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Sobre as confissões: segundo Foucault (1988, p.21-63) não as encontraremos nem na Antiguidade grega e nem na helenística, muito menos na cultura romana. Ainda que exista o imperativo moral aristotélico de “dizer a verdade aos amigos”, tal procedimento não

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As referências de Agostinho aos astros são inúmeras em sua obra. Ele de fato praticou Astrologia por muito tempo, entre os dezenove e os vinte e oito anos, mas deixou de praticá-la por não conseguir explicar o fato de duas pessoas nascidas no mesmo momento terem destinos tão distintos (um ser rico e o outro, escravo). Muda, então, sua perspectiva: os astros servem, de fato, à glória divina. Mas os astrólogos, por mais que tentem, não conseguem compreender a mente de Deus através das posições dos planetas e a Astrologia é, portanto, falsa. Ver: capítulo VI do Livro Sétimo das “Confissões”.

evoca nem a ideia de salvação, nem a de saúde física ou espiritual, mas sim do bom estabelecimento da “polis”. Enquanto na Antiguidade a verdade em questão concerne aos “discursos verdadeiros”, no ato confessional o sujeito que enuncia o discurso deve ser o referente do enunciado. Todavia, na história cristã do século II ao V, evidencia-se um ato confessional não-verbal, uma constrição ritual realizada por intermédio de sacrifícios auto- impostos. Do século VI em diante, a confissão é incorporada aos atos penitenciais, na forma de um modelo que se inclina para o laico, tendo por objetivo o cumprimento de penalidades restauradoras. É no século XIII que o IV Concílio de Latrão (1215) estabelece a obrigação confessional91, ou seja, a prática recorrente do discurso sobre si como fundamental, a ponto

de tais procedimentos se tornarem comuns, cotidianos, com o sacerdote instando os fiéis a um exaustivo derramamento de palavras.

É curioso notar que é a partir do século XVI – justamente quando as “anomalias” passam a invadir o antes perfeito e ordenado espaço celeste – que se verifica um processo de intensificação ainda maior dos procedimentos confessionais nos quais os mínimos aspectos da vida individual são escarafunchados. Esta coincidência significaria mera correlação ou haveria a crença num processo de causação, onde os erros humanos estariam maculando a própria abóbada celeste? Aposto fortemente na existência da crença nesta causação de via inversa, esta “mácula” impetrada ao Céu pelas ações humanas.

Para sustentar minha hipótese, cabe ressaltar que na episteme renascentista não são apenas as esferas celestes que afetam a humanidade no mundo sublunar. O contrário faz parte desta dinâmica: o homem afeta o Céu. Ainda que Foucault (2007, p.27-28) nos descreva que (negritos meus)

A terra sombria é o espelho do céu disseminado, mas, nesta contenda, os dois rivais não têm nem o mesmo valor nem a mesma dignidade. As

luzes da erva, sem violência, reproduzem a forma pura do céu: ‘As estrelas’, diz Crollius, ‘são a matriz de todas as ervas, e cada estrela do céu não é mais que a prefiguração espiritual de uma erva tal como a representa e, assim como cada erva ou planta é uma estrela terrestre olhando o céu, assim também cada estrela é uma planta celeste em forma espiritual, a qual só pela matéria é diferentes das terrestres...

, há também o efeito reverso decorrente da ação humana: o mundo celeste se vê afetado por agentes terrestres. No texto a seguir (negritos meus), Foucault (2007, p.28) nos expõe o poder do homem:

Mas pode também ocorrer que a contenda permaneça aberta e que o calmo espelho não reflita mais que a imagem dos ‘dois soldados irritados’. A

similitude torna-se então o combate de uma forma contra outra – ou

melhor, de uma mesma forma separada de si pelo peso da matéria ou pela

distância dos lugares. O homem de Paracelso92 é, como o firmamento,

‘constelado de astros’; mas não está a ele ligado como ‘o ladrão às galeras, o assassino ao suplício da roda, o peixe ao pescador, a caça ao caçador’.

Pertence ao firmamento do homem ser ‘livre e poderoso’, ‘não obedecer a ordem alguma’, ‘não ser regido por nenhuma das outras criaturas’. Seu céu interior pode ser autônomo e repousar somente em si

mesmo, sob a condição, porém, de que, por sua sabedoria, que é também saber, ele se torne semelhante à ordem do mundo, a retome em si e faça assim equilibrar no seu firmamento interno aquele onde cintilam as estrelas visíveis.

Ou seja: em decorrência do princípio emulador (“aemulatio”), não apenas o Céu afeta a Terra, mas também o homem age sobre as esferas celestes. Eis a chave fundamental da magia, tão presente nos chamados filósofos herméticos do final da Idade Média e do Renascimento, sendo emblemático o exemplo de Cornelius Agrippa de Nettesheim (1486-1535), filósofo e alquimista alemão. Para tais filósofos do século XVI, o homem é uma síntese viva da natureza, possuindo em si todos os elementos da criação: os quatro elementos, aspectos animais, vegetais e angélicos. Força viva de co-criação do Universo junto à inteligência divina. Os filósofos herméticos deixam claro e os católicos levam a sério: não apenas é possível chegar à natureza humana a partir dos estudos celestes (Astrologia), como também seria possível alcançar o poder celeste a partir da vontade humana (magia). Agrippa (apud NICOLA, 2005, p.181-182) afirma, no seguinte texto (negritos meus):

O homem é dito microcosmo, isto é, um mundo menor, porque tem em si tudo o que está contido no mundo maior: de fato, nele pode-se identificar o corpo que nasce da mistura dos elementos, o espírito celeste, a vida vegetativa das plantas, a sensibilidade dos animais e a razão, a mente angélica e a imagem de Deus. [...] De fato, o homem está em relação com todas as estrelas e os planetas. Nele estão presentes a estabilidade e a imutabilidade de intenções de Saturno; a clemência, a justiça e a realeza de Júpiter; a constância e a firmeza de ânimo de Marte; do Sol, o lume, a razão, o juízo que distingue o justo do injusto, a luz que purifica as trevas da ignorância; de Vênus, o amor e o desejo de crescimento e da própria multiplicação; de Mercúrio, a inteligência, a acuidade de engenho, o discurso racional, a pronta vivacidade dos sentidos; da Lua, o voltar-se para as coisas terrenas para conservar a vida e a capacidade de desenvolver o crescimento em si e nas outras coisas... Por isso o homem é dito mundo menor, porque é o vínculo, o nó e a perfeição extrema do mundo maior... E,

mesmo sendo dito mundo menor, o inteiro mundo maior e todos os mundos particulares estão obrigados a servi-lo.

O ente humano, portanto, não é mero receptáculo passivo das influências celestes, não é como as outras criaturas da Terra, mas é também capaz de afetar o Céu ao seu redor93. Apesar de tal pensamento ser mais evidente nos filósofos herméticos cristãos do

92 Pseudônimo de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541), médico, físico,

século XVI94, já há indícios desta capacidade própria e única do homem para interferir no

Céu – ainda que minimamente - no “Tetrabiblos” ptolomaico, onde Ptolomeu (1999, p.2-9) afirma: o homem sábio, por intermédio de seu conhecimento, dominará os astros. Citando mais uma vez Foucault (2007, p.27), sobre a emulação (negritos meus):

Por esta relação de emulação, as coisas podem se imitar de uma extremidade à outra do universo sem encadeamento nem proximidade: por sua reduplicação em espelho, o mundo abole a distância que lhe é própria; triunfa assim sobre o lugar que é dado a cada coisa. Desses reflexos que

percorrem o espaço, quais são os primeiros? Onde a realidade, onde a imagem projetada? Frequentemente não é possível dizê-lo, pois a emulação é uma espécie de geminação natural das coisas; nasce de

uma dobra do ser, cujos dois lados imediatamente se defrontam. Paracelso

compara essa duplicação fundamental do mundo à imagem de dois gêmeos ‘que se assemelham perfeitamente, sem que seja possível a ninguém dizer qual deles trouxe ao outro sua similitude.’

Não é à toa o crescente horror da Igreja Católica ao longo dos séculos contra as ditas artes ocultas e o hermetismo. Conforme é possível verificar na bula intitulada “Summis

Desiderantes Affectibus” de 5 de dezembro de 1484, promulgada pelo Papa Inocêncio VIII

(1432-1492), a Igreja não considerava tais crenças absurdas, ao contrário, as temia: em decorrência da manipulação mágica, causam-se transtornos na terra. Num século marcado pela reinvenção da esfera celeste como um lugar onde também atuam o devir e a corrupção, algumas considerações são inevitáveis. Dentre elas, as mais graves: estaríamos contaminando o Céu com nossa corrupção, ou mesmo utilizando o poder das estrelas com finalidades corruptas? Estaria o Céu, por emulação, refletindo a desordem terrestre? Corrigir o humano possibilitaria a restauração da ordem celeste?95

Tais preocupações éticas despontam a partir do Papa Inocêncio VIII e se intensificam gravemente ao longo do século XVI, tendo como base uma famosa publicação cuja autorização foi falsamente atribuída à Igreja Católica. Refiro-me ao “Malleus

Malleficarum”, publicado na Alemanha em 1487 e escrito por dois padres dominicanos:

Heinrich Kramer (1430-1505) e Jacob Sprenger (1436-1495). Este manual, repleto de referências a Aristóteles e Agostinho de Hipona, tinha como principal pretensão ser capaz de resolver os problemas com a bruxaria apontados pelo Papa Inocêncio VIII em sua “Summis Desiderantes Affectibus”. O “Malleus”, todavia, não apenas foi recusado pela

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Um exemplo extremo desta crença é a antiga cultura maia, que também possuía seu sistema astrológico próprio. Os sacrifícios rituais de outros seres humanos recriavam uma cosmogonia, e pretendiam garantir o nascimento do próprio Sol. Havia a crença de que, sem determinados procedimentos mágicos rituais, a ordem celeste poderia simplesmente se esfacelar. O Céu dependia do homem tanto quanto o homem dependia do Céu. 94

Firmicus Maternus, no princípio da Era Cristã, enfatiza de fato a absoluta e inescapável soberania das esferas celestes sobre a natureza humana (sem vice-versa).

95 Ressalte-se que, para os astrólogos antigos, fundamentalmente religiosos, os planetas não são venerados como deuses. Os planetas não são divindades. O homem, criado à semelhança do Deus Único, pode afetar a criação – o que envolveria, também, os astros no Céu, que são tão criaturas de Deus quanto o homem.

Faculdade de Teologia da Universidade de Colônia, como foi acusado de “obra antiética” por esta mesma instituição. Kramer, por sua vez, inseriu uma falsa nota de apoio do Papa Inocêncio VIII ao “Malleus”, conferindo assim popularidade ao texto, o que proporcionou treze edições do livro entre 1487 e 1520 – um verdadeiro campeão de vendas em sua época. O “Malleus” se estabeleceu como o mais consultado livro de combate à bruxaria até a metade do século XVII96, tendo sido adotado tanto por sacerdotes católicos de toda a

Europa, quanto por protestantes. Ainda que jamais tenha sido uma obra oficialmente adotada pela Igreja Católica e pela Santa Inquisição, é dito que o “Malleus” foi efetivamente o grande manual normativo inquisitorial informal ao longo de dois séculos. Ao investigarmos a primeira parte desta obra, nos depararemos com algumas crenças significativas justificadas a partir tanto da obra aristotélica quanto da agostiniana. Temos, por exemplo, a clara afirmação da crença na ação dos astros sobre a natureza humana (KRAMER; SPRENGER, 1928, p.1): “Mas ainda toda a alteração que se produz no corpo humano – por exemplo, o estado da saúde ou da doença – pode ser atribuído a causas naturais, conforme demonstrou Aristóteles em seu sétimo livro da Física. E a maior destas causas é a influência das estrelas.”97

Destaco também a convicção de que Deus se vinga das manipulações mágico- astrológicas intencionais, gerando caos e desgraça na esfera terrestre (negritos meus). Assim dizem Kramer e Sprenger (1928, p.19-20):

...consideremos apenas a astrologia. Nesta não há pacto, e consequentemente não há invocação, salvo quando exista certo tipo de invocação tácita, pois as figuras dos demônios e seus nomes aparecem às vezes em cartas astrológicas. E uma vez mais, os signos necromânticos são escritos sob a influência de determinados astros, para compensar a influência e oposições de outros corpos celestes e imprimi-los, pois os signos e caracteres dessa classe encontram-se com frequência gravados em anéis, joias ou algum outro metal precioso, mas os signos mágicos são gravados sem referência alguma à influência dos astros, e com frequência em qualquer substância, inclusive em substâncias sórdidas e vis que, quando enterradas em determinados locais, provocam danos, prejuízos e doenças. Porém estamos analisando os mapas que são traçados em relação aos astros. E estes diagramas e imagens necromânticas não possuem relação alguma com os corpos celestes. Portanto, sua consideração não tem nada a ver com este estudo. Mas muitas destas imagens utilizadas em ritos supersticiosos não possuem eficácia, isto é, no que se refere a sua fabricação, ainda que seja possível que o material do qual são compostas possuam determinados poderes, contudo, isso não se deve ao fato, de que possam ser fabricadas sob a influência de alguns astros. Porém muitos afirmam que de todo modo é ilegal utilizar, inclusive,

96 Uma pausa no que tange às preocupações com a bruxaria se deu entre 1520 e 1560, sobretudo no contexto germânico, em decorrência da influência de Paracelso e Agrippa, cuja obra desvinculava a magia do satanismo e demonstrava uma obediência das operações mágicas dos talismãs às leis naturais.

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Tradução da versão inglesa: “Moreover, every alteration that takes place in a human body – for example, a

state of health or a state of sickness – can be brought down to a question of natural causes, as Aristotles has shown in his 7th book of Physics.”

imagens como essas. Mas as imagens criadas pelas bruxas não possuem poderes naturais, muito menos o material do qual são formadas; mas

modelam essas imagens por ordem do demônio, para que ao fazê-lo possam, por assim dizer, burlar a obra do Criador e provocar Sua cólera, de modo que, em castigo às maldades delas, Ele permita que muitas pragas caiam sobre a terra. Para piorar sua culpa, satisfazem-se

em modelar tais imagens nas estações mais solenes do ano.98

Combater a bruxaria e corrigir os praticantes de magias astrologicamente orientadas seria, portanto, um verdadeiro imperativo moral. Uma vez que a vingança divina parece ser profusa e generalizada, se as pragas recaem sobre a terra, todos sofrem: culpados e inocentes. A correção se converte em ato de sobrevivência e o temor das pragas divinas já se evidenciava desde o século XIV, em decorrência do assolamento da Europa pela peste negra.