Como vimos há no espaço familiar, ainda que de forma restrita, o contato dessas crianças com o material escrito e seus desdobramentos em formas orais. Lá as crianças aprenderam, por exemplo, que o contato com a escrita é constituído de outros sentidos e finalidades diferentes dos vivenciados na escola, talvez por isso se frustrem quando chegam à escola e vivenciam outras formas de tratamentos dado à escrita. Nesse sentido, ainda que a leitura não se constitua em uma prática mais ativa, a influência do seu valor simbólico e social trazida em diferentes estratégias de uso, é um ato evidente, conforme aponta Rojo (2001, p. 21):
O desenvolvimento da linguagem escrita ou do processo de letramento da criança é dependente, por um lado, das instituições sociais – família, escola...- em que está inserida. Ou seja, da maior ou menor presença, em seu cotidiano, de práticas de leitura e escrita.
Nos bairros e nas famílias de classes populares, como a dos professores participantes dessa pesquisa, é cena comum vermos as crianças aparecerem de todos os lugares, manifestando suas formas orais, brincando livremente, como bem descreveu André:
Sou caboclo marajoara e vim pra Belém com seis anos de idade e brinquei muito durante minha infância, trocava informações com adultos e com outras crianças (ANDRÉ).
São crianças que circulam de um lado para o outro brincando, correndo, cantando e contando histórias que ouvem no bairro e em casa. Embrenhadas no mundo do adulto e na carência (não ausência) de materiais escritos, elas são ouvintes atentas, sequiosas de novas informações, absorvendo experiências e ensinamentos que vêm de diferentes lugares e pessoas.
Assim, o professor, na sua família, parece ter se constituído como um leitor que se atém ao trato de sua forma oral. Formas essas pouco valorizadas pela escola, mas que assumiram características semelhantes àquelas delegadas à linguagem escrita: informar, confrontar, documentar, induzir, registrar, reconstruir histórias de pessoas e de lugares,
compilando suas histórias, de suas famílias e amigos. Agindo assim, elas trazem consigo muitas das funções sociais da leitura e da escrita exigidas em nossa sociedade33.
Os fragmentos acima demonstram que o papel e o lugar do leitor estão além do papel de decifrador, pois os sujeitos ao longo de suas histórias de leitura vão buscando diferentes táticas para se apossar dos materiais escritos, seja por intermédio dos irmãos, dos pais ou amigos. Isso porque segundo De Certeau (1994, p. 269)
Ler é estar alhures, onde não se está, em outro mundo; é construir uma cena secreta, lugar de onde se entre e se sai à vontade [...] os leitores circulam por terras alheias, nômades, caçando por conta própria através dos campos que não escreveram.
Nas cenas de leitura descritas pelos professores aparece a representação do leitor como alguém mais livre, bem diferente daquele leitor preso nos gabinetes, nas bibliotecas, diferente também das representações ideais de leitura que mostram o corpo sentado e pouco relaxado, como aponta Chartier (1996) acerca das cenas de leitura. Assim, ao manifestarem diferentes experiências com a leitura, os professores dão pistas de que não lêem unicamente livros escolares, não lêem somente aquilo que é definido como “boa-leitura”.
A combinação entre estímulo familiar e facilidade de acesso ao material de leitura mostrou-se, em alguns casos, determinante para a criação da prática de leitura, como atestam Isabela e Sérgio:
Meu avô, que é um grande leitor foi um grande motivador de todos nós no campo da leitura. Lembro que quando eu pegava os livros do meu avô era como se fizesse uma VIAGEM. Ficava curiosa, maravilhada em saber como eram aqueles lugares mostrados nos livros. Lembrando disso, penso no quanto isso mexeu verdadeiramente comigo, com minhas opções...que talvez tenha sido ali o início de minha opção profissional. Essa curiosidade até então eu não sabia que isso era geografia. Hoje eu entendo que aquele meu interesse pelas questões do espaço, das formas de organização já era o “gérmen” da geografia em mim (ISABELA).
Eu acho que tem traços marcantes que carregamos e que fazem parte da gente. Os livros que li fazem parte desse traço marcante: O tesouro da
juventude, O mundo pitoresco, D. Quixote... O meu hábito de leitura está
sempre relacionado a meu pai e minha mãe, grande incentivadora. Talvez
33
Guinzburg (2006), em seu livro O Queijo e os Verme, relata a história de Menocchio, um moleiro que lia as Escrituras Bíblicas, mediatizado pelas tradições orais. Menocchio filtrava suas leituras através de um confronto entre a página escrita e a cultura oral. Isto favorece com que o moleiro formule idéias, e, posteriormente, afirme que as mesmas tenham saído de sua própria cabeça, reconhecendo a si próprio como (predominantemente) aprendiz/autodidata.
por isso o livro tenha tanto significado em minha vida. Meu pai dizia uma coisa interessante: “Se um livro custa R$ 20,00 e só eu ler ele vai continuar custando R$ 20,00, mas se duas pessoas lerem ele vai custar R$10,00 e isso era assim com todos os tipos de leitura: fosse jornal, revista, livros...fazia com tudo. Se lesse um jornal já passava em seguida pra alguém, porque ele achava que o preço ia se diluindo à medida que as pessoas iam lendo. Talvez isso justifique em parte minha paixão pela leitura, o fato de hoje eu reler meus livros, as sensações que sinto, meu apego incessante sobre o material escrito (SÉRGIO).
Sendo a leitura um bem cultural, entende-se que o contato com a mesma se dá por meio da interação social. Isabela e Sérgio evidenciam este fato ao relatarem experiências nas quais as interações com os livros se deram, fundamentalmente, a partir da mediação do “outro” - um personagem que pretendia organizar experiências onde o sujeito e a leitura pudessem estabelecer uma íntima relação, como foi o caso de Sérgio, com seu pai, e de Isabela, com seu avô. Nos depoimentos de cada sujeito, entende-se que as experiências organizadas pela família apresentaram características em sua maioria agradáveis e, por isto, marcaram a leitura positivamente. Mais adiante Sérgio vai relatar que a experiência vivida em casa, com seu pai, com a mãe (segundo ele, a mãe não era uma leitora habitual, era mais uma incentivadora de leituras) e com uma vasta biblioteca fez dele o leitor apaixonado que é hoje e que isso lhe serve de modelo no trato com a leitura em sua casa, com sua filha e na escola, com seus alunos. Assim diz Sérgio:
eu acho que a minha formação de leitor está aí...na minha família. Com a minha filha, eu sou assim mesmo como meus pais foram comigo. Quando eu não tenho um livro novo pra ler eu releio o que já li... Na escola, em minha sala, eu também acho isso. Deve ser incentivado o gosto da leitura. Muitas vezes devem ser criadas situações informais sem a preocupação com aqueles aspectos mais formais, disciplinares. Eu acho que há carência por parte dos alunos da escola de situações mais confortáveis, em que eles fiquem mais à vontade. Se você criar situações também fora deste ambiente você consegue com que eles participem e tenham um bom aproveitamento. Acho que podemos criar ambientes de leitura, como criaram para mim.
Nota-se que a trajetória de formação desses professores enquanto leitores não foi apenas marcada pelo contato com os livros, mas também pela qualidade da mediação do “outro”. As características afetivas percebidas pelos professores foram determinantes à natureza positiva da relação que estabeleceram com a leitura e revelam como cada acontecimento da nossa vida repercute no íntimo de cada um de nós.