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A coleta dos dados na Mangueira, para alimentar o nosso modelo de avaliação da eficácia pública da ação social da Xerox, foi realizada ao longo de maio de 2003. Foi uma tarefa cheia de dificuldades e emoções.

Voltamos a lembrar que, definitivamente, SEM o mestre Taranta a nosso lado, essa pesquisa de campo na Mangueira NÃO teria sido possível. Com o seu jeito de ser, Taranta expressa a síntese do que é ser morador da Mangueira, uma vida de muitas carências, sofrimentos, alegrias, samba, simplicidade e senso de comunidade. Além disso, ele é muito respeitado e querido na comunidade. Com o seu estilo carismático, por onde passava, fazia questão de distribuir cumprimentos calorosos e palavras de atenção.

Morador da Mangueira é que conhece o Morro, seus meandros e segredos. Morador da Mangueira fala a língua da Mangueira. E, sobretudo, morador da Mangueira confia em outro morador da Mangueira. Resumindo, estar com o Taranta transmitiu credibilidade à nossa pesquisa e à nossa presença no Morro. Ele me introduzia como a “pesquisadora da Vila Olímpica73 ... que estava fazendo uma pesquisa na comunidade... e que ele estava trabalhando para mim na pesquisa”.

O interessante é que, acompanhada do Taranta, de certa forma assumimos os valores dele, enquanto estávamos na comunidade. Assim, como ele, passamos a não temer, lá, a ação dos traficantes, mas sim a da polícia. Pois, como nos disse, uma vez, mestre Taranta, “os bandidos não atrapalham a gente, ficam na dele. Mas a polícia, sim, inferniza a vida da gente”. E aqui vale lembrar que, antes de iniciarmos a pesquisa de campo, era a ação daqueles primeiros que víamos como fator de risco.

Ainda assim, mesmo com o mestre Taranta a nos guiar, tivemos que nos submeter ao rítmo da comunidade. Explicamos melhor. Quando chegávamos ao pé do Morro para iniciar a pesquisa, e acontecia da polícia já estar lá em cima, aí Taranta aconselhava a não subirmos naquele dia. Agora, quando já estávamos lá em cima, e os fogos dos olheiros anunciavam a chegada da polícia no Morro, aí tínhamos que, aos poucos e com cuidado, ir encontrando formas de descer. Para Taranta, o que não podia acontecer era sermos surpreendidos no meio de um confronto entre polícia e bandido, o que, segundo ele, de uns tempos para cá vinha acontecendo com muita freqüência.

73 Para o entrevistado, esclarecíamos, depois, que éramos pesquisadora da Fundação Getulio Vargas, e estávamos fazendo a pesquisa sobre a Vila Olímpica, para saber sobre as transformações na vida dos moradores da

comunidade produzidas por aqueles projetos sociais em parceria com a Xerox. E que, por isto, a Xerox nos havia passado o cadastro com os nomes dos participantes.

A localização dos domicílios selecionados na amostra foi outra dificuldade muito grande. Com muita freqüência, não conseguíamos localizar nem as ruas, e nem muito menos as travessas e os becos. Uma vez vencida essa etapa, localizar os números das casas era outra complicação – o número da casa dificilmente coincidia com o que tínhamos na listagem. Como Taranta me explicou, o Programa Favela-Bairro mudou muito a geografia urbana local - ruas desapareceram, outras mudaram o seu traçado, outras mudaram de nome, sem falar que os números das casas praticamente todos se alteraram. No final, a estratégia que acabava valendo mesmo, quando Taranta percebia que já estávamos nos aproximando do endereço, era passar a perguntar pelo nome que constava na listagem. E, não raras vezes, mesmo já estando próximos da casa do participante selecionado, os vizinhos não o conheciam pelo nome (e nem a seus pais, quando os nomes deles constavam da lista). Muitas vezes também acontecia que, depois de batalharmos para localizar o endereço, o participante tinha se mudado de lá.

A dificuldade era tanta que, no decorrer das entrevistas, acabamos fazendo algumas poucas substituições criteriosas e aleatórias (ver NR4 do quadro 23). Exemplificando, se estávamos procurando beltrano (participante da listagem) e não conseguíamos localizar a sua casa, fizemos a entrevista com outro fulano (ou com um dos seus pais, que estivesse em casa naquele momento), que morasse perto do endereço que tínhamos na listagem, que também fora participante do projeto e de idade semelhante à sua.

No decorrer da pesquisa de campo, acabamos por desenvolver também uma estratégia para entrevistar os não-participantes. No início, após terminada a entrevista com o participante, íamos bater à porta do não-participante, indicado por aquele. Percebemos que, em agindo dessa forma, sempre encontrávamos uma certa dificuldade para abordarmos o não- participante; o que era até compreensível, uma vez que, para ele ou sua família, não fazia muito sentido ser entrevistado sobre um projeto social, do qual não havia sequer participado. Passamos, então, a solicitar ao participante que fosse chamar o não-participante em casa e, assim, conversávamos com ele na própria casa do participante; ou então, pedíamos a ele que nos levasse até a casa do não-participante e nos introduzíssemos a ele.

Apesar dessas dificuldades, íamos avançando com as entrevistas quando, no dia 21 de maio, o jornal O Globo publicou, em primeira página, a manchete de que o secretário de esportes do Estado do Rio de Janeiro, Chiquinho da Mangueira, havia sido acusado de proteger o tráfico na Mangueira. A notícia ganhou repercussão nacional, e foi aberto inquérito policial (e mais recentemente, também no Ministério Público Estadual) para investigar a denúncia. Com isso, as batidas policiais se acentuaram no Morro da Mangueira.

Depois do “incidente Chiquinho”, continuar a subir o Morro tornou-se realmente arriscado. E por várias razões: primeiro, porque a Coordenação do Programa não aprovava estas nossas idas ao Morro; segundo, porque vimos que o Programa Social da Mangueira era percebido na comunidade como estreitamente associado ao Chiquinho da Mangueira; terceiro, porque ele estava sendo investigado por seu relacionamento com os traficantes da Mangueira; quarto, porque o trunfo do Chiquinho, até o momento, era justamente aquele Programa Social, a que eu estava me metendo a avaliar os resultados; e quinto, porque o cerco policial aos traficantes da Mangueira ganhou evidência e força a partir de então.

Decidimos que, definitivamente, não poderíamos continuar subindo o Morro da Mangueira. Até aquele momento inesperado, havíamos realizado 35 entrevistas válidas, sendo 18 participantes (grupo do experimento) e 17 não-participantes (grupo de controle). Ainda tentamos realizar “lá embaixo” algumas entrevistas faltantes, mas em vão: as crianças / adolescentes contactados para comparecer à Quadra da Escola de Samba e/à sede do Projeto CAMP, não o fizeram.

Um derradeiro contato que ainda tivemos com a comunidade da Mangueira depois daquele incidente, e por sinal muito interessante e esclarecedor, foi no campão da Bandeirante, que fica embaixo, ao pé do Morro. Já que não podíamos mais subir o Morro, fizemos questão de ir ao campão pois, ao longo das entrevistas, percebemos que muitas crianças / adolescentes, que já haviam participado do Projeto Olímpico, agora estavam preferindo freqüentar os treinos de futebol realizados no tal campão. E por quê? Sobre isto, comentaremos na subseção seguinte.

Eram 14 hs da tarde do dia 31 de maio. Já havíamos entrevistado os treinadores do campão, o Paulinho e o Marquinho; e conversávamos com os garotos, reunidos em círculo, sentados no chão.... De repente, começou um tiroteio muito forte entre polícia e bandido bem em cima no Morro, como em um filme de guerra. Todos correram para se esconder, fugindo de bala perdida. E, foi dessa maneira estranha, para uma cidade dita civilizada como é o Rio de Janeiro, que demos por encerrada a nossa pesquisa de campo na Mangueira!

Essa descrição de quão conturbada foi a coleta dos dados na Mangueira serve para ilustrar que avaliar a eficácia pública da ação social das empresas é uma tarefa bastante diferente de praticamente todas as demais realizadas em âmbito empresarial. Aqui, dificilmente se consegue seguir estritamente o planejamento feito, e o rítmo da avaliação tem que se adaptar ao rítmo do local onde a ação social está sendo realizada. Ou seja, a não

previsibilidade das relações sociais é um traço típico desse ambiente de pesquisa, novo para a realidade empresarial.