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Ainda é difícil estabelecer com precisão o marco originário da aglomeração que daria vida e batizaria a comunidade de Caetanos de Cima.

Apesar dos poucos registros históricos disponíveis, informações baseadas nas pesquisas de história oral publicadas por Silva (2006) e Souza (2008) falam do surgimento da comunidade num tempo quando as terras ainda eram livres. Segundo as pesquisadoras, existem duas versões para explicar essa origem: a do negro fugitivo Caetanos dos Santos e a da índia Tereza Barbosa.

A hipótese comumente aceita para a origem do nome Caetanos se baseia nos relatos da presença de um escravo fugido que se estabelecera próximo à praia por um período de tempo não muito longo. Chamado de Caetano dos Santos, acredita-se que era irmão de Caetano José da Costa, o fundador da comunidade de Conceição de Caetanos (município cearense de Tururu), em 1884. Refugiados do sistema escravocrata vigente, os irmãos se estabeleceram em lugares diferentes, provavelmente como estratégia de segurança.

A casa de palha de Caetano se tornou a referência para os pescadores que buscavam aquela área para a pesca, reconhecidamente um bom local por causa dos arrecifes e banco natural de algas. Não demorou em o lugar passar a ser conhecido como Praia de Caetanos.

Entretanto, os depoimentos não falam de filhos ou cônjuge. Tampouco os moradores de Caetanos possuem traços marcantes da etnia negra, o que seria de se esperar caso esta fosse a origem, além do nome, também do povoado.

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Outra vertente explicativa da origem da comunidade faz referência a um primeiro núcleo familiar formado por uma índia de nome Tereza Barbosa e um português chamado Leonardo29, que recebeu autorização para casar-se diretamente de Dom Pedro II30, na segunda metade do século XIX.

Segundo Souza (2008), essa versão é questionável pelo fato de, naquela época, ser improvável que o Imperador reconhecesse os direitos de posse de terra de uma índia quando as Capitanias Hereditárias se constituíram a partir da usurpação de territórios indígenas doados aos portugueses. O Decreto da Assembleia Provincial do Ceará, que declara não haver índios no estado, também torna o fato contestável. Além do mais, nem Tereza nem Barbosa são exatamente nomes indígenas.

Por outro lado, Rodrigues e Souza (2006) afirmam que os moradores mais antigos possuem ascendência com a etnia Tremembé, antigos habitantes do território de Sabiaguaba31. Essa afirmativa decorre, provavelmente, do fato de a constituição histórica da sede Amontada ter ocorrido no século XVIII, quando da catequização dos índios Tremembé.

Essas questões irão permanecer até que pesquisas historiográficas, arqueológicas e antropológicas possam trazer mais elementos à tona. Um caminho possível é desvendar os

mistérios por trás das ―taperas‖, vestígios arqueológicos soterrados pelas dunas que estão

sendo, aos poucos, revelados: cacos de porcelana colorida, restos de ferramentas, panelas e pratos de barro. O sítio arqueológico ainda está praticamente intacto devido à preocupação da comunidade em preservá-lo.

Imprecisões à parte, sabe-se que praticamente toda a zona costeira cearense, durante muitos anos, não foi alvo da estratégia de ocupação colonizadora. A sociedade em processo de formação e afirmação de sua civilidade nos centros urbanos e grandes fazendas de gado cearenses não encontravam, no litoral, terreno fértil para o desenvolvimento de atividades econômicas rentáveis para a época nem tinham, com ele, práticas culturais relevantes de caráter marítimo. A única exceção eram as cidades portuárias, mas estas eram pontos isolados do litoral, sem conexão entre si.

Esta situação concorreu para que esta área atraísse remanescentes indígenas e refugiados da escravidão, num primeiro momento, e retirantes da seca e famílias expulsas do sertão pela superexploração do trabalho e inviabilidade de subsistência frente aos latifúndios, em um segundo momento.

29 Segundo os moradores, Leonardo recebeu o sobrenome Barbosa por ser estrangeiro e, por isso, ser necessário

assumir o nome da família da esposa.

30 Não existe referência comprobatória da existência deste documento. 31 Do tupi guarani, comida de pássaros.

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Apesar das incoerências históricas e ausência de documentos historiográficos e pesquisas que comprovem a origem do povoado, a permanência de costumes indígenas motiva os moradores atuais a reconhecerem-se como seus descendentes.

Ainda hoje podemos encontrar, na comunidade, práticas ancestrais que se mantém como confecção de objetos utilitários feitos com palha de coco e carnaúba, alimentos como tapioca e processos de cura através das rezadeiras e ervas medicinais. A pesquisa de campo constatou que 45% dos moradores de Caetanos de Cima afirmaram recorrer a rezadeiras e remédios caseiros na busca de resolver problemas de saúde.

A despeito dos indícios abordados aqui, a pesquisa de campo realizada com moradores não detectou o reconhecimento dessa ascendência indígena em nenhum dos entrevistados. Apenas 3% declararam-se negros e a imensa maioria, 81%, considerou-se pardo/ moreno, enquanto 2% dos entrevistados não responderam à questão.

Os moradores mais recentes de Caetanos, todavia, são provenientes da migração de famílias do sertão32 desde a grande seca de 1915, ampliando esta participação durante as décadas de 50 e 60. Nos anos 80, a migração se ampliou e a aceleração da ocupação do território deflagrou os conflitos fundiários contra os quais a comunidade ainda hoje se organiza para enfrentar.

A pesquisa de campoidentificou que, das 33 pessoas pesquisadas, mais da metade delas nasceu em Caetanos de Cima. As demais são provenientes de outras comunidades do município de Amontada e de Itapipoca. Mais da metade delas (52%) vivem em Caetanos de Cima a mais de 21 anos.