Ainda que nosso imaginário a respeito do conceito de rede esteja povoado por grupos sociais articulados na internet ou por encontros sociais com fins políticos, a ideia de rede é mais antiga e mais abrangente que isso. A acepção do termo, por si só, já trás diferentes implicações, com possiblidades semânticas e teóricas de abordagem. Como mostra Ferreira (2011, p. 210)
O termo rede tem origem etimológica no vocábulo latim rete e assume, hoje em dia, diversos significados. Pode significar espécie de malha formada por um entrelaçado de fios, cordas, arames ou outro material; artefato para fins de apresamento ou retenção do animal desejado; tecido de malha metálica usado para formar vedações. Pode significar, também, conjunto de pessoas, estabelecimentos ou organizações que trabalham comunicando entre si; organização de espionagem implantada em um país; entrelaçamento de nervos e fibras; conjunto de vias ou de meios de transporte ferroviário, rodoviário ou aéreo; sistema interligado de meios de comunicação; sistema interligado de computadores e seus periféricos e, em sentido figurado, pode, também, significar emaranhado de coisas ou de circunstâncias, complicação, cilada, engano ou logro.
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Pesquisas que propõem uma linha histórica sobre o conceito são diversas no trato do tema, com versões e enfoques próprios, dependo do autor (Ferreira, 2011; Recuero, 2012; Recuero, 2004; Scharnhorst, 2003). Para Raquel da Cunha Recuero (2004) e Raquel da Cunha Recuero (2006), como para muitos outros pesquisadores, os primeiros passos da teoria das redes encontram-se, como semente para uma abordagem científica, nos trabalhos do matemático Ëuler, no século XVIII. Ao criar o primeiro teorema da teoria dos grafos, ele fez uma representação de um conjunto de nós conectados por arestas, formando uma rede (Figura 1).
Figura 2: Exemplo de um grafo eureliano.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Caminho_euleriano.
Na sociologia, a teoria dos grafos é uma das bases do estudo das redes sociais, ancorado na chamada Análise Estrutural de Redes Sociais, como se vê em Degenne and Forsé (1999), decorrente de estudos das décadas de 60 e 70 que dedicaram especial atenção à pesquisa das estruturas sociais. Além disso, a importância dessa abordagem está, fundamentalmente, na sua origem sistêmica, além de “perceber os grupos de indivíduos conectados como rede social e, a partir dos teoremas dos grafos, extrair propriedades estruturais e funcionais da observação empírica” (Recuero, 2006, p. 23).
Ferreira (2011) também retoma os trabalhos de Ëuler, enquanto precursor da ideia de rede, da forma como a entendemos hoje. Além disso, explica que a metáfora de rede, tal
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qual um tecido, foi inicialmente usada na sociologia, entre os anos 1920 e 1930, como associação entre o comportamento individual e a estrutura a qual ele pertence. Essas ideias transformaram-se mais tarde em uma metodologia denominada sociometria, ferramenta analítica para estudo de interações entre grupos, desenvolvida por Jacob Levy Moreno. Nela, o instrumento de análise se apresenta na forma de um sociograma, técnica que se configura como um gráfico dos emaranhados relacionais entre os sujeitos (Figura 2).
Figura 3: Exemplo de um sociograma.
Fonte: http://doportugalprofundo.blogspot.com.br/2013/01/sociograma-do-sistema.html
Para Marteleto (2001, p. 70), se por um lado essas incursões teóricas surgem como primeiras tentativas de explicar fenômenos em rede, por outro “o trabalho pessoal em redes de conexões é tão antigo quanto a história da humanidade, mas, apenas nas últimas décadas, as pessoas passaram a percebê-lo como uma ferramenta organizacional”.
Citando as pesquisas de Colonomos (1995), a autora afirma que as expansões dos estudos sobre essa temática aconteceram também por meio do
grande investimento acadêmico nos estudos de redes a partir do campo das relações internacionais, tendo significação na história recente das ciências políticas. A origem da reflexão se dá ao fim da II Guerra Mundial e tem progresso com o fim da Guerra Fria, quando há redefinição dos atores nas relações internacionais. Novos caminhos de pesquisa surgem, nascidos a
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partir da reflexão de ordem e desordem nos sistemas políticos, ligados à elaboração da noção de globalização (Marteleto, 2001, p. 70).
Também sob o ponto de vista social, Tomaél, Alcará, and Di Chiara (2005) irão notar uma característica que se estende ao campo das Ciências Sociais, e por extensão como característica inerente a nós. Para eles,
a configuração em rede é peculiar ao ser humano, ele se agrupa com seus semelhantes e vai estabelecendo relações de trabalho, de amizade, enfim relações de interesses que se desenvolvem e se modificam conforme a sua trajetória. Assim, o indivíduo vai delineando e expandindo sua rede conforme sua inserção na realidade social.
Isto é, as redes sociais, para estes estudiosos, se constituiriam como uma das estratégias – que parece inata – subjacentes às utilizadas pela sociedade para o compartilhamento da informação e do conhecimento, mediante as relações entre atores que as integram (Tomaél et al., 2005).
Sob esse ponto, Marteleto (2010, p. 28) empreendeu uma pesquisa mais aprofundada sobre as origens do termo, mostrando que
o termo rede, no singular ou no plural, associa-se ao adjetivo “social” para especificar o campo, mas sem delimitar uma disciplina específica, uma vez que é empregado pela Antropologia, Sociologia, Economia, Ciências Políticas, Ciência(s) da Informação, Ciências da Comunicação, entre outras. Em linhas gerais, os estudos de redes sociais permitiram a construção de uma compreensão inovadora da sociedade, que ultrapassa os princípios tradicionais, nos quais o elo social é visto como algo que se estabelece em função dos papéis instituídos e das funções que lhes correspondem. De forma diferente, o conceito de redes sociais leva a uma compreensão da sociedade a partir dos vínculos relacionais entre os indivíduos, os quais reforçariam suas capacidades de atuação, compartilhamento, aprendizagem, captação de recursos e mobilização.
Estudos tendem a atribuir ao antropólogo John Barnes (1954), o primeiro uso do termo rede social (social network), que fora usado para mostrar os padrões dos laços humanos, incorporando os conceitos tradicionalmente usados, quer pela sociedade quer pelos cientistas sociais (Ferreira, 2011; Marteleto, 2001; Recuero, 2004; Raquel da Cunha Recuero, 2006). Nesse sentido, para Marteleto (2001, 28), o antropólogo buscava a
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criação do conceito para estudar e descrever uma questão metodológica fundamental dos estudos desse campo, que é o da extensão e não finitude das redes sociais. Ao realizar uma etnografia sobre os princípios de estratificação social numa ilha norueguesa, esse antropólogo desenvolveu uma hipótese, segundo a qual todos seus habitantes estariam interligados uns aos outros por cadeias de interconhecimentos mais ou menos extensas que não se limitam aos limites da ilha, mas ligam seus habitantes a outros sujeitos fora de seu espaço social e geográfico de pertencimento.
Ainda para Marteleto (2001, pp. 28-29),
Outro marco fundador do conceito de redes sociais refere-se à pesquisa realizada, em 1957, pela antropóloga E. Bott (1957), sobre o elo entre as relações conjugais e as redes de referência do casal. À época, o estudo evidenciou que a lógica de compartilhamento e divisão de tarefas entre casais é influenciada pelo pertencimento a redes sociais e, sobretudo, pelas características de tais redes. Os casais caracterizados por forte divisão de tarefas e de papéis familiares pertenciam a redes sociais de estrutura densa (familiares, de vizinhança). Essa divisão de papéis é menos acentuada em casais pertencentes a redes com menor densidade, como colegas de trabalho, de associações, etc.
Além de Bott, há também os estudos de J. C. Mitchell (1969), outro antropólogo da escola estruturalista inglesa que tem importante papel nos marcos fundadores do conceito de redes sociais. Suas pesquisas de grupos de antropólogos na África Central, “elaborou a hipótese de que a rede social e seus elos podem ser empregados para compreender e analisar o comportamento dos indivíduos que fazem parte de uma mesma rede” (Marteleto, 2001, p. 29).
Assim, de forma geral, para Marteleto (2001, p. 72), existiriam diversas possibilidades de abordagens, já que
o conceito de redes é tributário de um conflito permanente entre diferentes correntes nas ciências sociais, que criam os pares dicotômicos - indivíduo/sociedade; ator/estrutura; abordagens subjetivistas/objetivistas; enfoques micro ou macro da realidade social -, colocando cada qual a ênfase analítica em uma das partes. Por exemplo, a antropologia estrutural entende as redes como descritivas, servindo para identificar o caráter perene das organizações e dos comportamentos sociais. Já a linha do individualismo metodológico desconstrói essa concepção, privilegiando o ponto de vista do agente que produz sentido, e as relações sociais na formação do seu agir. As
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redes surgem como um novo instrumento face aos determinismos institucionais.
E os achados desses fundadores demarcam e estabelecem base para estudos de Análise de redes sociais8. Em resumo, seus traços comuns são que os estudos de redes sociais se dão na ênfase das relações sociais para estudar fenômenos sociais, culturais, econômicos ou políticos, o que constitui preocupação clássica e perene nas Ciências Sociais (Marteleto, 2010). Isto é, as definições conceituais são resultado da evolução da metodologia de estudo das redes que, em geral, são um conjunto de métodos, conceitos, teorias e modelos das ciências sociais, com diferentes matizes disciplinares e epistemológicos, que conservam princípios comuns entre eles. O mais geral desses princípios consiste, cabe reforçar, no caráter relacional entre os indivíduos da rede social, na busca de “regularidades que apresentam, a fim de descrevê-las, dar conta da sua formação e de suas transformações, analisar os seus efeitos sobre os comportamentos individuais”. Isto é, fundamentado na Análise de redes sociais (Marteleto, 2007).