• No results found

A pedagogia de Champagnat, ou “Pedagogia Marista” que, como vimos acima, contém um conjunto de objetivos, propostas e regras de conduta, prevendo a

formação155 dos cidadãos atendidos pelo subcampo marista, tem em seu núcleo a

produção do habitus religioso, alicerçada na perspectiva da salvação, de acordo com a proposta da Igreja Católica, que prevê uma educação na qual “em primeiro lugar esteja a formação catequética, que ilumina e fortifica a fé, nutre a vida segundo o

espírito de Cristo, leva a uma participação consciente e ativa no mistério litúrgico”.156

A linguagem “religiosa” é ativa na pedagogia marista, fundamentando teoricamente as ações propostas e garantindo a produção de capital religioso, até porque o subcampo marista é parte do campo religioso.

A formação marista prevê conteúdos que devem ser aplicados pedagogicamente nas turmas de crianças, para que se obtenha uma conduta posterior baseada em valores católicos, tais como a fé, a amizade, a solidariedade, a resignação a Deus, a liderança,... existe atenção especial em pequenas ações de formação religiosa, como no

que diz respeito a imagens, orações diárias e espaços para o sagrado. Encorajamos expressões da nossa visão cristã do homem, do mundo e de Deus, mediante a linguagem e os símbolos contemporâneos, especialmente criações artísticas. 157

153 Na última reforma curricular feita nos colégios maristas, no ano de 2005, o período semanal de

aulas de ensino religioso foi diminuído, no intuito de deixar espaço para novas disciplinas, como “robótica”. Tais informações foram coletadas nos Parâmetros Curriculares dos colégios maristas do RS.

154 Cf. Bourdieu (2002, p. 135), “As espécies de capital, à maneira dos trunfos num jogo, são os

poderes que definem as probabilidades de ganho num campo determinado”. No caso dos maristas seu capital é o religioso, e a retirada de ações voltadas ao religioso implicam diretamente na manutenção e produção desse capital.

155 Cf. o documento Missão Educativa Marista, número 145, a educação marista deve contemplar a

formação religiosa e estar de acordo com as orientações da Igreja Católica.

156 Cf. Compêndio Vaticano II, 1998, p. 587. 157 Cf. Missão Educativa Marista, 2000, p. 60.

Nas obras sociais maristas, tal conduta é buscada diariamente, é meta transformar o espaço social, fazê-lo mais “cristão”. Os próprios educadores são levados a se identificar com tal proposta, uma vez que se não houver a estruturação do habitus religioso, este será modificado por outras experiências. Existe uma preocupação contínua com o “formato” da criança ou adolescente que deixa o subcampo marista, tal “opinião” está manifestada nos documentos maristas e nas respostas dos entrevistados. É manifestado que as crianças e adolescentes deveriam dar o exemplo, ser cidadãos “exemplares”, continuar vivendo o que foi proposto enquanto freqüentaram as obras maristas. Na resposta abaixo, um Irmão, ao ser indagado sobre quais resultados a formação marista deveria deixar nos cidadãos atendidos, assegura:

(O Educando) Deveria se transformar numa pessoa que acredita em si mesma; uma pessoa que tem e alimenta sonhos; uma pessoa que tem vontade de caminhar; uma pessoa envolvida com sua comunidade, ou seja, com suas lutas; uma pessoa que acredita num Ser Superior e que saiba amar a si e aos outros158.

Um jovem entrevistado, que foi “formado” no CESMAR, demonstra ser o exemplo desse processo. Ele sugere que outros façam a mesma experiência que ele. Sua manifestação é de quem incorporou o habitus religioso marista e propõe como modelo a outros jovens.

Vou tomar a minha atitude como exemplo, até pra ficar mais fácil para eu responder. Eu acho que a pessoa quando sai daqui (do CESMAR) deve ter uma "cabeça" já formada. Saber o que quer da vida, o que quer para si e conseguir pensar com a sua "cabeça" nada de ir "na pilha" dos outros. Uma das características mais fortes que a gente adquire é a simplicidade, a pessoa sai bem simples daqui e também com uma força de vontade pra querer mudar e crescer. Não só sua vida material e espiritual, mas também de quem a pessoa gosta. Eu comecei a freqüentar o CESMAR através do JUMAR (grupo de jovens), mas antes eu freqüentava o grupo de jovens de uma igreja, só que lá não era a mesma coisa para mim, era muito cinismo, algumas coisas eles inventavam demais e aqui no CESMAR, o JUMAR é uma coisa decidida159.

Percebe-se que nas obras sociais alguns valores são destacados, frisados, pois existe a compreensão de que o cidadão desprovido financeiramente deve receber uma formação que quebre a lógica de exclusão, levando-o a ter atitudes

158 Entrevistado F. 159 Entrevistado G.

sociais adequadas e que possibilitem estabelecer relações com os demais agentes do espaço social. Champagnat, segundo os entrevistados, foi quem ensinou tais princípios, motivando os Irmãos a instruir as crianças “sobre seus deveres, ensiná- las a praticá-los, infundir-lhes o espírito e os sentimentos do cristianismo, os hábitos religiosos, as virtudes do cristão e do bom cidadão” (COTTA, 1991, p. 44).

Tais experiências vividas e incorporadas pelas crianças e adolescentes das obras sociais maristas são fundamentais para que haja aumento de capital simbólico no subcampo marista. É uma espécie de reprodução de posturas, de posicionamentos apreendidos na formação, pois

[...] por meio do sistema de preferências que ela160 produz, encoraja-

os (alunos) a se orientar, em suas escolhas escolares e sociais, em direção a um ou outro pólo do campo do poder, o pólo intelectual ou o pólo dos negócios e adotar as práticas e as opiniões correspondentes (BOURDIEU, 1996, p.43).

Um dos aspectos detectados na pesquisa e que se destaca pela intensidade na formação do habitus religioso marista, são os momentos de “espiritualidade” propostos aos cidadãos, através de experiências devocionais, (como missas especiais, orações no início das refeições, homenagens aos santos, especialmente

Champagnat e Maria161), ou seja, são pequenas doses de “jeito marista” que vão

levando os cidadãos a se identificarem com o subcampo162, valorizando-o e

aumentando seu poder simbólico no campo religioso e nas relações de disputa com os demais campos do espaço social.

160 Aqui Bourdieu se reporta especificamente à escola como local de formação, de produção do

habitus e conseqüentemente de poder simbólico, o que segundo entendimento aqui proposto, as

obras sociais maristas também são espaços de formação e produção de práticas e opiniões.

161 Podemos acompanhar tais atividades através do cronograma de atividades do CESMAR, que

prevê além das orações diárias antes das atividades, momentos especiais nas datas religiosas e na semana que antecede o dia de Champagnat vários momentos são destacados, com gincanas e lanches especiais. Apêndice L.

162 Cf. Cotta, a Pedagogia de Champagnat previa passos (uma metodologia) para a formação integral,

assim distribuídos: -Educação do Corpo; -Educação da Inteligência; -Educação da Consciência; - Educação da Vontade; - Educação Religiosa. (1991, p. 81-162).

CAPÍTULO 4 - OBRAS SOCIAIS MARISTAS DO RS: POSSIBILIDADES DE