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5.2 Part 2

manuais de diagnóstico, uma espécie de pré-genética onde a perspectiva é macrocósmica e os astros cumprem o papel de genes e moléculas, em lugar algum destas obras há pretensões ou indicações de tratamento ou terapias. Ainda que capítulos inteiros sejam dedicados à diagnose de “monstros” e indivíduos que preferem o mesmo sexo, não há referência a mecanismos de correção de tais seres. Trata-se, conforme abordei nos capítulos precedentes, de uma ética da resignação, coerente com o pensamento de que o Céu, o “primum mobile” aristotélico, concedendo-nos sentidos que antecedem nossa existência, possui uma ordem própria. Mesmo que tal ordem se configure como impossível de ser inteiramente compreendida por nossa limitada consciência humana, seria possível explicá-la a partir de posicionamentos planetários. Subjaz a esta ética a ideia de que tudo o que existe é bom, ainda que este bem nos escape ao entendimento e, exatamente por isso, não há o que “tratar”. Inevitável, portanto, lembrar de um dos filósofos que mais discutiu esta questão: Agostinho de Hipona (354-430), cuja obra “Cidade de Deus” (426) foi alvo dos

estudos de Foucault89, principalmente no que tange às questões da carnalidade e do ato

sexual. Uma das teses fundamentais de Agostinho (2005, p.155-158) é bem pertinente à episteme renascentista: a inexistência do Mal. Diante de tal afirmação, é comum que contestem o filósofo a partir da premissa de que, na prática, males variados são repetidamente verificados. Agostinho foi – por um bom tempo de sua vida – um maniqueu. Compreendia a existência como cindida entre duas forças igualmente poderosas: o Bem e o Mal não como meros atos, mas como essências metafísicas supremas ou, conforme criam os maniqueus, duas forças antagônicas divinas: Ahriman (o Mal) e Ahura-Mazda (o Bem). Agostinho se afasta do maniqueísmo ao compreender que constitui falha lógica considerar a existência de duas entidades todo-poderosas, uma benéfica e outra maléfica. Se Deus existe e é perfeito, ele só pode ser o Sumo Bem. E o mal, seu contrário, é tudo o que não existe. Agostinho embasa as doutrinas da fé católica com sua filosofia, mas tal filosofia não constitui consenso nem entre os católicos, tampouco entre algumas vertentes cristãs que insistem na existência de um Mal ontológico. Agostinho (2005, p.158), contudo, não diz que não ocorrem coisas más. O que ele diz é que o Mal não existe como substância ou, melhor dizendo, como entidade. Agostinho discorre profundamente a este respeito no Livro Sétimo de suas “Confissões”. Primeiro, objetando contra o maniqueísmo, expondo a contradição fundamental desta seita: se existe um Bem Supremo incorruptível, todas as outras proposições sobre um Mal Supremo são falsas. Se existe um Bem Supremo de onde emanam todas as coisas, não pode existir nada criado por Deus que seja essencialmente ou estruturalmente maligno. Assim diz Agostinho (2005, p.156):

Vi pois, e foi para mim evidente, que tu eras o autor de todos os bens, e que não há em absoluto substância alguma que não tenha sido criada por ti. E como não as fizestes todas iguais, todas as coisas existem, porque cada uma por si é boa, e todas juntas muito boas, porque nosso Deus fez todas as coisas muito boas.

Note-se, contudo, que a criação de todas as coisas como “muito boas” não significa que elas sejam “sumamente boas” pois, neste caso, seriam incorruptíveis e não poderiam existir, pois seriam Deus. Dizer que algo é “o mal em si” constitui contradição, pois o mal absoluto é – por lógica - inexistente. “...ser privado de todo o bem é o nada absoluto”, afirma Agostinho (2005, p.155). No capítulo XIII do Livro Sétimo, fica evidente a existência de uma ordem superior criadora e reguladora de todas as coisas e, ainda que nem tudo seja por nós humanos apreciado, tudo faz sentido e tem sua razão de ser. No trecho abaixo (negritos meus), eis o que nos ensina Agostinho (2005, p.156):

E para ti, Senhor, não existe absolutamente o mal; e nem para a universalidade de tua criação, porque nada existe fora dela, capaz de

romper ou de corromper a ordem que tu lhe impuseste. Todavia, em

algumas de suas partes, determinados elementos não se harmonizam com outros, e estes são considerados maus. Mas, como esses mesmos elementos combinam com outros, são da mesma forma bons, e bons em si mesmos. E mesmo esses elementos que não concordam entre si se harmonizam com a parte inferior das criaturas que chamamos terra, com seu céu cheio de nuvens e de vento, como lhe é conveniente. Longe de

mim dizer: Oxalá não existissem essas coisas! – Embora, considerando-as separadamente, eu as desejasse melhores, somente o fato de existirem deveria bastar para eu te louvar porque o proclamam os dragões da terra e todos os abismos; o fogo, o granizo, a

neve, o vento da tempestade, que executam tuas ordens; os montes e todas as colinas; as árvores frutíferas e todos os cedros; as feras e todos os gados; os répteis e todas as aves; os reis da terra e todos os povos; os príncipes e todos os juízes da terra, os jovens e as virgens, os anciões e as crianças: todos louvam teu nome. Mas como também do alto dos céus és louvado, que seja louvado o nosso Deus, lá no alto por todos os teus anjos, todas as potestades, o sol e a lua, todas as estrelas90 e a luz, os céus dos céus, e as águas que estão sobre os céus glorificam teu nome; eu já não desejava nada melhor, porque, considerando o todo, os elementos superiores me pareciam sem dúvida melhores que os inferiores; mas um julgamento mais sadio me fazia considerar o todo melhor que os elementos superiores tomados à parte.

Ainda que após a conversão ao cristianismo Agostinho tivesse discordâncias em relação aos astrólogos, guardava com estes pelo menos uma afinidade: a crença de que todas as coisas existentes são o que são por um desígnio divino. Se este desígnio pode ou não ser vislumbrado a partir do estudo dos movimentos celestes, esta é uma questão menor. O importante, aqui, é compreender a ética da resignação a partir de seu pressuposto maior: tudo o que existe foi criado por uma inteligência ordenadora e, portanto, tudo faz sentido. Não há por que “corrigir” o que se configura como reflexo de uma harmonia macrocósmica. Curioso, neste sentido, é o papel da Igreja Católica quando diante das coisas que ela mesma passaria a tentar corrigir com tanta força a partir do século XVI. Num primeiro momento, a Igreja se limita a estimular o autoexame; em seguida, surge a confissão e tal procedimento é tido como, por si mesmo, suficiente; as práticas correcionais são relativamente recentes na história do cristianismo, conforme procurarei expor mais adiante.