5. Conclusions and discussion
5.2 Discussion
A importância da Primeira Guerra Mundial quanto à Industrialização ‚ relativizada ou acentuada pelos diferentes autores que estudaram a Questão. Para alguns, tais como Dean (1971), Villela & Suzigan (1973) e Suzigan (1986), a importância da Primeira Guerra Mundial
foi bastante reduzida. Para outros, como Versiani & Versiani (1977), Versiani (1987), Silva (1976) e Cano (1977), a Primeira Guerra Mundial marca momento decisivo na industrialização do Brasil.
A controvérsia sobre os efeitos da Primeira Guerra Mundial surge a partir da revisão efetuada por Dean (1976) sobre a interpretação cepalina de que a guerra foi um evento inteiramente positivo para a indústria interna de transformação, estimulando o primeiro e substancial surto e industrialização substitutiva de importações66.
A preocupação central de Dean, além de mostrar que a guerra, ao interromper os fluxos normais de comércio exterior, interrompeu um processo em andamento de desenvolvimento industrial estimulado pela expansão das exportações, era a de refutar a "teoria dos choques adversos"67. Ou seja, pretendia mostrar que a industrialização brasileira não pode ser vista como resultante das crises do comércio exterior ou de guerras, as quais reduziam a quantidade de divisas para a compra de mercadorias importadas.
O argumento de Dean mostra que não só a Primeira Guerra Mundial, mas também as demais crises externas que repercutiram sobre a economia cafeeira, inclusive a Grande Depressão, tiveram efeito negativo sobre o crescimento industrial. Contrariamente à teoria dos choques adversos, Dean argumenta que a indústria vai bem quando o café vai bem. O autor sugere que o aumento de produção industrial durante a guerra baseou-se na existência prévia de
66 Para um estudo mais detalhado das controvérsias a respeito dos efeitos da Primeira Guerra Mundial quanto à
industrialização brasileira, veja-se Suzigan (1986).
67 Indicações para a compreensão da "teoria dos choques adversos" como uma das interpretações correntes sobre a
origem do desenvolvimento industrial brasileiro podem ser encontradas em Suzigan (1986, p. 23-8). No entanto, tendo em vista situar o argumento de Dean sobre o assunto, cabe, aqui, uma referência sobre a existência de duas versões do argumento mais geral da "teoria dos choques adversos": a versão extrema e a versão de Furtado (1968) e Tavares (1972). A versão extrema do argumento dos choques adversos, originada nos estudos dos primeiros escritores e observadores contemporâneos da economia brasileira (dentre os quais destaca-se Simonsen, 1973, em seu trabalho escrito em 1939), afirma que a indústria interna de transformação reagiu positivamente às dificuldades impostas às importações pela Primeira Guerra Mundial. Posteriormente, a partir do desenvolvimento da "doutrina da CEPAL", a chamada versão extrema dos choques adversos ganhou maior amplitude com incorporação à análise das transformações industriais a partir dos diversos "choques adversos", pelos quais passaram as economias latino- americanas (crises, Primeira Guerra Mundial, depressão da década de 1930, Segunda Guerra Mundial). Em ambos os casos a ocorrência de um choque adverso afetando o setor externo da economia provoca a elevação dos preços relativos das importações e/ou supäe dificuldades à importação. Em conseqüência, a procura interna, sustentada por políticas econômicas expansionistas, desloca-se para as atividades internas substituidoras de importações.
A versão de Furtado (1968) e Tavares (1972) se concretiza na análise do desenvolvimento industrial brasileiro. O desenvolvimento industrial ocorrido antes de 30 é considerado um crescimento industrial induzido pelo crescimento da renda resultante do setor exportador. O desenvolvimento industrial que ocorreu sobretudo a partir da década de 1930 é caracterizado como industrialização substitutiva de importações, estimulada pelos choques das crises do café, da Grande Depressão e pelas políticas econômicas adotadas para combater a crise. Posteriormente Maria da Conceição Tavares (1974) reviu essa interpretação sobre o desenvolvimento industrial brasileiro.
capacidade produtiva e que as indústrias que aumentaram sua produção foram aquelas que já estavam exportando (Dean, 1972).
Versiani & Versiani (1977), estudando o desenvolvimento industrial na década de 1920 a partir da análise da indústria têxtil, afirmam que a guerra foi importante para o desenvolvimento desse setor, aumentando a produção e os lucros. A ampliação da capacidade produtiva na indústria têxtil na década de 1920 teria decorrido dos estímulos surgidos na época da guerra.
Silva (1976) e Cano (1977) são autores que também reconhecem a importância da Primeira Guerra Mundial. Na realidade, negam que o enfraquecimento da economia cafeeira durante a guerra tenha afetado a indústria de transformação de São Paulo, argumentando que tanto a produção quanto o investimento industrial aumentaram durante a guerra. Cano, conforme já foi referido no item anterior, calculou um índice de produção industrial para o Estado de São Paulo supondo que a participação da indústria no total do valor adicionado da indústria brasileira tenha aumentado de 27,6% em 1911-1913 para 33% em 1920. Conclui, assim, que, durante a guerra, a produção industrial paulista cresceu a uma taxa mais elevada que a do país como um todo (Cano, 1977: pp. 154-64).
Finalmente, deve ser destacada a contribuição de Suzigan (1986) para o entendimento dos anos da Primeira Guerra no debate sobre o desenvolvimento industrial brasileiro. Para este autor,
a questão relevante para a discussão dos efeitos da guerra sobre a produção industrial não se resume na estimativa de uma taxa de crescimento industrial, mas deve incluir a comparação dessa taxa de crescimento com aquela que prevaleceu no período anterior à guerra (1986, p. 53).
Apoiado em índices de produção industrial estimados por Hadad (1978) que cobrem o período 1900-1947, Suzigan mostra que nos cinco anos anteriores à guerra (1908-1913), a taxa anual de crescimento da produção industrial brasileira caiu de 9,1% para 4,4% nos anos durante a guerra (1913-1918). Além da produção industrial não ter aumentado durante a guerra, em 1914 ocorreu uma forte recessão, que se refletiu sobre o crescimento industrial, podendo-se observar, no ano de 1914, taxa negativa de crescimento (-8,7%). Depois de uma rápida recuperação em 1915, houve aumento real da produção industrial em 1916-1917.
Estudando as tendências da produção industrial nos setores mais importantes (têxtil, chapéus, calçados, couros e peles, bebidas, produtos químicos e alimentares), o autor conclui que a produção industrial nesses setores acompanha a tendência mais geral, ou seja, há uma redução nos anos 1913 e 1914 e uma retomada a partir de 1915 e 1916:
Essa retomada atendeu à demanda interna por bens de consumo que nos anos de pré-guerra ainda era marginalmente satisfeita por importações, bem como a demanda externa por produtos alimentícios e outros produtos industrializados. A partir de 1917 a produção industrial declinou e tornou- se negativa em 1918 em conseqüência da escassez de matérias-primas, insumos e máquinas e equipamentos importados (1986, p. 57).
Do ponto de vista do investimento, o período da Primeira Guerra Mundial também correspondeu a uma drástica redução. Tomando como exemplo, nesse caso, as exportações de máquinas e equipamentos para o Brasil, o autor mostra que, entre 1915 e 1916, as exportações de maquinarias industriais estavam reduzidas a cerca de 12% do nível de 1913 e a cerca de 16% em 1917-1918. Assim,
as dificuldades para importar m quinas e equipamentos e o forte aumento dos preços de importação durante a guerra certamente explicam a queda no investimento, da mesma forma que as dificuldades para importar matérias- primas e outros insumos explicam a redução do ritmo de crescimento da produção industrial naqueles anos. (1986, p. 85).
Dessa forma, de acordo com o entendimento de Suzigan, o impacto da Primeira Guerra Mundial foi de drástica redução do investimento e da produção industriais.
4.1.2. A importância da Crise de 1929 e da Depressão dos anos 30; a questão da década de