as transcrições integrais das entrevistas realizadas com os participantes, bem como os sinais (e seus significados) utilizados nessas transcrições.
3.2.3 A transcrição para o braille, realizada pela professora S, do enunciado em tinta de um exercício de Física
Conforme mencionado, os dados dessa pesquisa são constituídos também por um documento, ou seja, um material escrito que pode ser usado como fonte de informação (ALVES-MAZZOTTI; GEWNDSZNAJDER, 2004), cuja análise pode complementar os dados obtidos por meio das observações e entrevistas, podendo apontar novos aspectos da realidade estudada (LUDKE; ANDRÉ, 1986). Tal documento consiste na transcrição para o braille, realizada pela professora da SR, do enunciado em tinta de um exercício de Física extraído do livro “Os Fundamentos da Física” (RAMALHO JÚNIOR; FERRARO; SOARES, 2007, p. 87):
Um bloco de gelo de massa 500 g a -10 0C é colocado num calorímetro de
capacidade térmica 9,8 cal/ 0C. Faz-se chegar então, a esse calorímetro, vapor de água a 100 0C em quantidade suficiente para o equilíbrio térmico
se dar a 50 0C. Sendo L
f = 80 cal/g o calor latente de fusão do gelo e Lc = -
540 cal/g o calor latente de condensação do vapor a 100 0C, calcule a massa de vapor introduzida no calorímetro. (Dados:cágua = 1 cal/g 0C ; cgelo=
0,5 cal/g 0C).
Tal enunciado foi escolhido por ser o mesmo utilizado por Tato e Barbosa- Lima (2009) ao discutirem os problemas decorrentes da impressão em braille por meio do software “Braille Fácil” e por abarcar grandezas físicas e suas respectivas unidades de medida que estavam sendo utilizadas no contexto das aulas de Física da aluna A.
Tendo observado que uma das atividades realizadas pela professora da SR era a transcrição de tinta para o braille, e vice-versa, de conteúdos/exercícios referentes às disciplinas escolares e que, com relação à Física foi observada somente a ocorrência de transcrição do braille para tinta, mas não de seu inverso, a pesquisadora solicitou à professora S que transcrevesse o referido exercício para o braille. Tal transcrição encontra-se no ANEXO C.
Além dessa transcrição, a pesquisadora também teve acesso às transcrições realizadas pela professora S, do braille para tinta, da resolução de uma prova e de uma lista de exercícios feitos pela aluna A. Tais resoluções/transcrições não foram apresentadas nos anexos deste trabalho porque não foi solicitada a autorização da aluna A e nem de suas professoras para tanto. No entanto, cabe considerar que as análises estão imbuídas das informações contidas em tais documentos.