A zona costeira cearense apresenta formação recente oriunda predominantemente do período tércio-quaternário resultante da variação do nível do mar, das mudanças climáticas e dos agentes da dinâmica do litoral (CLAUDINO-SALES, 2002) com afloramentos do pré- cambriano e do cretáceo em alguns trechos.
Segundo Claudino-Sales (2002), o litoral de Amontada foi formado, provavelmente, a partir da incorporação de cordões litorâneos cuja dinâmica costeira atual é dominada pela ação dos seguintes agentes:
Ventos alísios24
de NE (quente e úmido, com velocidade média de 4 m/s) e de SE (quente e seco, com velocidade média de 7 m/s) são os mais influentes na região, sendo estes últimos mais ativos e fortes entre agosto e novembro, quando se estabelece o período de estiagem. Além dos alísios, mais outros sistemas meteorológicos condicionam a circulação atmosférica: a ZCIT (Zona
24 Alísios são ventos que sopram das zonas de alta pressão para zonas de baixa pressão, ou seja, dos trópicos para
48
de Convergência Intertropical), o Equatorial Amazônico e a Frente Polar Atlântica (LIMA; MORAIS; SOUZA, 2000);
Ondas de NE e de SE, com altura média de 1,1m e frequência de 5 a 6s;
A corrente litorânea longitudinal, ou corrente de deriva litorânea25 é um dos
agentes mais importantes na remobilização de sedimentos e consequente definição da morfologia da praia, transportando sedimentos ao longo da linha de costa no sentido SE-NW;
Marés semidiurnas26
que transportam sedimentos através da ação combinada do espraiamento com o refluxo da onda; na costa cearense, o nível médio da maré é 1,5 m, sendo que as menores marés ocorrem em março e as maiores em janeiro.
As principais feições geomorfológicas encontradas em Caetanos de Cima são: a) Praia: ambientes sedimentares costeiros, arenosos, formados especialmente por quartzo de granulometria mediana; o limite externo é marcado por uma feição de fundo formada pelo processo de arrebentação e o limite interno é a zona de máxima incidência de ondas de tempestade (berma).
b) Dunas: formadas a partir da deposição de sedimentos transportados pelo vento. Claudino-Sales (2002) elenca seis grandes diferentes famílias de dunas27, sendo subdivididas em subclassificações. Fundamentados na autora, identificamos os tipos de dunas encontrados em Caetanos de Cima:
Dunas móveis que compõem campo de dunas extenso, sem indícios de ação
pedogenética e consequente inexistência de cobertura vegetal, que justifica o trabalho contínuo da migração dos sedimentos; são encontradas dunas móveis dos tipos longitudinal e barcanóide.
Dunas fixas resultantes da cobertura vegetal psamófila28
sendo dos tipos de borda e campos de dunas vegetadas de geometria indefinida.
25 Corrente de deriva litorânea está presente entre a zona de arrebentação e a zona de espraiamento. As correntes
costeiras ―constituem, também, o grande mecanismo de circulação responsável pela manutenção da estabilidade e equilíbrio dos ambientes praiais‖ (TESSLER; MAHIQUIES, 2008, p. 274).
26 O movimento do nível do mar provocado pela gravidade da lua e do sol sobre as águas do planeta concorre
para uma variação de horário simétrica, ou seja, duas marés altas e duas marés baixas durante o dia lunar (24h50m) (LACOMBE, 1971 apud CLAUDINO-SALES, 2002).
27 Dunas móveis, dunas semifixas, dunas fixas, eolianitos, formas de deflação e dunas regeneradas. 28 Que tem preferência por solo arenoso.
49
Figura 2.14 – (a) Campo de dunas móveis dos tipos barcanóide e longitudinal, cujas zonas de deflação estão ocupadas por lagoas temporárias. Direção principal do vento da esquerda para a direita; (b) Porção leste da Lagoa da Sabiaguaba, limite sul da comunidade de Caetanos de Cima. Observar dunas móveis do tipo
barcanóide avançando sobre os coqueiros e o espelho d‘água. Direção do vento da esquerda para a direita.
Observar, em primeiro plano, cascas de coco jogadas sobre as dunas para diminuir a velocidade de movimentação das areias.
Foto: (a) Vanessa Lima (2010); (b) Camila Garcia/ Instituto Terramar (2008).
a
50
Eolianitos são dunas cimentadas bastante comuns no litoral oeste devido a
disponibilidade de carbonatos na plataforma continental29 adjacente, com taxa de sedimentação bem variada (CLAUDINO-SALES, 2002);
c) Lagoas: espelhos d‘água alimentados pelo lençol freático que, por sua vez, são
alimentados pelas chuvas; podem ser classificadas quanto às suas condições hidrogeológicas, diferenciadas abaixo, quanto às características geomorfológicas, que compõem a subdivisão da classificação proposta segundo tipos encontrados em Caetanos de Cima (CLAUDINO- SALES, 2002).
Temporárias ou efêmeras: lagoa marítima formada a partir do acúmulo de
água da chuva que eleva o nível freático por um curto período de tempo (desaparece durante a estiagem), aflorando em pequenas lagoas de água doce; é muito frequente em campos de dunas móveis, normalmente se formando em áreas de deflação interdunares temporárias sem apresentar uma base espacial estável, ou seja, localização passível de mudança de acordo com a dinâmica ambiental.
Intermitentes ou sazonais: lagoa marítima frequente em campos de dunas
alimentada pelo lençol freático superficial; se mantém cheia por um curto período de tempo, mas seus atributos espaciais permanecem mesmo durante a estiagem permitindo o acúmulo d‘água nos mesmos lugares quando do retorno das chuvas;
Perenes: são alimentadas pelos aquíferos litorâneos ou resultado da barragem
de rios costeiros, sendo encontradas em qualquer segmento da zona costeira. A Lagoa da Sabiaguaba é a única perene no território da comunidade e, segundo especulação de Claudino-Sales, sua formação remete a ―uma laguna antiga isolada do mar através da incorporação de cordões litorâneos sucessivos‖ (2002, p. 175).
e) Zona de deflação: área relativamente deprimida em relação às dunas ao redor, formada a partir da mobilização diferencial das areias; normalmente, o lençol freático nestas áreas é menos profundo, estando presentes pequenos córregos e lagoas em se tratando de áreas de dunas móveis e/ ou vegetadas, e yardangs quando a atuação se dá sobre dunas cimentadas.
29 A plataforma continental na costa cearense varia de 80m (Camocim) a 35 m (Icapuí); na região, a largura dela
51 b
Figura 2.15 – (a) Praia, pós-praia e zona de berma, limitada por dunas de borda vegetada fracamente por gramíneas. Ao fundo, exemplares de eolianitos com altitude média de 15m; (b) Faixa praial da comunidade de Caetanos de Cima. Em primeiro plano, as crostas sedimentadas dos eolianitos (1) e, mais ao fundo, a Barraca das Mulheres (2), a pousada em construção (3) e, por trás dela, o Barracão dos pescadores,a Pousada Toca dos Grauçás (4), um bar (5) e a plantação de coqueiros (6).
Foto: Vanessa Lima (2010).
52
Figura 2.16 – (a) Eolianitos na seção próxima à praia. Observar as algas marinhas secando na zona de deflação. Sentido do vento da esquerda para a direita. Forma de yardangs resultado da deflação eólica; (b) Eolianitos no setor mais afastado da praia. Observar a fina e descontinua camada cimentada sobre a duna e as estruturas verticais que lembram restos de vegetação herbácea fossilizada. Ao fundo, zona de deflação erodida pelo vento e por um pequeno riacho que corre para o mar (antes existia uma lagoa perene).
Foto: Vanessa Lima (a 2008; b 2010).
b a
53
O mar litorâneo de Caetanos de Cima está presente a N e NE e é marcado pela presença de arrecifes paralelos à faixa de praia formados a partir da sedimentação da areia de praia. Ficam à vista durante a maré baixa e acolhem uma rica biodiversidade: moluscos, crustáceos, peixes e algas marinhas. Também diminuem o poder abrasivo das ondas sobre a faixa de praia.