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Antes de focar a análise nas alterações do mix produtivo das firmas industriais, é importante apresentar algumas estimativas das diferenças entre as características das firmas MP e SP (bem como MI e SI e MS e SS). Na seção anterior ficou evidenciado que as firmas MP são responsáveis pela maior parte do Valor da Produção (81%). Mesmo com essa relevância, as firmas MP não são homogêneas, possuindo diferenciais em relação às suas características, como destacado por Goldberg et al. (2010). A modelagem proposta por BRS (2010) prevê que firmas mais produtivas produzam uma gama mais ampla de produtos do que as menos produtivas, pois são capazes de obter maiores receitas por produto. Isso possibilitaria que cobrissem os custos fixos mais elevados associados a um leque mais amplo de variedades.

Comparou-se determinadas características das firmas multiproduto (MP), multi-indústria (MI) e multissetor (MS) com aquelas das que produzem, respectivamente, apenas um produto (SP), atuam em apenas uma indústria (SI) e em um setor (SS). As características avaliadas (Zij) ,

para cada empresa i do setor j, são: (logaritmo da) Receita Líquida de Vendas, (logaritmo do) Pessoal Ocupado, Produtividade do Trabalho (calculada como o logaritmo da razão VTI/PO), (logaritmo da) Produtividade Total dos Fatores (PTF) e se a empresa é ou não exportadora (dummy). Para verificar se ser MP, MI ou MS relaciona-se com as característicasZij, estima-se

j i h ji ji D F Z =µ + +ε (1) e testa-se H0:µ=0 e H1:µ≠0.

Nessa equação, h indexa a característica da empresa que pode ser

{

SP MP SI MI SS MS

}

h= , , , , , ; D é uma variável dummy tal que hji Dhji =1 se MS

MI MP

h= , ,ou, e Djih =0 em caso contrário. Fi é o efeito fixo para cada setor61 e εj

representa características aleatórias de cada empresa j. Essas características são independentes entre as empresas avaliadas. Para cada um dos pares de possibilidade de característica da empresa – se SP ou MP, se SI ou MI, se SS ou MS – estima-se uma equação. Os resultados dessa análise são apresentados na TAB. 3.

Quanto à PTF, a diferença entre as firmas de cada tipo é positiva e estatisticamente diferente de zero. Esse resultado corrobora com a própria previsão do modelo de BRS (2010) de que as firmas mais produtivas deveriam produzir um leque maior de produtos já que garantiriam maior receita e, com isso, conseguiriam cobrir custos fixos mais elevados62. As demais características também comportam-se como previsto pela teoria. Comparando com firmas SP, as MP possuem, em média, receita 8% mais elevada, empregam 10% a mais de trabalhadores que são 4% mais produtivos.

Resultados similares são verificados quando confrontadas empresas MI contra SI e MS contra SS. Contrastando as firmas que atuam em apenas uma indústria, as multi-indústria auferem, em média, receita líquida 6% maior, empregam 8% mais trabalhadores que garantem produtividade 3% maior. Quando essas mesmas comparações ocorrem entre empresas que

61 No caso da firma que opera em mais de uma indústria (MI) ou da firma que opera em mais de um setor (MS), manteve-se a dummy de acordo com a CNAE declarada pela empresa na PIA Empresa. Conforme as normas de preenchimento do questionário da pesquisa, a firma deve declarar a CNAE que representa a sua principal atividade.

62

Como destacam os próprios autores, uma possível explicação para a inexistência de diferenciais da PTF entre os tipos de firma considerados é que existem dificuldades de mensuração da produtividade em firmas que produzem em mais de um setor. O modelo prevê que a medida da PTF para as firmas MP pode ser um pouco problemática se os dados de insumos ao nível de firma-produto não estão disponíveis.

atuam em apenas um setor, as discrepâncias favorecem as multissetor nas seguintes magnitudes: 4,4%, 6% e 2%, respectivamente.

TABELA 3 - Relação entre as firmas multiproduto, multi-indústria e multissetor e suas principais características - Brasil, 2005-2009.

Características das firmas MP MI MS

Ln(RLV) 0,08*** 0,06*** 0,04***

Ln(PO) 0,10*** 0,08*** 0,06***

Exportação 0,23*** 0,19*** 0,14***

ln(VTI/PO) 0,04*** 0,03*** 0,02***

Ln(PTF) 0,00 ** 0,00 ** 0,00 **

Nota: Regressões OLS do logaritmo das características das firmas em variável dummy igual a 1 caso a firma seja MP, MI ou MS. Estão incluídas também efeitos fixos para os setores industriais (CNAE a dois dígitos) aos quais as firmas pertencem (produto de maior Valor da Produção). Significância: *** 1%, ** 5% e * 10%. Os coeficientes para o termo constante e os termos dos efeitos fixos foram suprimidos. Foram utilizadas 159.717 observações.

Em relação à exportação, os resultados também são consistentes com as predições de BRS (2010) e mostram que empresas que produzem mais de um produto possuem probabilidade 23% maior de exportar se comparadas às que se especializam em apenas um produto. Já as firmas multi-indústria e multissetor apresentam, respectivamente, 19% e 14% maior probabilidade de exportar que aquelas que atuam em apenas uma indústria e um só setor.

Apesar das evidências serem consistentes com as reportadas por Bernard et al. (2010) e Goldberg et al. (2010), algumas diferenças podem ser apontadas. A primeira delas é a magnitude dos coeficientes referentes a ln(RLV) e ln(PO). Se considerarmos os resultados para outros países, o coeficiente para ln(RLV) variou entre 0,19 e 0,58 e entre 0,05 e 0,58 para o ln(PO), quando consideradas as firmas MP. Para o Brasil, os resultados referentes à ln(RLV) indicam que há menor vantagem para as firmas MP do que em outros países. Uma possível explicação para este fato é o recorte da PIA Produto, que abrange apenas empresas pertencentes ao Estrato Certo, em geral maiores e que, portanto, podem estar concentrando parcela mais expressiva de firmas produtoras de mais de um produto e com receita mais elevada. Outro diferencial, principalmente em relação aos resultados encontrados para a economia americana, é que as maiores discrepâncias ocorrem para firmas MP, e não para as MI e MS. No caso brasileiro, a maior vantagem das firmas MP em relação às MI e MS guarda uma ordem decrescente para todas as variáveis analisadas.

A escolha do número de produtos produzidos pela firma é uma importante decisão. As FIG. 1 e FIG. 2 apresentam uma visão geral dos dados da PIA Produto. Na FIG. 1, nota-se uma tendência decrescente da média de produtos produzidos por cada firma da indústria de transformação brasileira entre 2005 e 2009. Já na FIG. 2, quando são consideradas apenas as firmas MP, observa-se uma tendência de crescimento do número médio de produtos por firma a partir de 2006. Este fato parece sugerir que há, em média, uma tendência de crescimento da margem extensiva das firmas multiproduto, ou seja, aquelas que já produziam mais de um produto parecem ter aumentado ainda mais as variedade fabricadas. Sugere também que a maior parte das novas empresas a fazerem parte da amostra (Estrato Certo) produzem apenas um produto.

Fonte: PIA Produto, 2005 a 2009. Elaboração própria.

É interessante analisar também a distribuição da participação dos produtos dentro de cada firma. Em Nocke e Yeaple (2006) não há diferenciais internos às firmas em relação à produção de algum produto específico. Logo, a distribuição dos produtos deveria ser bastante homogênea. Já a modelagem proposta por Bernard et al. (2010) prevê que as firmas têm um melhor desempenho na produção de produtos mais próximos ao seu núcleo de competências e, portanto, a distribuição do produto seria mais concentrada em direção àqueles pertencentes a este núcleo. 2,20 2,22 2,24 2,26 2,28 2,30 2005 2006 2007 2008 2009

FIGURA 1 - Média de produtos por firma, Brasil, 2005 a 2009. 3,70 3,72 3,74 3,76 3,78 3,80 3,82 2005 2006 2007 2008 2009

FIGURA 2 - Média de produtos por firma MP, Brasil, 2005 a 2009.

A TAB. 4 apresenta a contribuição média de cada produto no total do valor produzido pelas firmas industriais brasileiras63, dispostos em ordem decrescente. Ou seja, cada linha da tabela apresenta um ranking de importância da contribuição do primeiro ao décimo produto na geração do valor total de produção das firmas. Cada coluna mostra o grupo ao qual a firma pertence, ou seja, se produtora de 1, 2 ou mais produtos. Para fins de apresentação, os valores foram truncados em até 10 produtos.

Os resultados para a economia brasileira são bastante semelhantes aos encontrados por BRS (2010), Goldberg et al. (2010), Navarro (2012) e Soderbom e Weng (2013): as firmas manufatureiras no país concentram bastante a produção em alguns poucos produtos. Quando produzem apenas dois produtos, o principal representa, em média, 75% do total produzido; quando produzem 10 ou mais produtos, esse valor é de 45%. Esses números não são muito distintos dos encontrados por BRS (2010) para a economia americana, cujos valores foram 80% e 46%, respectivamente.

TABELA 4 - Distribuição média da participação percentual de cada produto no valor da produção total das firmas, 2005 e 2009.

Ranking dos produtos/N.º de produtos por firma 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1° 1,00 0,75 0,64 0,58 0,54 0,50 0,49 0,46 0,45 0,45 2° 0,25 0,25 0,24 0,23 0,22 0,21 0,21 0,20 0,20 3° 0,11 0,12 0,12 0,12 0,12 0,12 0,12 0,12 4° 0,06 0,07 0,08 0,08 0,08 0,08 0,08 5° 0,04 0,05 0,05 0,05 0,06 0,05 6° 0,03 0,03 0,04 0,04 0,04 7° 0,02 0,02 0,03 0,03 8° 0,01 0,02 0,02 9° 0,01 0,01 10° 0,01

Fonte: PIA Produto, 2005 e 2009. Elaboração própria.