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Passemos agora aos resultados de impacto encontrados a partir das falas dos entrevistados. Antes, porém, devemos comentar sobre a nova versão do modelo de inferência causal a que chegamos, após a coleta e análise dos dados.

Assim, ao ser levado a campo, o modelo inicial de inferência causal, que havíamos proposto na subseção III.3.2, sofreu algumas alterações no que se refere à especificação das variáveis dependentes. As variáveis Y3 (freqüência à escola) e Y4 (rendimento escolar) fundiram-se na variável Y’3 (escola), pois percebemos, pelo relato dos entrevistados, que havia uma correlação muito alta nas variações de desempenho entre aquelas duas variáveis. A variável Y5 (educação complementar) sofreu apenas uma alteração em sua denominação, para “capacitação para o mercado de trabalho”, sem alteração de sentido - a nova denominação traduz melhor o significado atribuído a ela durante as entrevistas. Já a variável Y9 (construção da cidadania / direito à educação respeitado) foi eliminada do modelo, pois percebemos que não houve um entendimento razoável da questão pela maioria dos entrevistados e/ou este não era um tema relevante75 para eles naquele momento. A sensação que tínhamos era a de que eles elaboravam as respostas para atender àquela indagação. Também a variável Y10 (criminalidade) foi eliminada porque este não era um aspecto, percebido pelos entrevistados, como sendo um efeito direto dos projetos em suas vidas.

Ademais, tão logo iniciamos a pesquisa de campo, começamos a perceber que as mudanças nas variáveis dependentes (ou seja, nas condições de vida dos entrevistados) eram atribuídas, em grande medida, às “características pessoais” dos respondentes, tido como “fator confundidor” e sobre o qual não tivemos controle ao compor a amostra.

Porém, mesmo sabendo que se trata de “fator confundidor” inerente ao viés de seleção dos casos de 1ª ordem, no decorrer das entrevistas ao percebermos a sua relevância para a

metodologia de avaliação.

75 Como orienta Babbie (2001: p.192), na construção dos questionários, “as perguntas devem ser relevantes

para a maioria dos respondentes. Quando se pede atitudes sobre um tema sobre o qual poucos pensam ou se importam, os resultados têm pouca possibilidade de serem úteis. Ademais, os respondentes podem expressar atitudes mesmo nunca tendo pensado sobre o assunto, e (o analista) corre o risco de se equivocar”.

interpretação dos resultados, decidimos sistematizar a posteriori os resultados para “características pessoais”. Pois, além de influir nas variáveis dependentes do modelo, vimos que este constructo guardava estreita relação com a variável explicativa causal X1 (participação nos projetos sociais da Xerox). Em outras palavras, este fator mostrou-se muito relevante e não poderíamos deixá-lo apenas na condição de “fator confundidor”. Procuramos, pois, sistematizar este constructo valendo-se da nossa percepção a partir das entrevistas, e procurar entender sobretudo a sua relação com a variável causal X1, além de auxiliar na interpretação dos resultados encontrados nos Y’i(s).

Assim, podemos dizer que, em nossa versão redefinida do modelo, o constructo “características pessoais” foi considerado como fator explicativo, porém não fator de controle. Diga-se, de passagem, este não é um procedimento muito usual, o de trazer o “fator confundidor” para dentro do modelo de causalidade.

Mas, afinal, o que estamos entendendo aqui por “características pessoais”?

Por “características pessoais” entendemos as atitudes do próprio indivíduo (características individuais) e de sua família (características da família), capazes de influenciar em seu desenvolvimento pessoal. Para representar essa noção das características individuais adotamos aqui a variável X5, do tipo dummy, como sendo a atitude do indivíduo, se pró-ativa ou passiva, no que se refere ao seu desenvolvimento pessoal. Vimos que existe uma correlação muito grande entre esta variável e a variável, também aqui do tipo dummy, “adequação escolar”, definida no modelo como a adequação (ou não) idade / série do respondente (ver NR 1, do quadro 24). Mas, como não conseguimos caracterizar X5 para todos os entrevistados, adotaremos também no modelo a variável “adequação escolar”, denominada como X5.1, de modo a auxiliar na interpretação dos resultados do modelo - X5.1 cumpre aqui o papel de variável coadjuvante no entendimento das caracterísitcas individuais (X5)76.

A noção relacionada às características da família foi aqui operacionalizada na variável X6, também do tipo dummy, como sendo a atitude da família de estímulo à participação nos referidos projetos sociais da Xerox e/ou em outros projetos de desenvolvimento pessoal.

76 Importante distinguir X5.1 (adequação idade/série) da variável dependente Y’3 (escola). X5.1 é uma variável de estoque (apurada no momento da realização da entrevista) e ajuda a caracterizar o entrevistado. Já Y’3 é uma variável de fluxo e está associada à percepção de desempenho na escola do entrevistado, durante apenas o período considerado.

Ratificando a importância dessas duas variáveis (X5 e X6) na explicação de fenômenos sociais, também Silva (2003), ao analisar a caminhada de jovens pobres da comunidade da Maré (RJ) - por que uns conseguem chegar à universidade, e outros não? – concluiu pela importância das características individuais (que ele chamou por características singulares, incluindo aí “talento” e “inteligência institucional”), das características da família, além das inter-relações entre as várias redes sociais (mundo da escola, mundo do trabalho, mundo da rua) com as quais os jovens vão tendo contato. Diz ele,

A compreensão da permanência escolar decorre da dinâmica estabelecida entre as

características singulares do agente e as redes sociais nas quais ele se insere. ... Logo, tem

mais significado para a permanência escolar, dentre outras coisas, a posição ocupada pelo agente nos campos escolar e familiar. Essa posição é fruto de uma série de variáveis, que vão de seu carisma até sua capacidade de jogar com as normas disciplinares, assim como as notas conseguidas nas disciplinas escolares.

De qualquer forma, não basta os pais definirem uma estratégia educativa centrada na permanência do filho (na escola). ... O filho que estiver mais voltado para os mecanismos de socialização do “mundo da rua” e/ou do campo profissional, e buscando ser aprovado ou conquistar neles uma posição superior, tenderá a ter um menor interesse em atuar no campo escolar. ... Quando esse tipo de situação ocorre em uma rede familiar onde a permanência na escola não é uma estratégia central, o jovem sairá da escola mais cedo. Logo, é possível considerar que a configuração familiar é um forte condicionante para o desempenho nos primeiros períodos escolares. As redes sociais priorizadas pelos estudantes em períodos escolares mais avançados, no entanto, ocupam os papéis centrais no desdobramento de suas trajetórias escolares. (Silva, 2003: p. 140; 144)

Feitos estes comentários, apresentamos a versão “redefinida” do nosso modelo de inferência causal – quadro 24, cuja proposta inicial havia sido apresentada no quadro 21.

Quadro 24 – Modelo de inferência causal aplicado à avaliação da eficácia pública dos projetos sociais da Xerox na Mangueira – VERSÃO REDEFINIDA

E(Y’1, Y’2, ... Y’7) = f (ββββ*1X1 , ββββ*2X2 , ββββ*3X3 ,ββββ*4X4 ) E(X1) = f (αααα5X5 , αααα5.1X5.1 , αααα6X6)

onde....

Variáveis dependentes:

Y’1 = saúde (definida como grau de bem-estar físico)

Y’2 = lazer (definido como grau de satisfação com a ocupação do tempo livre) Y’3 = escola (definido como desempenho na escola em termos de freqüência e rendimento)

Y’4 = capacitação para o mercado de trabalho (definida como a sensação de estar sendo capacitado para o mercado de trabalho)

Y’5 = inserção no mercado de trabalho (definida como a situação do entrevistado de estar trabalhando e satisfeito com o seu trabalho)

Y’6 = auto-estima (definida como o grau de confiança em si mesmo)

Y’7 = sociabilidade (definida como o grau de relacionamento com as outras pessoas)

Variável explicativa-chave (ou variável causal):

X1 = Condição de participação nos projetos sociais da Xerox (Projeto Olímpico ou CAMP)

Categorias:

! Participante ! Não-participante

β*1 = Efeito causal médio de X1 em respectivamente Y1, ..., Y7 onde * = 1, 2, ..., 7

Variáveis explicativas de controle: X2 = Idade

X3 = Sexo

X4 = local de residência como proxy da situação sócio-econômica

Variáveis explicativas:

X5 = Características individuais: atitude pró-ativa ou passiva? (Ativa ou Passiva) X5.1 = Adequação escolar, idade / série (Adequado ou Não-Adequado) (1)

X6 = Características da família: atitude de estímulo ou não à participação nos projetos (Olímpico ou CAMP) e/ou em outros projetos de desenvolvimento pessoal? (Estímulo ou Não-Estímulo)

Fonte: Elaboração própria, a partir da pesquisa de campo.

(1) Por adeqüação idade / série na escola, consideramos aqui quando o entrevistado está na faixa de escolaridade compreendida no limite entre 1 ano a menos e 1 ano a mais em relação à seguinte tabela idade / série:

Ensino Fundamental: 1ªsérie: 7 anos; 2ªsérie: 8 anos; 3ªsérie: 9 anos; 4ªsérie: 10 anos; 5ªsérie: 11 anos; 6ªsérie: 12 anos; 7ªsérie: 13 anos; 8ªsérie: 14 anos.

Ensino Médio: 1ªsérie: 15 anos; 2ª série: 16 anos; 3ª série: 17 anos.

Em nosso modelo revisto de avaliação de impacto, as variáveis explicativas de controle X2, X3 e X4, definidas a priori da coleta dos dados, tiveram papel preponderante para auxiliar na montagem dos grupos de comparação e, dessa forma, procurar garantir o requisito da “unidade homogênea de análise”. Já as variáveis X5 e X6, que compõem aqui o

constructo “características pessoais” e foram definidas à posteriori, têm importante papel para (1) explicar a participação ou a não-participação nos projetos sociais em questão; e (2) auxiliar no entendimento das mudanças observadas nas variáveis dependentes do modelo.

No anexo 3, encontram-se sistematizados, a partir das falas dos entrevistados, os aspectos relacionados à condição de ser participante, ou não, dos projetos sociais (variável causal X1); às características pessoais dos respondentes (variáveis X5, X5.1 e X6) e às mudanças ocorridas em suas vidas nos quesitos analisados (Y’1 ... Y’7). Importante esclarecer que, sobretudo no que se refere às mudanças ocorridas (variações nos Y’s), estão especificadas apenas aquelas mudanças (ou não-mudanças) a que cada entrevistado atribuiu importância durante sua fala. Ou seja, não foi feito aqui um relatório exaustivo para cada um dos sete quesitos considerados, pois, em relação a alguns quesitos, percebíamos claramente que o entrevistado respondia por responder.

A seguir, abordaremos as três questões-chave relacionadas à avaliação da eficácia pública destes projetos na comunidade da Mangueira. A primeira questão é: o que determina a participação nos projetos sociais em questão? ou, dito em outras palavras, quem é o não- participante, de certa forma excluído destes projetos? A segunda questão é: quais foram os efeitos dominantes destes projetos sobre seus participantes vis-à-vis aos não-participantes? E a terceira questão diz respeito às propostas para ampliar o impacto destes projetos na comunidade.