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V. CONCLUSION

5.1 Conclusions and discussion …

Cabe problematizar aqui a concepção que se institucionalizou no Brasil da dimensão ética na pesquisa. No prefácio de Antropologia e ética Gustavo Luiz Ribeiro (2004) discute a posição biocêntrica dos comitês de ética em pesquisa, especialmente preocupados com pesquisa em antropologia e saúde e em comunidades indígenas. A confusão entre “pesquisa em seres humanos” e “pesquisa com seres humanos” é um dos planos que o pesquisador destaca como problemático, visto que a aceitação e a confiança entre pesquisador e “pesquisado” são fundamentais para o desenvolvimento de pesquisa etnográfica, o que ocorre mediante um processo de convivência e aprendizado mútuos. Desta forma, o consentimento informado por escrito no início da pesquisa pode tornar constrangedor ou mesmo inviabilizar

o processo.

Vagner Gonçalves da Silva (2006) afirma que tal concepção linear de prática de pesquisa não corresponde ao processo de construção etnográfica do conhecimento. Em consonância com o pesquisador, é oportuno considerar a pesquisa — projeto de pesquisa, trabalho de campo e texto etnográfico — não como tarefa constituída por etapas consecutivas de procedimentos pré-definidos, mas como “processos que se comunicam e se constituem de forma espiral.” (SILVA, V.G., 2006, p. 27). Partimos, portanto, para um campo de reflexão teórico-metodológico e ético-político.

O trabalho de campo em pesquisa qualitativa, de acordo com Leny Sato e Marilene P. R. de Souza (2001), é um processo de convivência entre pessoas e a condução desse trabalho se estabelece mediante relações negociadas.

Comunidade pesquisada, interlocutor, colaborador, entrevistado, objeto de pesquisa e depoente, entre outros, são termos utilizados na pesquisa científica para qualificar (ou desqualificar) pessoas/grupos/comunidades pesquisadas. Como construções históricas, são termos carregados de conceitos e que definem certas opções teórico-metodológicas. Explicitamos, portanto, alguns referenciais teórico-metodológicos que guiaram o trabalho de campo, com vistas à discussão da relação pesquisador-pesquisado.

A interlocução com os colaboradores e as colaboradoras é perspectiva discutida e adotada por diversos pesquisadores com os quais procuramos dialogar no entendimento da relação pesquisador-pesquisado. Roberto Cardoso de Oliveira (2000) lembra que o trabalho etnográfico envolve o encontro com o “outro”, com o qual se procura estabelecer relações de cooperação, criando, desta maneira, uma relação dialógica.

Nessa perspectiva, as reflexões de Maria Luisa Sandoval Schmidt (2006) sugerem revisão das metodologias de pesquisa participante e de sua relação ética e política, e colaboram na compreensão e na construção da perspectiva da interlocução.

[...] alternativa de etnografias baseadas em vozes encena a ética das relações entre pesquisador e colaborador ou interlocutor, pondo em curso concepções do encontro etnográfico como diálogo, negociação e interlocução culturais. Nesta alternativa, a ética das relações entre pesquisador e pesquisado é erigida, por um lado, a partir do interesse do pesquisador pelos sentidos e significados atribuídos por seu interlocutor à vida social e, por outro lado, na focalização do próprio encontro como processo de conhecimento. Nestas atitudes vislumbra-se uma abertura para considerar o outro como parceiro na construção de interpretações da cultura e para empreender a reflexão sobre as relações de poder entre pesquisador e pesquisado, bem como sobre o sentido ou a utilidade da pesquisa etnográfica para um e outro (SCHMIDT, 2006, p. 27).

Deparei, assim, com a necessidade de desenvolver interpretações sobre grupos sociais, comunidades ou trajetórias pessoais. Contudo, tais grupos e pessoas produzem igualmente interpretações sobre diferentes ângulos, como: sua trajetória, aspectos relacionados ao seu grupo social, o tema da pesquisa que se realiza ou o que necessitam. Há, portanto, uma pluralidade de interpretações que precisam ser analisadas tanto durante o trabalho de campo como no processo de análise.

Oliveira (2000), aliado à perspectiva de Geertz (2008), destaca dois momentos da pesquisa etnográfica: estar lá (being there) e estar aqui (being here), relativos ao momento do trabalho de campo e à escrita etnográfica, respectivamente. Essa dupla situação da pesquisa etnográfica, destacada também por Schmidt, conduz à compreensão de que o pesquisador faz um percurso de interpretação diferente do colaborador. Para a autora, na situação de campo,

[...] pesquisador e colaborador fazem um esforço intelectual, cognitivo e afetivo de mútua compreensão, negociando a pertinência de determinadas temáticas, aprofundando a exposição de modos de sentir e de pensar, retomando aspectos lacunares, obscuros ou intrigantes dos relatos e das observações e reassentando, sempre que necessário, uma espécie de contrato ou pacto de trabalho compartilhado (SCHMIDT, 2006, p. 37).

Cabe lembrar, ainda, que o confronto das interpretações é dificultado pelas distâncias que separam pesquisador e pesquisado: diferenças de classe, idade, gênero, modos de vida e valores, entre outros. Como enfatiza James Clifford (1998), os textos etnográficos são orquestrações de trocas polifônicas em situações politicamente carregadas. As subjetividades produzidas nessas trocas frequentemente desiguais fazem parte de um campo de construção de verdades. Trata-se de trazer para o corpus descritivo do texto etnográfico as várias vozes que o modelam, evidenciando os interlocutores concretos tendo em vista a legibilidade, conforme sugere Vagner Gonçalves Silva (1991; 2006), ao retomar as contribuições de James Clifford.

2.2.1 Relatos orais, histórias de vida e a realização das entrevistas

Vale retomar as contribuições relativas ao debate sobre os relatos orais como forma de transmissão e produção de conhecimento. Schmidt (1990, p. 51) considerou que, na tradição oral, os relatos e histórias são objetos culturais que:

atualizam a experiência do passado, ao mesmo tempo em que se enriquecem com aquela do presente. A narrativa é preciosa, pois conecta cada um à sua

experiência, à do outro e à do antepassado, amalgamando o pessoal e o coletivo.

Ao discutir o uso das histórias de vida como forma de coleta de dados orais, Queiroz (1988) e Cipriani (1988) argumentaram a favor do uso da história de vida como frutífero “objeto de estudo”, que colabora com dimensões pessoais e coletivas. Queiroz (1988, p. 28) pontuou que

todo fenômeno social é total, dizia Marcel Mauss nas décadas de 20. O indivíduo é também fenômeno social. Aspectos importantes de sua sociedade e do seu grupo, comportamentos e técnicas, valores e ideologias podem ser apanhados através de sua história.

Apesar de concordar com a perspectiva da pesquisadora ao concluir que o dado biográfico não tem somente um conteúdo pessoal, mas tem pontos que o ligam à comunidade local e à sociedade mais ampla, Cipriani (1988) apontou alguns limites. Há de se considerar, em diálogo com o pesquisador, que esta prática não pretende atingir o nível da universalidade absoluta.

O que está em jogo, no entanto, é que, ao se trabalhar com histórias de vida, busca-se compreender, a partir da narrativa individual, a coletividade em que se insere o narrador (QUEIROZ, 1988). Há, ainda, um campo aberto de discussão sobre a temática, como as mais recentes discussões sobre (auto)biografia e alteridade e os relatos (auto)biográficos, além das contribuições de Meihy (2005) e das pesquisas ligadas ao Núcleo de Estudos em História Oral (NEHO) da USP.

Destacam-se algumas considerações sobre a realização das entrevistas. Consideramos a importância de que ocorressem de maneira a potencializar as narrativas e garantindo conforto aos interlocutores. Isso implicou construir o espaço das entrevistas, momento em que se explicita a relação entre narrador e ouvinte. Como parte da metodologia desta pesquisa, foram privilegiadas as escolhas dos locais do acontecimento das entrevistas pelos interlocutores, estratégia que já utilizamos em pesquisa anterior (GALVANI, 2008; GALVANI; BARROS, 2010). As entrevistas foram registradas em áudio e, dependendo do local e da relação estabelecida com o colaborador, também em registro audiovisual. Um documento audiovisual com tais imagens de seu próprio depoimento será disponibilizado aos interlocutores, quando for o caso.