A mudança de postura da mídia pode ser observada se analisados os editoriais dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. No dia 13 de junho os principais jornais paulistas cobravam do governo do estado uma postura para conter os manifestantes, identificados como “vândalos”. O editorial da Folha, intitulado “Retomar a Paulista”72 inicia
com um “saldo do terceiro protesto do Movimento Passe Livre (MPL), que se vangloria de
69Sá, Nelson de. Grupo Mídia Ninja se projeta ao cobrir protestos ao vivo. Folha de S. Paulo. Poder. Disponível em
<http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/07/1317943-grupo-midia-ninja-se-projeta-ao-cobrir-protestos-ao-vivo.shtml> . Acesso em 28 jul. 2013.
70 MÍDIA NINJA. Disponível em <http:www.midianinja.org> ou <https://ninja.oximity.com/partner/ninja/about>. Mais
informações também no site post.org ou facebook.com.br/midiaNinja. Acesso em 01 abr. 2015.
71Peer-to-peer (par a par, na tradução para o português), é um termo derivado da informática correspondente a um formato de rede descentralizada de compartilhamento em que cada usuário conectado realiza funções de servidor e de cliente ao mesmo tempo. No caso da comunicação, este termo é utilizado para dizer que o usuário pode ter ao mesmo tempo os papéis de emissor e receptor.
72 FOLHA DE S. PAULO. Retomar a paulista. [Editorial]. Disponível em
http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/06/1294185-editorial-retomar-a-paulista.shtml. Acesso em 13 de jun. 2013.
parar São Paulo”: “oito policiais militares e um número desconhecido de manifestantes feridos, 87 ônibus danificados e 10 mil de prejuízos em estações de metrô e milhões de paulistanos reféns do trânsito”. Observa-se no discurso uma tentativa de desqualificar o movimento:
Sua reivindicação de reverter o aumento da tarifa de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,20 –abaixo da inflação, é útil assinalar– não passa de pretexto, e dos mais vis. São jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária, que buscam tirar proveito da compreensível irritação geral com o preço pago para viajar em ônibus e trens superlotados. (FOLHA DE S. PAULO, 2013 [Editorial])
O texto traz termos (substantivos, verbos e adjetivos) na tentativa dessa desqualificação como “grupelho”, “vandalizar”, “condição marginal e sectária” (dos militantes).
É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Policia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na avenida Paulista, em cujas imediações estão sete grandes hospitais. (...)
No que toca ao vandalismo, só há um meio de combatê-lo: a força da lei. Cumpre investigar, identificar e processar os responsáveis. Como em toda forma de criminalidade, aqui também a impunidade é o maior incentivo à reincidência. (FOLHA DE S. PAULO, 2013 [Editorial])
Estratégia parecida é adotada pelo Estadão, que começa o editorial “Chegou a hora do basta”73, descrevendo que “os baderneiros que promovem [o protesto] ultrapassaram, ontem,
todos os limites e, daqui para a frente, ou as autoridades determinam que a polícia aja com maior rigor do que vem fazendo ou a capital paulista ficará entregue à desordem, o que é inaceitável”. Há uma inversão de papéis no segundo parágrafo ao retratar a PM como aquela que é “atacada com paus e pedras sempre que tentava conter a fúria dos baderneiros” e no trecho seguinte uma justificativa para a utilização de “gás lacrimogêneo e baldas de borracha” – uma “reação” à ação dos manifestantes.
Em suma, foi mais um dia de cão, pior do que os outros, no qual a violência dos manifestantes assustou e prejudicou diretamente centenas de milhares de paulistanos que trabalham na Paulista e no centro e deixou apreensivos milhões de outros que assistiram pela televisão às cenas de depredação. (O Estado de S. Paulo, 2013. [Editorial]
73 Íntegra do texto disponível em http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,chegou-a-hora-do-basta-imp-
Em seguida, o texto cobra atitudes do governador Geraldo Alckmin e do prefeito Fernando Haddad, que na ocasião se encontravam em Paris para defender a candidatura da capital paulista à sede da Exposição Universal de 2020. O editorial afirma que “a população quer o fim da baderna – e isso depende do rigor das autoridades”.
No dia seguinte, os editoriais dos dois jornais não traziam opiniões sobre os protestos, voltando ao assunto no sábado, dia 15 de junho. No editorial Agentes do Caos74, a Folha
critica a ação da PM no protesto de 13 de junho:
a Polícia Militar do Estado de São Paulo protagonizou, na noite de anteontem, um espetáculo de despreparo, truculência e falta de controle ainda mais grave que o vandalismo e a violência dos manifestantes, que tinha por missão coibir. Cabe à PM impor a ordem, e não contribuir para a desordem (...)
No quarto protesto, a responsável maior pela violência passou a ser a própria PM. Pessoas sem envolvimento no confronto foram vítimas da brutalidade policial. Transeuntes, funcionários do comércio, manifestantes pacíficos e até frequentadores de bar foram atacados com cassetetes e bombas.
Sete repórteres da Folha terminaram atingidos, quatro deles cm balas de borracha, em meio à violência indiscriminada da polícia. A jornalista Giuliana Vallone foi alvejada no olho e recebeu 15 pontos no rosto. (....)
Não é só por solidariedade profissional que se mencionam, neste espaço, as agressões sofridas por repórteres da Folha – e de outros órgãos de imprensa. Antes de mais nada, como qualquer cidadão, eles não poderiam ser atacados por policiais cuja ação não parecia obedecer a qualquer plano ou estratégia. (...) De promotores da paz pública, policiais transformaram-se em agentes do caos e da truculência que lhes cabia reprimir, dentro da lei, da legitimidade e da razão. (FOLHA DE S. PAULO, 2013b [Editorial].
O editorial do Estadão intitulado Entender as Manifestações75, publicado em 15 de
junho de 2013, pelo que se observa no título se propõe a compreender os avanços das manifestações por todo o país. No corpo do texto, destaca-se o poder de mobilização do movimento através das redes sociais ressaltando a “facilidade com que os grupos que organizam os protestos conseguem mobilizar descontentes de todos os tipos pelas redes sociais dá o que pensar”. O texto questiona se a tarifa é o único motivo para os protestos e define a manifestação da quinta-feira, dia 13, como a “ a manifestação mais violenta – pela insistência dos seus integrantes em ocupar vias, como a Avenida Paulista, que as autoridades haviam decidido manter livres, e pela reação da Polícia Militar (PM), muito mais dura que nos dias anteriores”. Observa-se certa justificativa para a ação violenta da PM “determinada a conter os protestos” e que teria provocado “a fúria dos manifestantes, com atos de vandalismo” e, por fim, uma crítica à postura do prefeito Fernando Haddad ”que ora se diz
74 Íntegra do texto disponível em http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/06/1295534-editorial-agentes-do-
caos.shtml
75 Íntegra do editorial disponível em http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,entender-as-manifestacoes-imp-
aberto ao diálogo com quem quer tarifa zero, ora diz que não recua do aumento, ora condena o vandalismo dos manifestantes, ora alega que tem havido excesso da PM. Quem está no poder tem de pagar o preço de atitudes nítidas, em especial em momentos de crise.”
A mídia televisiva também fez o seu mea culpa. Outro episódio que bastante conhecido foi o do comentarista da TV Globo, Arnaldo Jabor, que após comentário exibido no Jornal da Globo, se retratou no próprio noticioso e na rádio CBN:
Amigos ouvintes, outro dia eu errei. Sim. Errei na avaliação no primeiro dia das manifestações contra o aumento das passagens em São Paulo. Falei na TV sobre o que me parecia um bando de irresponsáveis fazendo provocações por causa de 0,20 centavos. Era muito mais que isso. Pois eu fiz um erro de avaliação. E esta é minha autocrítica.
Este movimento, o Passe Livre, que começou outro dia, tinha toda cara de anarquismo inútil e critiquei-o porque temia que tanta energia fosse gasta em bobagens quando há graves problemas a enfrentar no Brasil.
Mas a partir de quinta-feira, com a violência maior da polícia, ficou claro que o Movimento Passe Livre expressava uma inquietação que tardara muito no país, pois desde 1992 faltava o retorno de algo como os caras pintadas, os jovens que derrubaram o presidente. Hoje eu acho que o Movimento Passe Livre expandiu-se como uma força política original. Até mais rica do que os caras pintadas justamente porque não tem um rumo e objetivo certo a priori. (JABOR, 2013.)
A mudança de postura de Jabor foi amplamente comentada e repercutiu entre os jornalistas. O portal Comunique-se, destinado a este tipo de público, veiculou no próprio dia 17 e seguinte texto76:
Seis dias depois de opinar sobre os protestos em São Paulo, Arnaldo Jabor falou à CBN que errou. O colunista da Globo, que havia dito não entender o motivo para tanto "ódio contra a cidade", voltou atrás em seu depoimento e disse que o "Movimento Passe Livre expandiu-se como uma força política original". (COMUNIQUE-SE, 2013).
Se a mídia se posicionou sobre os protestos, o mesmo ocorreu com as autoridades, sobretudo o governo federal, principal alvo das críticas dos manifestantes. Os partidos políticos, por sua vez, apostaram em peças publicitárias de propaganda eleitoral gratuitas voltadas para o público das manifestações, vendendo uma ideia de necessidade de transformação.