II. THEORETICAL FRAMEWORK
2.2 Differences and challenges for international co-operations
2.2.1 Differences in education systems
João do Rio18,no início do século XX, atentava para a dimensão social do espaço urbano, ao observar o processo de urbanização da cidade do Rio de Janeiro. A alma encantadora das ruas, título do seu livro de crônicas publicado em 1909, inspira a pensar a cidade a partir de um prisma menos usual, ou seja, além do caos urbano, o que podemos encontrar nas grandes cidades?
Não há como negar, assim como alerta Magnani (2003), que, ao pensar as grandes metrópoles, do ponto de vista macroscópico, deparamos com processos desagregadores, como o colapso do sistema de transporte, as deficiências do saneamento básico, o déficit de moradia, a má distribuição dos equipamentos sociais, poluição, violência, a solidão, entre outros. São aspectos que aparecem nos dados demográficos, mas que também são experimentados cotidianamente. Porém, interessa-nos pensar, assim como propõe o antropólogo, em aspectos microscópicos das dinâmicas da cidade que contrapõem os mencionados processos desagregadores.
A cidade de São Paulo passou por grandes transformações nos últimos cem anos. De acordo com Claude Lévi-Strauss (1996), a transformação seria a base da essência das grandes cidades americanas. Disse o antropólogo:
Nas cidades do Novo Mundo, seja Nova York, Chicago ou São Paulo, que muitas vezes lhe foi comparada, o que me impressiona não é a falta de vestígios: essa ausência é um elemento de seu significado. [...] Para as cidades europeias, a passagem dos séculos constitui uma promoção; para as americanas, a dos anos é uma decadência. Pois não são apenas construídas para se renovarem com a mesma rapidez com que foram erguidas, quer dizer, mal. No momento em que surgem, os novos bairros nem sequer são elementos urbanos: são brilhantes demais, novos demais, alegres demais para tanto. Mais se pensaria numa feira, numa exposição internacional construída para poucos meses. Após esse prazo, a festa termina e esses grandes bibelôs fenecem: as fachadas descascam, a chuva e a fuligem traçam seus sulcos, o estilo sai de moda, o ornamento primitivo desaparece sob as
18
Um dos pseudônimos de Paulo Barreto. Cronista, jornalista, teatrólogo, cuja produção literária marcou e redefiniu os rumos da literatura brasileira no fim do século XIX.
demolições exigidas, ao lado, por outra impaciência (LÉVI-STRAUSS, 1996, p. 69).
Neste processo, uma das transformações significativas, e que modificou o cotidiano na cidade de São Paulo nas últimas décadas, diz respeito à noção de rua e espaço público.
Os processos de urbanização das grandes cidades brasileiras, como refere Magnani (1993), sofreram forte influência da reformulação de algumas cidades europeias, a exemplo de Paris do século XIX e seus grandes bulevares. Com as transformações urbanas e o avanço do capitalismo, outras mudanças foram consideradas necessárias, o que Magnani, ao citar Le Corbusier19, define como urbanismo de racionalidade. Para Le Corbusier, era necessário “matar a rua”, ou seja, ordenar, delimitar o espaço da casa, do trabalho, do lazer.
João do Rio (S/D, p. 8) lembra a centralidade da rua e seus significados, muitas vezes confusos e antagônicos, para o homem urbano:
Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social, é claro que a preocupação maior, a associada a todas as outras ideias do ser das cidades, é a rua. Nós pensamos sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os ideais, os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde a noção de liberdade e de difamação — ideias gerais — até a aspiração de dinheiro, de alegria e de amor, ideias particulares. Instintivamente, quando a criança começa a engatinhar, só tem um desejo: ir para a rua! Ainda não fala e já a assustam: se você for para a rua encontra o bicho! Se você sair apanha palmadas! [...]
A rua como símbolo e suporte da experiência é alvo das preocupações de Magnani (1993). Mas, de qual rua estamos falando? Com o pesquisador, concordamos que não se trata da rua como espaço de circulação, porém, em meio ao caos urbano,
a rua que interessa e é identificada pelo olhar antropológico é recortada desde outros e variados pontos de vista, oferecidos pela multiplicidade de seus usuários, suas tarefas, suas referências culturais, seus horários de uso e formas de ocupação (MAGNANI,1993, p. 3).
Buscamos, assim, a experiência da rua, exatamente esta que se quis “matar”, retomando a expressão de Le Corbusier. Com o processo de urbanização, novos circuitos são possíveis de serem criados e novas figuras aparecem no cenário urbano, a exemplo da multidão e do flâneur evocados por Benjamin (1989), ao expor suas preocupações com os processos de urbanização e modernização europeus, sobretudo em Paris. A exemplo das
19
Arquiteto e urbanista franco-suíço, responsável por redigir a Carta de Atenas, manifesto urbanístico resultante do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), realizado em Atenas em 1933.
“putas”, boêmios e poetas de Baudelaire, há notícias da cidade que só alguns podem dar. São essas notícias da cidade que tentamos encontrar nesta pesquisa.
A noção de “pedaço” proposta por Magnani é, desta forma, particularmente interessante, pois, em diálogo com a dicotomia rua em oposição à casa (DA MATTA, 1985), evidencia um outro plano, o dos “chegados”. Se a casa é o domínio dos parentes e a rua, o dos estranhos, a noção de pedaço permite desvelar “um campo de interação em que as pessoas se encontram, criam novos laços, tratam das diferenças, alimentam, em suma, redes de sociabilidade numa paisagem aparentemente desprovida de sentido ou lida apenas na chave da pobreza ou exclusão” (MAGNANI, 2003, p. 86).
Defrontamo-nos ao longo dos anos, nas atividades de ensino, pesquisa e extensão vinculadas ao Projeto Metuia/USP, com uma série de experiências de rua, vivenciadas em companhia de pessoas que tinham a rua como morada ou como espaço de trabalho (ou ambos). Para exemplificar esta dimensão da experiência da rua, cujo viés interessa-nos também poder observar, trago, como exemplo, breve relato sobre atividades de extensão, aliadas ao ensino e pesquisa ligados à experiência dos artistas de rua no centro da cidade de São Paulo, num momento histórico de transformação da cidade em processos de ordenação e “limpeza urbana”.
Interessa-nos, também, a percepção da circulação de símbolos religiosos presentes na estética produzida por diversos artistas, colaborando para mostrar ao leitor os contextos onde foram produzidas as atividades de campo. Vale lembrar, ainda, que diversos artistas alimentaram a vivacidade dos saraus do PEC, com notícias da rua que inspiravam suas poesias, canções, reflexões.