Cientistas que investigam o dinâmico sistema terrestre admitem que, a história da humanidade e dos seus diferentes períodos culturais, têm intima relação com as sucessivas variações do clima. O conhecimento sobre os paleoclimas, constitui, uma ferramenta importante não só porque possibilita um melhor entendimento sobre o que o Homem se tornou, mas também, porque poderá facilitar uma mais profunda compreensão de um futuro, sem dúvida, fortemente influenciado pelo clima (Dodson et al, 2007).
Os próprios registos históricos corroboram com o facto das mudanças climáticas terem, consequências significativas, nas sociedades São, disso, exemplos expressivos, a ocorrência de temperaturas mais elevadas no Hemisfério Norte desde o final do século XI e durante os séculos XII e XIV, espaço de tempo designado por Período Quente Medieval; e a diminuição das temperaturas médias entre os séculos XIV e XIX, conhecida como a Pequena Idade do Gelo. Para que, melhor se entenda, o grau de influência destas mudanças, podem indicar-se as alterações ao nível das culturas agrícolas. Por exemplo, nos períodos quentes, a produção de trigo estendia-se a regiões mais a Norte e a produção de vinho ocorria mais cedo; por sua vez, na Pequena Idade do Gelo, registaram-se condições particularmente adversas no respeita à produção agrícola em geral. Os níveis de doença são também bons indicadores da influência climática, por exemplo e também relativamente à Pequena Idade do Gelo, verificou-se uma significativa emergência de doenças infecciosas associadas sobretudo ao frio, à escassez de alimento (por seu turno associada à crise agrícola) e à precariedade das condições habitacionais (neste ponto, podem ressaltar-se as suas deficientes condições sanitárias (Dodson et al, 2007).
O clima, conjuntamente com uma variedade de outras razões, contribuiu, de forma mais ou menos directa, para o desaparecimento de muitas das antigas grandes civilizações. Pensa-se que a seca poderá ter sido a responsável pelo colapso da cultura Harappa no noroeste da Índia, da civilização Maia na América Central e dos Hohokam no Arizona. Noutros locais do mundo, os problemas surgiram pela excessiva abundância deste recurso. No maior rio da Ásia, o rio Azul ou Yangtzé, por exemplo, ocorrem, periodicamente, graves inundações quando o escoamento proveniente do planalto tibetano coincide com as chuvas associadas às monções de Verão, sendo causa de mortandades, destruição de colheitas e de propriedades (Dodson et al, 2007). Aqui, as populações têm vindo, ao longo do tempo (desde o Holocénico), a combater a subida das águas com obras de
engenharia, e, onde estas falhavam, resultavam fracas colheitas de arroz que, por sua vez, originavam períodos de grande adversidade (Dodson et al, 2007). Também na China, uma combinação de uso intensivo do solo e de alterações climáticas levou à desertificação do Noroeste do vale do Rio Amarelo e à relocalização de povoações em territórios mais a sudeste. Este problema, mantém-se actualmente, e tem levado o governo chinês a dar continuidade à deslocalização de pessoas e gado. (Dodson et al, 2007).
Existem evidências observacionais, dos continentes e dos oceanos, que demonstram que muitos sistemas naturais têm vindo a ser afectados pelas mudanças climáticas regionais, particularmente pelo aumento de temperatura. Existem indicadores preliminares de que alguns sistemas humanos têm vindo a ser afectados por secas e enchentes. Os sistemas biológicos são vulneráveis a mudanças climáticas e alguns serão prejudicados irreversivelmente (IPCC, 2007). Foram documentados pelo IPCC, mais de 29.000 séries de dados observados, a partir de 75 estudos, que demonstram alterações significativas em muitos sistemas físicos e biológicos, sendo mais de 89% consistentes com a direcção esperada da mudança, como uma resposta ao aquecimento (IPCC, 2007).
Localizações de alterações significativas em séries de dados de sistemas físicos (neve, gelo e mantos de gelo, hidrologia, e processos costeiros) e sistemas biológicos (sistemas biológicos terrestres, marinhos e de águas doces), e variação da temperatura do ar na superfície durante o período 1970-2004. A figura baseia-se em cerca de 29000 series de dados seleccionados de um conjunto de cerca de 80000 series de dados, de 577 estudos. A selecção obedeceu aos seguintes critérios: (1) abarcando desde 1990 ou depois; (2) abrangendo um período de pelo menos 20 anos; e (3) apresentando uma alteração significativa em alguma direcção, de acordo com avaliações em estudos individuais. Estas séries de dados são provenientes de 75 estudos (dos quais cerca de 70 são novos desde a terceira avaliação) e contêm cerca de 29000 series de dados, dos quais cerca de 28000 provêm de estudos Europeus. As áreas em branco não contêm dados suficientes de observação climática para que possam estimar uma tendência de temperatura. As caixas de 2x2 indicam o número total de séries de dados que exibem alterações significativas (linha superior) e a percentagem dos que são consistentes com o aquecimento (linha inferior) para: (i) regiões continentais; América do Norte (NAM), América Latina (LA), Europa (EUR), África (AFR), Ásia (AS), Austrália e Nova Zelândia (ANZ), e Regiões Polares (PR) e (ii) escala global: Terrestre (TER), Marinhas e de Água Doce (MFW), e Global (GLO). O número de estudos das sete caixas regionais (NAM, LA, EUR, AFR, AS, ANZ e PR) não coincide com os totais Globais (GLO) porque excepto os números correspondentes às regiões Polares, das restantes regiões, não incluem os números relativos a sistemas marinhos e de água doce (MFW). Não são apresentadas no mapa alterações de localização de grandes áreas de marinhas não são apresentadas no mapa.
Figura 8 - Alterações nos sistemas biológicos e físicos e temperatura de superfície 1970-2004 (Adaptado de IPCC, 2007)
Com efeito, as alterações climáticas aumentam de forma geral as temperaturas da terra e do mar e alteram o volume e os padrões de precipitação, o que se traduz numa subida do nível médio do mar, em riscos de erosão costeira em zonas litorais e num aumento previsto da gravidade das catástrofes naturais relacionadas com fenómenos meteorológicos (e.g. temporais, fortes precipitações, inundações repentinas, secas, incêndios florestais, desabamento de terras, entre outros). Por sua vez, alterações dos níveis da água, das temperaturas e dos caudais, implicarão consequências ao nível: do abastecimento alimentar; da saúde; da indústria; dos transportes; e da integridade dos ecossistemas. As alterações climáticas induzirão assim, de forma geral, impactes negativos nos sistemas naturais, sociais e económicos, embora possam existir impactes positivos, sobretudo a curto prazo, em determinadas regiões e sectores (e.g. em algumas regiões de latitudes elevadas da América do Norte e Eurásia, o aumento da temperatura irá possibilitar a expansão das áreas florestais e da agricultura; no Norte da Europa, a subida da temperatura ocorrerá sobretudo no Inverno, levando à menor necessidade de aquecimento nos edifícios; o investimento numa economia menos dependente do carbono, promoverá a eficiência energética e a penetração dos produtos verdes) [CCE, 2009a].
É provável o aumento das áreas atingidas pela seca e estima-se que o acesso ao aprovisionamento seguro de água potável se reduza ainda mais. Devido à falta de água, as populações serão provavelmente forçadas a migrar em várias regiões do mundo, desencadeando perturbações locais e/ ou mundiais, potenciadoras de um clima de insegurança (CCE, 2007b).
Quanto aos ecossistemas e biodiversidade, no caso de as temperaturas médias globais ultrapassarem os 1,5º a 2,5º C, prevê-se um risco acrescido de extinção de cerca de 20% a 30% das espécies animais e vegetais identificadas (CCE, 2007b).
O número adicional de pessoas em risco, devido ao aumento de carências alimentares poderá ascender a várias centenas de milhares (CCE, 2007b).
Nas regiões costeiras, o aumento do nível do mar irá ameaçar em especial os deltas do Nilo, do Ganges/Brahmaputra e do Mekong, obrigando, até 2050, à deslocação de mais de um milhão de pessoas em cada uma destas áreas. Estas repercussões já se fazem sentir nos pequenos Estados insulares (CCE, 2007b).
Entre os riscos mais graves para a saúde relacionados com as alterações climáticas, encontram-se o agravamento de doenças infecciosas e os efeitos de fenómenos meteorológicos extremos. Doenças dependentes das condições climáticas, como a diarreia, a malária ou a desnutrição energético-proteica são das mais letais em todo o mundo, provocando a morte a milhões de pessoas em todo o mundo, particularmente, no continente africano (CCE, 2007b).
A importância e a severidade dos impactes dependerão, em grande medida, da localização geográfica, e da situação climática, económica, social e ambiental pré-existente.
Assim, apesar do maior aumento da temperatura se verificar no Hemisfério Norte, muitos países do Hemisfério Sul, menos desenvolvidos, irão sentir com maior intensidade os impactes das alterações climáticas. Prevê-se, desta forma, que sejam intensificadas as assimetrias existentes entre as regiões, uma vez que zonas em desenvolvimento são já mais quentes, em média, do que as zonas desenvolvidas, sofrendo de uma alta variabilidade ao nível da pluviosidade. Estas regiões menos desenvolvidas estão também, muito dependentes da agricultura, um dos sectores mais sensíveis ao clima. Também, os seus baixos rendimentos e as suas vulnerabilidades tornam a adaptação às alterações climáticas particularmente difíceis (CCE, 2007a).
Certas facções da sociedade, à partida também mais vulneráveis - como os idosos, os deficientes ou os agregados familiares com baixos rendimentos - podem, analogamente, vir a ser, mais afectados pelas alterações climáticas (e.g. ameaças com peso sobre o emprego, condições de alojamento inadequadas, maior sensibilidade a eventos climáticos extremos como vagas de calor) [CCE, 2009a].
Tal como no resto do mundo, na Europa as alterações do clima provocarão impactes significativos no ambiente natural e nas sociedades.
No sector agrícola prevêem-se alterações no rendimento das culturas, na gestão de explorações pecuárias e na localização da produção, havendo um risco significativo de quebras na produção agrícola devido ao aumento dos fenómenos meteorológicos extremos, e à própria diminuição do fundo de fertilidade dos solos, pela perda e não reposição de matéria orgânica (potenciada pelas más práticas que têm enquadramento nos sistemas de produção intensiva que, veiculam, uma maior vulnerabilidade aos factores climáticos, por exemplo, à erosão do solo). A produtividade e sanidade das florestas, bem como a distribuição geográfica de determinadas espécies de árvores, podem também ser afectadas pelas mudanças climáticas (CCE, 2009a).
Os efeitos das alterações climáticas nas zonas costeiras (onde a erosão irá aumentar) e nos ecossistemas marinhos serão também graves, com alterações nos sectores das pescas e aquicultura, que sofrerão uma acrescida pressão (CCE, 2009a).
A procura e oferta energéticas serão também afectadas.
A nível da procura estima-se por exemplo: um aumento da procura de sistemas de refrigeração no Verão e uma diminuição da procura de sistemas de aquecimento no Inverno; um aumento da procura de energia para sistemas de bombagem de água para fins agrícolas ou municipais; e uma menor procura para aquecimento de águas domésticas sanitárias, entre outros (CCE, 2009a).
A nível da oferta prevêem-se alterações na produção de energia hidroeléctrica que, poderá, sofrer um aumento na Europa setentrional (devido à fusão dos glaciares) e diminuir na Europa meridional (devido à redução das disponibilidades de água e da potência hídrica). Prevê-se, igualmente, que a redução da precipitação e os períodos de calor intenso influenciem de forma negativa, o processo de arrefecimento das centrais eléctricas térmicas e nucleares (haverá menos água para o arrefecimento e a sua capacidade de refrigeração será menor devido ao seu aquecimento geral), pelo que os limiares de descarga poderão ser ultrapassados. Os cursos dos rios serão perturbados pelos níveis de precipitação alterados e pela redução do gelo e da neve nos picos montanhosos; o aumento da erosão poderá ocasionar maior assoreamento das barragens para a produção de energia hidroeléctrica. Os impactes dos fenómenos meteorológicos extremos como temporais e inundações poderão também, colocar em risco as infra-estruturas energéticas e afectar a distribuição de electricidade (CCE, 2009a).
A evolução das condições climáticas poderá, ainda, trazer novas possibilidades, como as energias solar e fotovoltaica. Este cenário demonstra a importância da diversificação das fontes de energia, do desenvolvimento de fontes renováveis de energia, de uma melhor gestão da procura e da oferta, e de um sistema de referência adaptado a uma maior variabilidade da procura e produção de electricidade (CCE, 2007b).
O aumento do número de fenómenos climáticos extremos afectará, igualmente, as infra-estruturas (imóveis, rede de transportes, energia e saneamento básico), particularmente em zonas densamente habitadas e costeiras devido à subida do nível do mar (CCE, 2009a).
O turismo será também um sector muito afectado, especialmente nas zonas alpinas pela redução da camada de neve, e na zona mediterrânica pelo aumento das temperaturas, podendo as formas de turismo menos sustentáveis agravar os efeitos negativos das mudanças climáticas (CCE, 2009a).
Devido ao aumento dos fenómenos meteorológicos extremos, poluição atmosférica, bem como de doenças transmitidas por vectores, a saúde humana será um dos sectores mais afectados pelas alterações climáticas (CCE, 2009a). Também, as doenças provocadas pelas águas e pela alimentação, incluindo doenças zoonóticas3 na população humana, podem ser afectadas pelas alterações climáticas. Factores de stress, como a exposição ao ozono e às partículas finas por ocasião de uma vaga de calor, podem agravar estes efeitos. Diversas afecções como as doenças pulmonares crónicas obstrutivas estão associadas à exposição a longo prazo a partículas finas na atmosfera, exacerbando a sensibilidade dos indivíduos ao stress climático (CCE, 2007b).
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Zoonozes são doenças de animais transmissíveis ao homem, bem como aquelas transmitidas do homem para os animais. Os agentes que desencadeiam essas afecções podem ser microorganismos diversos, como bactérias, fungos, vírus, helmintos e rickéttsias.
Também a sanidade animal poderá ser afectada pelas alterações climáticas, nas condições de vida e pela potencial exacerbação das doenças infecciosas transmissíveis. Podem igualmente ter repercussões directas ou indirectas nas doenças animais transmitidas por vectores (CCE, 2007b). Estimam-se ainda, impactes a nível fitossanitário, através do aparecimento ou a migração de organismos nocivos, que possam vir a afectar negativamente, o comércio de animais, plantas e respectivos produtos (CCE, 2009a).
A qualidade e disponibilidade de recursos hídricos será bastante afectada pelas alterações climáticas, o que trará consequências para inúmeros sectores, incluindo a produção alimentar. Em algumas regiões europeias, a escassez de água já constitui, actualmente, um problema, prevendo- se que a situação se agrave, podendo ter consequências no aumento das pressões migratórias (CCE, 2009a).
As alterações climáticas irão ainda, provocar danos ao nível dos ecossistemas e biodiversidade, afectando espécies e exercendo impactes significativos em serviços relacionados com estes sectores (e.g. regulação do clima, armazenamento de carbono, protecção contra as tempestades, oferta de água para consumo humano, produção alimentar) [CCE, 2009a].
Segundo o IPCC (2007), os impactes das alterações climáticas intensificarão também as assimetrias regionais europeias, sendo a região Mediterrânica, o Sul da Europa, as regiões ultraperiféricas e o Árctico, as zonas consideradas mais vulneráveis e onde os impactes se farão sentir com maior intensidade e gravidade.
Para a região árctica, projectam-se as mudanças de temperatura mais profundas de todo o planeta, com o decréscimo na cobertura do gelo polar e perda de cobertura de gelo na Gronelândia (EEA, 2008).
Para o Sul da Europa e toda a bacia do Mediterrâneo, prevêem-se elevados aumentos da temperatura e redução da precipitação, com consequentes situações de seca por redução das disponibilidades de água e da potência hídrica, com implicações na produtividade agrícola, bem como no turismo de Verão (ver figuras e ?). As projecções apontam também para um aumento dos riscos para a saúde, como consequência do aumento da frequência de fogos florestais, das ondas de calor e do número de vectores transmissores de doenças. Refira-se ainda o aumento do risco de perda de biodiversidade (EEA, 2008).
Figura 9– Lado esquerdo: Variação absoluta da temperatura média anual no período de controlo de 1961-1990 e 2071-2100 (cenário A2 do IPCC SRES); Lado direito: Variação relativa da precipitação média anual no período de controlo de 1961-1990 e 2071-2100, (cenário A2 do IPCC SRES) [ CCE, 2007b]
Nas zonas montanhosas, em particular nos Alpes, prevê-se o aumento das temperaturas e a consequente fusão generalizada de neve e de gelo que provocará alterações nos caudais dos lagos e rios com impactes a nível do turismo de Inverno. Projecta-se também, um aumento do risco de queda de rochas, da erosão do solo e da extinção de espécies, bem como a deslocação para Norte e para maiores altitudes das zonas de distribuição de plantas e animais (EEA, 2008).
No mapa seguinte (Figura 9) podem observar-se os principais impactes e efeitos das alterações climáticas nos diversos sectores nas principais regiões biogeográficas da Europa.
Figura 10– Projecções de impactes e seus efeitos nos diversos sectores nas principais regiões biogeográficas da Europa (EEA, 2008).
Em Portugal as previsões de impactes são também preocupantes. Os resultados dos Projectos SIAM I, SIAM II e CLIMAAT II apresentam uma análise dos potenciais impactes das alterações
climáticas para os recursos hídricos, zonas costeiras, pescas, agricultura, florestas e biodiversidade, energia e saúde humana.
As tabelas apresentadas no Anexo I resumem os principais potenciais impactes das alterações climáticas que os cenários descrevem para Portugal continental e arquipélago da Madeira, sobre os diferentes sectores.