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3.3 Linguistic variables: English

3.3.3 Received Pronunciation (RP)

As relações sociais estabelecidas no processo de sobrevivência, no Assentamento Divisa, são práticas que se constroem no cotidiano e nos indicam a existência de modos de vida divergentes. As famílias que ocuparam a Fazenda Divisa vieram de municípios diferentes, com experiências de trabalho as mais diversas. Foi no período de acampamento que os assentados tiveram a oportunidade de conhecer uns aos outros, mesmo que por um período muito pequeno, se comparado às suas trajetórias de vida. Poucos puderam colocar em prática suas habilidades de trabalho na terra, já que o espaço coletivo do acampamento não lhes proporcionou oportunidade para trabalharem, individualmente ou em conjunto.

Os esforços do coletivo se direcionavam para uma conquista comum, que possibilitaria outra trajetória de vida e a produção de um novo cotidiano, marcado

pelas divergências entre modos de vida. Referimos aos esforços canalizados para a conquista da terra, que possibilitaram a criação do assentamento e, conseqüentemente, a obtenção das posses de lotes de terra, onde a família se faz presente e, a partir dali, se organiza para garantir sua sobrevivência, seja dependendo da produção do cultivo da terra ou do trabalho fora dela. Sendo assim, em nossa pesquisa, o morador do assentamento tornou-se a referência para que pudéssemos analisar os modos de vida.

Durante os 12 meses do ano de 2007, realizamos cerca de 14 visitas ao assentamento, todas com duração de três ou mais dias, incluindo finais de semana. Em algumas visitas permanecemos no assentamento por um período de 10 dias, o que muito enriqueceu nossos trabalhos de observação e entrevistas.

O assentamento possui 27 lotes e 22 famílias moradoras. Cinco famílias moram na cidade e, esporadicamente, visitam seus lotes no assentamento. Inicialmente, a pretensão era de entrevistar as 27 famílias, mas devido aos desencontros foi possível entrevistar apenas 25, sendo 22 moradoras e três que não moram em seus lotes.

As informações gerais acerca do assentamento, no que diz respeito à organização do movimento de luta pela terra, à resistência das famílias no acampamento, aos fatos marcantes durante a trajetória de oito anos de existência do P. A. Divisa, bem como à organização atual das famílias, foram obtidas por meio de informantes-chave. Os assentados que contribuíram enormemente para obtenção de tais informações foram o entrevistado 01, entrevistado 02, entrevistado 03 e entrevistado 04, respectivamente. Estes foram escolhidos por serem considerados, pelas famílias do assentamento, os principais articuladores da organização do movimento de luta pela terra, os primeiros moradores a trazerem as famílias para os

lotes, bem como serem participantes ativos dos mutirões, festas e reuniões coletivas. Dentre eles, o entrevistado 3 é o presidente de uma das associações dos produtores rurais do assentamento.

Em nossa primeira visita, realizada no mês de janeiro de 2007, informamo- nos a respeito da trajetória de luta pela terra. Tínhamos o objetivo de confirmar fatos e dados já conhecidos e obter novas informações a que não tivemos acesso, durante os diálogos com o entrevistado 01.

Para analisar os modos de vida, decidimos iniciar pela trajetória das famílias assentadas, tomando como referência as suas origens de município. As origens referem-se ao município ao qual residiam antes de se tornarem assentadas. Não nos preocupamos em conhecer a naturalidade dos membros de cada família, pois o importante foi obter informações acerca de suas experiências de vida e a motivação que as conduziram para a luta pela terra, ou seja, o que as motivou a lutar em busca de terras, por meio da Reforma Agrária. Com tais informações foi possível diagnosticar, inicialmente, que a origem das famílias indicava trajetórias e experiências desencontradas espacialmente. Esses desencontros são manifestados com a organização delas no assentamento, que se estrutura pela proximidade de lotes entre famílias de um mesmo município de origem. O mapa 3 representa a posse no assentamento e nos permite localizar as famílias em seus lotes e perceber como foi configurada a posse das terras, apresentando claramente a divisão entre famílias de municípios diferentes.

Mapa – Divisão em lotes do Projeto de Assentamento Divisa e localização das famílias oriundas de um mesmo município.

Observando o mapa 3, pode-se perceber que, durante o parcelamento, houve o agrupamento de famílias de um mesmo município em lotes próximos uns dos outros. Dois fatores podem ser considerados essenciais para o agrupamento das famílias: a proximidade, relacionada à origem de município, e as relações de parentesco. De acordo com os informantes-chave, as famílias moradoras dos lotes 01, 02 e 03 possuem parentesco entre si. Os moradores dos lotes 18 e 22 são parentes e os dos lotes 11 e 12 também possuem grau de parentesco. Os titulares dos lotes 07 e 08 também são da mesma família.

Podemos afirmar que esses dois fatores apontam para o entendimento de que o período de experiência que vivenciaram juntos no acampamento não produziu relações de vizinhança que pudessem despertar, nas famílias assentadas, a necessidade espontânea de aproximar-se daquelas com que mantiveram laços de amizade, no período de luta pela terra, já que a escolha dos lotes não foi por sorteio ou por determinação do INCRA, mas pela decisão autônoma das famílias.

Desde o início da criação do Projeto de Assentamento, nem todos os beneficiários moravam em seus lotes, com suas famílias. De acordo com um relatório da associação do assentamento, enviada ao INCRA no mês de agosto de 2001, a ocupação dos lotes pelas famílias e sua permanência na terra encontravam- se da seguinte maneira:

SITUAÇÃO DE RESIDÊNCIA DOS MORADORES DO P. A. DIVISA NO ANO DE 2001