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DINÂMICA DA POBREZA

In document CMI REPORT (sider 33-36)

A cobertura política da eleição presidencial de 2006 foi intensa nos principais jornais, telejornais e revistas semanais de informação em todo o país. O pesquisador Lima (2006, p. 17), ao aplicar os critérios de valências nas reportagens veiculadas durante a campanha eleitoral, aponta que o presidente e candidato à reeleição Lula (PT) obteve um número significativamente superior de matérias negativas em comparação ao candidato de oposição Geraldo Alckmin (PSDB).

Lima (2006, p. 18) esclarece que a cobertura negativa do presidente Lula (PT) não começou no processo eleitoral, mas ao longo do desenvolvimento da crise política de maio de 2005, quando teve início o escândalo envolvendo denúncias de corrupção dentro e fora

do governo. O episódio causou entre os jornalistas da grande mídia “um forte antilulismo,

expresso no tipo de cobertura” (LIMA, 2006, p. 20), perceptível inclusive pela construção de reportagens partidarizadas.

Após o escândalo do mensalão, um setor dos meios de comunicação de massa declarou guerra político-midiática ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A revista Veja, da editora Abril, por exemplo, apesar da falta de provas que comprovassem a vinculação de Lula (PT) aos casos de corrupção e esquemas de “caixa dois” do PT, insistia em desconstruir a imagem do presidente e abalar suas chances à reeleição. Desde 18 de maio de 2005, quando a crise se instalou, após o flagrante veiculado pela própria mídia do recebimento de propina de um funcionário dos Correios, das 32 capas publicadas pela revista Veja, pelo menos 20 traziam a crise do governo Lula ou do PT como tema principal (COLLING; RUBIM, 2006, p. 177).

Colling e Rubim (2006, p. 179), no artigo “Cobertura jornalística e as eleições presidenciais de 2006”, retomam as principais capas da revista Veja, no ano de 2005, que tinham como foco críticas severas ao governo Lula.

A capa do dia 22 de junho traz o busto de Lula com rachaduras e a manchete “Tem conserto?”. A de 20 de julho, o rosto do Presidente em perfil na sombra ao fundo do título “Mensalão, quando e como Lula foi alertado”. No dia 13 de julho, foto do rosto de Lula, demonstrando preocupação, com nova pergunta: “Ele sabia?”. No dia 10 de agosto, Veja decide relacionar as denúncias com o processo de impeachment do ex- Presidente Fernando Collor de Mello. Ao grafar o nome do Presidente de maneira incorreta (“Lulla”), a revista usa a marca de Collor na campanha de 1989 e conclui que Lula está em situação semelhante à do seu antecessor. Ainda em 2005, Veja, dentro da lógica de partidarização editorial, pública, em reportagem de capa outra denúncia que acaba, posteriormente, por não se confirmar. A matéria, da edição de 2 de novembro, trata sobre dólares que teriam sido enviados de Cuba para a campanha de Lula, em 2002.

No ano de 2006, a série de ataques ao presidente e candidato Lula (PT) continuaram, com destaque para a capa da revista Veja, do dia 10 de maio de 2006, onde Lula aparece de costas e, por meio de um recurso gráfico, a revista coloca uma marca de solado de um calçado nas nádegas do presidente. A reportagem fazia referência à decisão do presidente boliviano Evo Morales de nacionalizar as reservas de petróleo do seu país, o que na visão da revista traria prejuízos à estatal brasileira Petrobras.

O Observatório Brasileiro de Mídia (OBM), coordenado por Kjeld Jakobsen (2006, p. 55), fez uma análise da cobertura da mídia impressa aos candidatos às eleições

presidenciais de 2006. A pesquisa apontou que, durante o primeiro turno, a revista Veja fez 52 abordagens relacionadas aos quatro candidatos à presidência. O resultado demonstrou que o presidente e candidato à reeleição Lula (PT) teve o maior percentual de abordagens negativas.

A candidatura de Lula (PT) obteve 19 abordagens, das quais 9 foram negativas. O presidente Lula (PT) teve 20 abordagens, com 18 valências negativas. Já o candidato Alckmin (PSDB) contou apenas com 10 abordagens, com apenas 4 negativas. Heloísa Helena teve três abordagens, equilibradas entre positiva, negativa e neutra. Já o candidato Cristovam Buarque (PDT) não foi mencionado nas reportagens da revista Veja referentes ao primeiro turno das eleições presidenciais (JACKOBSEN, 2006, p. 55).

Colling e Rubim (2006, p. 181) lembram que, durante a crise, o jornal Folha de

S.Paulo também desempenhou um papel importante, apesar de uma atuação mais branda

que a revista Veja. A tendência da própria Folha, que, ao longo dos últimos anos, tenta abordar de forma crítica todos os governos e partidos políticos, disfarçou a cobertura negativa reservada ao governo Lula (PT). Em junho de 2006, às vésperas do início da campanha eleitoral, a Folha de S.Paulo exibiu a manchete: “Patrimônio de Lula dobra na

Presidência”. A reportagem fazia referência à evolução do patrimônio declarado de Lula (PT), que havia saltado de aproximadamente R$ 423.000,000 para R$ 840.000,00, no período de 2002 a 2006. A matéria, de teor puramente especulativo, veiculada em meio a uma cobertura de imprensa que privilegiava o tema corrupção, poderia facilmente induzir a uma suposta participação do presidente Lula (PT) em associações ilícitas.

A posição da grande mídia contra a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode ser também confirmada na análise de outros veículos. O Observatório

Brasileiro de Mídia realizou um estudo sobre a semana de 9 a 15 de setembro de 2006, considerando a cobertura jornalística dos jornais: Correio Braziliense, Folha de S.Paulo,

Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, O Globo, e das revistas: Carta Capital, Isto É e

Veja. O resultado apontou que das 166 reportagens sobre Lula (PT), 51,8% foram consideradas negativas, 25,9% positivas e 22,3% neutras. Já o candidato de oposição ao governo, Geraldo Alckmin (PSDB), apareceu em 101 matérias, sendo 35,6% com valência positiva, 32,7% negativa e 31,7% neutra. Da mesma forma, as matérias sobre os candidatos Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) tiveram uma cobertura mais positiva durante o período.

Na semana do dia 16 a 22 de setembro, logo após o envolvimento de petistas na compra do dossiê contra a candidatura de José Serra (PSDB) ao governo do estado de São Paulo, a análise do Observatório Brasileiro de Mídia, que considerou apenas as matérias veiculadas nos cinco jornais, apontou um cenário ainda mais desfavorável a Lula (PT). Das reportagens veiculadas sobre a campanha presidencial, o candidato à reeleição Lula (PT) obteve 62,5% de cobertura negativa, ao passo que o maior adversário de campanha, Alckmin (PSDB), teve apenas 20,6% de valência negativa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também contou com enquadramento majoritariamente negativo, com 57,5% das reportagens criticando sua atuação governamental (COLLING e RUBIM, 2006, p. 184).

A cobertura da crise política, que se iniciou em maio de 2005, também ganhou visibilidade na mídia televisiva. Segundo esclarece Lima (2006, p. 18), o Jornal Nacional, da Rede Globo, chegou a ter mais de dois terços de seu tempo dedicado à crise. Durante esse período, “temas relevantes para o país e ações do governo Lula deixaram de ter a

cobertura que mereciam”, indica Lima. O autor estudou o enquadramento adotado pelo

Jornal Nacional durante as diversas denúncias do governo Lula (PT) e constatou que em diversos episódios o telejornal foi omisso ou distorceu os fatos.

Lima (2006, p. 36) traz como exemplo a cobertura do Jornal Nacional, no episódio em que o ex-deputado Valdemar Costa Neto, foi capa da revista Época, em 12 de agosto de 2006, com o título “A confissão” e o subtítulo “Lula sabia do acordo de R$ 10 milhões com o PL”. A reportagem de Época insinuava que Lula (PT) tinha conhecimento do acordo acertado durante a campanha eleitoral de 2002, no valor de R$ 10 milhões, para a participação do Partido Liberal (PL) na chapa do então candidato à presidência da república. Diante das acusações, o presidente Lula (PT) fez um pronunciamento em âmbito nacional ao vivo pela TV, no qual afirmava: “Quero dizer a vocês, com toda a franqueza,

eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento”. Em nenhum momento da entrevista à revista Época, Valdemar de Costa Neto afirma que o presidente Lula (PT) sabia da origem ou do futuro do dinheiro que pagaria o acordo, tampouco se esse dinheiro seria originário de “caixa dois”, esclarece Lima (2006, p. 38). Ainda assim, ao noticiar o fato, o Jornal Nacional, do dia 13 de agosto, reproduziu a entrevista da revista Época, destacando os trechos em que Costa Neto diz que “o

se orientou por uma linha puramente denuncista. Um telespectador mais desatento em relação às nuances da política veria nessas afirmações uma prova de cumplicidade.

Outro episódio que envolveu a omissão do Jornal Nacional ocorreu na semana que antecedeu o primeiro turno das eleições presidenciais, em 26 de setembro de 2006. A reportagem do JN deu destaque ao indiciamento de Humberto Costa, ex-ministro da Saúde e candidato ao governo de Pernambuco, pelo PT, no caso da máfia dos vampiros.45 Além de seu nome, o do ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, também foi citado pela reportagem.

Ao término da reportagem, a apresentadora Fátima Bernardes diz que a lista completa de indiciados estava no site do Jornal Nacional. O suposto esforço em manter a integridade do PSDB só ficou claro para quem consultou o site do telejornal. Entre os indiciados estava Platão Fischer, ex-assessor do então candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, durante o período em que ele ocupou o ministério da Saúde.

A pesquisadora Florentina Souza, ao analisar a cobertura do Jornal Nacional nas eleições presidenciais de 2002 e 2006, defendeu a tese de que o noticiário construiu, por meio do enquadramento, grau de visibilidade e valência, um cenário que privilegiou, beneficiou e marginalizou os candidatos que concorriam ao pleito. O período de julho a agosto, quando os partidos tiveram suas candidaturas confirmadas, compôs uma das amostras estudada por Souza. Dos 28 telejornais selecionados, o candidato Lula (PT) apareceu em 28 matérias e obteve 40% de valência negativa, 46,67% de valência positiva e 13,33% de valência neutra. Já o candidato Alckmin (PSDB) obteve o mesmo número de aparições que Lula (PT), sendo 63,33% com valência positiva, 20% negativa e 16,67% neutra (SOUZA, 2007, p. 162). Para Souza, o fato de o candidato Lula (PT) obter o dobro de valência negativa em relação ao adversário Alckmin (PSDB), desperta a atenção para a reflexão sobre a cobertura enviesada do Jornal Nacional durante o período de campanha eleitoral.

Já a provável hipótese de que a Rede Globo mostrou-se desfavorável à reeleição de Lula (PT), utilizando seus telejornais como arma para desconstruir a imagem do candidato,

45 A Polícia Federal descobriu no ano de 2004, uma organização criminosa criada em 1990, no governo Fernando Collor. O esquema, apelidado de Máfia dos Vampiros, envolvia empresários, lobistas, funcionários do ministério da Saúde e parlamentares, e teria desviado cerca de 2 bilhões de reais da verba da Saúde. As quadrilhas envolvidas no esquema competiam entre si, especializando-se em superfaturar remédios hemoderivados, daí o nome “Vampiros”.

é tratada abertamente por Lima (2006, p. 18) quando aponta que o Jornal Nacional realizou uma extensa cobertura sobre a compra do dossiê, às vésperas do primeiro turno, na qual fotos do dinheiro apreendido com pessoas supostamente ligadas ao PT foram expostas sem qualquer questionamento pelo telejornal.

Entretanto, as instigantes pesquisas de Lima e Souza sobre o papel Jornal Nacional nas eleições presidenciais de 2006 não abarcaram os propósitos da Caravana JN, projeto inovador da Rede Globo, criado para incorporar-se à cobertura eleitoral do JN na disputa eleitoral.

In document CMI REPORT (sider 33-36)