8. Accidental Study in Case of Iceberg Approach
8.3 Disconnecting Turret System
8.3.2 Disconnectable Turret in Water Depth of 1500 m
A pesquisa qualitativa não constitui uma metodologia de investigação genuinamente geográfica, mas, sobretudo dos antropólogos e sociólogos e é assim definida não por uma questão valorativa, como se esta permitisse o acesso às informações mais importantes, ou mais confiáveis do que a pesquisa quantitativa. O que diferencia uma da outra são fatores como a natureza da informação e o recorte espacial a ser pesquisado. Enquanto as pesquisas quantitativas se utilizam de dados estatísticos e escalas de análise um tanto quanto mais amplas, a pesquisa qualitativa prioriza a informação produzida em campo no diálogo com os sujeitos, como meio de produção da informação e, indica o trato de micro-escalas de análise (TURRA NETO, 2012).
Pelo fato de serem as informações genuinamente de natureza discursiva, nesse tipo de pesquisa é necessário que o pesquisador pondere a forma de tratamento dessas informações, uma vez que os discursos podem negligenciar os fatos, ficando o pesquisador sujeito a se limitar à observação destes e a sua constatação imediata. Adentrar a realidade dos grupos quilombolas é aquilo que a pesquisa qualitativa possibilita, ou seja, entrar em contato com as formas de vivências desses grupos, sendo uma maneira de captar os discursos e as práticas que expressam relações de poder e conflitos, considerando a questão da regularização de suas terras como ação de responsabilidade de diversos agentes, bem como as relações sociais em que a identidade dos grupos se ressignifica.
Acrescentando valor a nossa metodologia de investigação em campo, Richardson (1989) afirma que a pesquisa qualitativa auxilia a descrição aprofundada de determinado problema, a partir da análise de variáveis no sentido de compreender e classificar processos vividos por grupos sociais e as particularidades dos indivíduos. Acrescenta-se que pesquisas qualitativas de campo exploram as técnicas de observação e entrevistas devido à propriedade com que estes mecanismos penetram na complexidade de um determinado problema. Assim, a observação, que aqui não elencamos enquanto participante, quando utilizada de maneira adequada, pode conduzir a resultados consistentes que possivelmente não seriam examinados em estudos que utilizam técnicas diretivas. Não fazemos uso da observação participante como meio de investigação pelo fato do curto prazo que temos para a finalização da pesquisa, bem como por acreditarmos que os procedimentos de visitas periódicas a campo, conversando com
os moradores e entrevistando-os quando necessário, deram conta das necessidades de nossa pesquisa, sem necessariamente convivermos com os grupos.
Pelas características apresentadas, tivemos na pesquisa qualitativa a base de produção das informações em campo, necessárias para o alcance de nossos objetivos. Através de seus desdobramentos, embasamo-nos em três formas de intervenção e investigação em campo que já citamos anteriormente e neste item abordamos cada uma delas: a pesquisa documental e bibliográfica no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte4, na Biblioteca Zila Mamede – UFRN (Natal), na Biblioteca Setorial Padre Sátiro – UERN (Pau dos Ferros), no cartório da cidade de Portalegre (pesquisa sobre os registros das terras das comunidades), bem como artigos, teses e dissertações produzidas.
Realizamos entrevistas semi-estruturadas com questões abertas com os quilombolas e com os gestores do município, no intuito de investigar como esses sujeitos analisam a proposta da titulação das terras quilombolas possibilitando-nos construir um perfil das atuais condições de vida dos moradores do Pêga e Arrojado. Além disso, foram realizadas entrevistas para explorarmos a história oral dos grupos quilombolas sobre fatos ligados a presença de negros em Portalegre e a discriminação racial. A entrevista oral baseia-se na construção de perguntas elaboradas de maneira aberta, sem rigidez e com o intuito de estimular o relato de experiências sociais mais amplas carregadas de ideologias, sensações e verdades irrefutáveis para os sujeitos informantes. Nesse tipo de intervenção em campo, o relato do sujeito é privilegiado e a posição do entrevistador é bastante ativa no registro das informações (COLOGNESE e MÉLO, 1998). Escolhemos a história oral como uma das metodologias de intervenção em campo, pelo fato de considerarmos importantes os relatos dos quilombolas baseados na memória coletiva sobre seus territórios para podermos compreender os processos de identificação e pelo fato de a historiografia ser limitada no que se refere às influências dos escravos negros em Portalegre.
A respeito das entrevistas, selecionamos o modelo de questões semi-estruturadas e abertas, no qual os sujeitos entrevistados são previamente selecionados e o pesquisador atua de forma mais ativa, munido de um roteiro mais ou menos ordenado de questões, sem limitar
4 Ressaltamos que não foi possível realizar pesquisa no acervo bibliográfico do Instituto Histórico Geográfico
pelo fato de estar fechado para reforma. Realizamos pesquisa no acervo da Capitania das Artes em Natal- RN, porém não encontramos documentos e bibliografia sobre negros no oeste do Rio Grande do Norte, nem assuntos relacionados.
a capacidade de formular novas questões durante o diálogo, enriquecendo o texto (COLOGNESE e MÉLO, 1998).
Na entrevista oral procuramos entrevistar os sujeitos com maior representação dentro do Pêga e Arrojado. Nas entrevistas semi-estruturadas, com o intuito de investigar as condições estruturais e socioeconômicas das comunidades, selecionamos o número de 20 quilombolas, podendo aumentar a amostra, uma vez que a pesquisa é por saturação e nosso objetivo é atendido quando as respostas tornam-se repetitivas e semelhantes, mesmo contendo suas especificidades. Sobre esse tipo de análise, Gibbs (2009) relata que “uma das funções da análise qualitativa é encontrar padrões e reproduzir explicações” (GIBBS, 2009, p.19). Para tanto, nossa intenção é a de trazer uma explicação geral baseada no acúmulo de circunstâncias específicas que ora se assemelham e ora se diferenciam. A proposta nessa etapa foi a de entrevistar quilombolas com idade acima de 18 anos, para compreendermos como se posicionam em relação à titulação das terras e a avaliação das condições de vida na comunidade.
Tivemos acesso ao processo de reconhecimento das comunidades Pêga e Arrojado por meio de documentos concedidos pela Fundação Cultural Palmares e isso representa um passo fundamental para analisarmos como as organizações quilombolas se uniram nesta causa e quais sujeitos estiveram envolvidos diretamente no reconhecimento.
Buscamos registros de doação das terras das comunidades no cartório da cidade de Portalegre, mas esse documento não foi encontrado nos arquivos, pois as terras dos moradores são registradas de modo individual (propriedades privadas), muitas delas foram compradas a preços baixos pelos antepassados dos quilombolas, já que na época eram terras distantes de Portalegre e não tinham valor alto. Além disso, os artigos e dissertações produzidos sobre as comunidades, entre outras fontes, serviram-nos de base para juntamente com a história oral dos sujeitos, analisarmos os indícios de influências de origem africana na construção das comunidades, ressaltando que sempre tivemos cautela na análise dos fatos relatados, já que a história oral é uma leitura do passado pelo sujeito no presente e que a memória acionada nos relatos da entrevista oral é dinâmica, podendo alguns fatos terem sido inventados e outros esquecidos no diálogo. Salientamos que os trabalhos científicos já realizados nas comunidades são estudos fundamentais a serem abordados em nossas discussões, pois tiveram como base de construção a historiografia local e os relatos dos quilombolas. Acionar a memória e o relato das experiências passadas dos sujeitos por meio da história oral permite
criarmos relação com os documentos escritos, no sentido de proporcionarmos o diálogo entre as fontes de informação, sempre considerando as lacunas que a memória pode conter, já que é uma representação seletiva do passado. Segundo Ferreira e Amado:
A memória é uma reconstrução psíquica e intelectual que acarreta de fato uma representação de um passado que nunca é aquele do indivíduo somente, mas de um indivíduo inserido num contexto familiar, social, nacional. Portanto toda memória é, por definição, “coletiva” como sugeriu. [...]. Seu atributo mais imediato é garantir a continuidade do tempo e permitir resistir à alteridade, ao “tempo que muda”, às rupturas que são o destino de toda vida humana (FERREIRA E AMADO, 2006, p. 94 – 95).
Constatamos que embora a memória possa ser relatada de maneira individual sendo uma interpretação do sujeito que relata, envolve também outros indivíduos, sendo também coletiva, e por isso, a leitura feita dessa história é divergente, não sendo compartilhada nos mesmos termos por toda a coletividade.
Utilizamos a técnica de gravação das entrevistas, pois acreditamos ser essa a forma mais segura para não corrermos o risco de perder qualquer depoimento dos sujeitos. Além disso, utilizamos um caderno de anotações para registrarmos a situação em que as pessoas foram entrevistadas, como horário, lugar, quantas pessoas estavam presentes, como elas se posicionaram diante das questões e durante o diálogo e quais as possíveis intenções de suas respostas. Acreditando que todas essas circunstâncias podem exercer influência nas respostas dos sujeitos, optamos por transcrevê-las destacando no decorrer da dissertação os principais relatos e trechos que apresentam detalhes mais precisos sobre, dentre outras questões, a titulação das terras. Com base nestes e nos demais trechos, fizemos uma leitura do grau de importância e de quais interesses por trás da recusa ou aceite desse direito. Para Gibbs (2009), a transcrição deve ser uma tentativa bem-sucedida e cuidadosa de captar alguns aspectos da entrevista que lhe deem uma visão ampla sobre a investigação.
Referente às entrevistas realizadas com o poder público, nas figuras dos gestores do município, procuramos levantar questões sobre o tipo de assistência dada a essas comunidades, no sentido de melhorar as condições de vida dos quilombolas e presumir sobre quais mudanças podem vir com a titulação das terras coletivas, entre outras.
Com a conclusão das entrevistas nas comunidades e nos órgãos públicos, foi possível obter argumentos para compreendemos como ambos entendem a política pública de titulação das terras, sua importância e o desenvolvimento de ações para o não estancamento do processo. Igualmente tivemos o auxílio de dados secundários coletados junto ao INCRA, IBGE, Fundação Palmares, MDS, entre outras fontes.
Traçado nossos caminhos teórico-metodológicos, no primeiro capítulo da dissertação discutimos a relação entre identidade e o direito à propriedade coletiva das terras, apresentando uma análise sobre o caráter político atribuído aos grupos e terras de tradição remanescente quilombola, sobretudo após a promulgação da Constituição Federal de 1988. Ainda neste capítulo discutimos de que forma as identidades dos grupos quilombolas do Pêga e Arrojado são declaradas ou impostas por meio dos seus discursos e práticas, considerando essas formas de identificação enquanto meios fundamentais de inserção nas políticas públicas elaboradas para as comunidades remanescentes quilombolas.
No segundo capítulo, discutimos as influências das matrizes africanas na constituição dos territórios quilombolas no Rio Grande do Norte, mostrando as diferenciações do processo de inserção dos negros no território potiguar, bem como trazemos indícios sobre a formação dos territórios quilombolas do Pêga e Arrojado baseados em documentos e na história oral dos quilombolas.
No terceiro capítulo apresentamos os relatos dos quilombolas sobre a titulação de suas terras, através dos quais pudemos construir uma interpretação sobre a forma como estão organizados os grupos do Pêga e Arrojado em favor do direito às terras coletivas. Além disso, apresentamos aspectos gerais das comunidades e as ações implementadas nos territórios quilombolas pelo Estado na representação direta do poder público municipal de Portalegre – RN.
CAPÍTULO 2 - A POLITIZAÇÃO DE TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS: A