5. Discussion and Conclusion
5.4 Directions for Further Research
A figura do pastor no protestantismo representou muito mais que uma mera substituição do sacerdote católico. Émile G. Lèonard (apud WILLAIME, 2000, p. 19-20), quanto a isso, afirmou que:
O pastor é uma das características e das originalidades essenciais da Reforma. Ele não está separado da sequência da constituição do poder taumatúrgico, seu ministério é uma especialização, não um monopólio; ele vive como todo o mundo, no meio de todo o mundo. Entre a laicidade e o clericato, o pastorado é um estado intermediário, às vezes ambíguo, feito de situações difíceis. Situação difícil do leigo que não é o único [...]. Situação difícil do especialista, de uma especialidade à qual concorrem mais ou menos os melhores de seus fregueses que fazem parte do “sacerdócio universal” [...]. Situação difícil do homem que, mesmo na sua privacidade, não deixa de pertencer ao público.
Lèonard expressou muito bem a tensão presente na condição de clérigo do pastor protestante. Com base nos conceitos de Willaime (1986, 2002, 2003) seria também possível classificar o Pr. Armando Bispo na categoria de “clérigo”. Seria necessário, entretanto, ainda se perguntar sobre sua especificidade como clérigo. Willaime, partindo da tipologia weberiana de autoridade religiosa, procurou analisar a figura do pastor protestante como clérigo. Assim, percebeu que essa tipologia era insuficiente para compreender as ambiguidades e contradições presentes na figura do pastor como “profissional da religião”. Ele, então, ressalta a figura do pastor como “Pregador” e como “Doutor”.
Conforme já mencionei anteriormente, Weber (1994, p. 318) ressaltou que no Protestantismo “o conceito de sacerdote foi totalmente substituído pelo conceito de pregador”. Mantendo-se na perspectiva weberiana, a pregação, elemento constitutivo da religião profética, o que coloca o pastor protestante próximo do tipo weberiano do profeta. Entretanto, sua vinculação funcional a uma organização religiosa, a uma “empresa social de salvação” (WEBER, 1991), o aproxima do tipo
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weberiano do sacerdote. Assim, o pastor pode ser compreendido como “um pregador profissional” (WILLAIME, 2000, p. 130). Rubem Alves acentua s expectativas da comunidade acerca do pastor:
deve ser um bom pregador. Não nos esqueçamos de que, para o protestante, o poder “ex opere operato” do sacramento está fora de questão. Não é pela magia do sacramento que ele vai ao culto, mas para ser edificado, instruído, consolado. Maus pregadores só produzem bom sono e bancos vazios (1982, p. 162).
Já foi também acentuado que a prédica é central no culto protestante e pentecostal. Sem pregação, portanto, não se pode falar em culto. Ela é forma, por excelência, de apresentação do divino. Entretanto, não se trata de um elemento que dependa exclusivamente da subjetividade do pastor. Não se pode esquecer que ele se filia a uma determinada tradição teológica a partir do qual sua pregação é examinada e avaliada pelos outros líderes e pelos membros da comunidade. Dessa forma, a adequação ou não a essa tradição, pode conduzir a classificação da sua mensagem como ortodoxa ou profética.
A prédica será considerada “ortodoxa” à medida que reflita os padrões teológicos aceitos pelo pastor e sua comunidade que se consubstanciam em documento escritos conhecidos como “confissões de fé”, “catecismos” ou “declarações doutrinárias”. No caso da IBC, uma das formas de divulgação desses padrões é o “Guia- Preciso saber”, documento contendo as crenças e os valores reconhecidos como ortodoxos que os novos membros devem conhecer ao aderirem à comunidade.
A prédica, no entanto, assume um caráter “profético” quando se trata da compreensão do texto bíblico em diálogo com sua experiências, suas iluminações pessoais e suas leituras de autores considerados relevantes. Alguns desses autores, como George Barna, Rick Warren e outros, têm seus livros comercializados na livraria que funciona num dos espaços de sociabilidade da propriedade no Bairro Pedras e na que funciona em sala específica no Colégio Kerigma.
A prédica, portanto, se desenvolve dentro de referências institucionais e individuais, dentro de verdade oficial e de um testemunho pessoal, dentro de uma
tradição teológica e de uma interpretação profética particular. É dentro dessas possibilidades que se desenvolve a tarefa do pastor como pregador, oscilando entre os tipos do sacerdote (por ser um defensor da instituição e de uma tradição sagrada) e do profeta (por apresentar uma mensagem bíblica em consonância com o seu carisma pessoal).
Essas considerações nos remetem a outra forma de análise do pastor dentro do protestantismo, que o aproxima do defensor da instituição, de uma verdade oficial e de uma determinada tradição teológica. Trata-se da compreensão do pastor como “Doutor”.
Willaime (2003) emprega o termo “doutor” para representar o pastor como tipo de autoridade ideológica. Para Willaime (2003), o pastor exerce uma autoridade ideológica que não se reporta necessariamente de carisma ou de posição institucional, mas à defesa de um corpo de crenças aceitas como legítimas dentro de uma organização religiosa. As relações entre os tipos de clérigo, de autoridade e forma de legitimação podem ser assim representadas:
Tipo de autoridade Tipo de clérigo Forma de legitimação
Autoridade racional-legal Sacerdote Instituição portadora de
um carisma de função
Autoridade ideológica Doutor Modo racional em valor,
como agente ideológico
Autoridade carismática Profeta Posse de técnicas de
acesso ao divino
Autoridade tradicional Mágico revelação pessoal
Quadro 2 - Tipos de Autoridade e Forma de Legitimação Fonte: WILLAIME, 2003
Na visão de Willaime (2003), pela vinculação de sua mensagem à instituição religiosa e ao carisma de função, o pastor estaria mais próximo ao tipo do doutor. Willaime observou ainda que,
o que permite o protestantismo colocar limites na sua precariedade institucional e nos seus efeitos fissipares é a mediatização dos doutores. [...] Ao colocar a disposição de cada fiel o meio supremo de legitimidade religiosa, isto é, a Bíblia, a verdade tornou-se um problema hermenêutico, mas ao mesmo tempo erigiu-se um novo tipo de poder religioso: o do pastor-teólogo (2000, p. 30).
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O fundamental, no entanto, é a fidelidade do pastor à mensagem ideológica. Os membros da comunidade religiosa reconhecem sua autoridade a partir do conteúdo de sua mensagem, o que também implica no reconhecimento de sua competência e do seu carisma pessoal.
Na análise específica da autoridade do Pr. Armando Bispo, além de sua proximidade com os tipos do Sacerdote e do Profeta descrita anteriormente e suas formas específicas de exercício da autoridade (racional-legal e carismática, respectivamente), destaca-se a sua autoridade ideológica. Portanto, é também um Doutor.
Em termos do objeto de estudo desta pesquisa, na próxima seção, interessa sobretudo analisar o sermão, que acontece no principal momento de ajuntamento dos membros: o culto dominical. A realização desse sermão é uma prerrogativa do pastor principal da comunidade, embora outros pastores da comunidade, líderes e outros convidados possam desempenhar essa tarefa (o que pode acontecer também em outras ocasiões de culto). Assim, além do discurso teológico autorizado, a sua própria performance se torna também mensagem a ser recebida pelos membros.