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Para melhor compreender a existência de traduções mais voltadas para a fonte ou para o alvo, e as diversas nuances aí envolvidas, é necessário problematizar o estatuto do sistema literário infantil dentro da literatura em geral, bem como os estratos, ou subsistemas da literatura infantil.

Zohar Shavit (1986), discípula de Even-Zohar na Escola de Tel-Aviv, identifica na literatura infantil um sistema canonizado (oficial e pedagógico) e um não canonizado (popular e de entretenimento), estratos que se definem a partir do século XVIII. A princípio caracterizados pela oposição entre literatura dita “realista” e literatura fantasiosa, esses subsistemas redefinem suas características à medida que os modelos de fantasia passam a ser aceitos pelo núcleo canonizado e outros elementos ingressam no sistema não canonizado (SHAVIT, 1996, p. 176).

O estatuto de uma obra influi na maneira como ela trafegará no cenário internacional, ou mesmo chegará a ser conhecida em outros idiomas. Um livro ou um autor que viajam, por sua vez, terão seu estatuto elevado dentro do sistema de origem, sobretudo se oriundos de uma literatura mais desprovida de tradição. Daí as editoras aproveitarem-se do currículo internacional de determinada obra ou autor para os promoverem e legitimarem. Ao mesmo tempo, autores situados no segmento canonizado do sistema infantil tenderão a ser traduzidos de forma menos livre.

Segmentação semelhante é definida por Emer O’Sullivan (2005), quando fala dos modos pelos quais pode se dar a transmissão de clássicos infantis: tradução literária e transmissão oral pela escrita. O primeiro modo, considerado convencionalmente como uma boa tradução, ou uma tradução correta, pressupõe a inviolabilidade do original e costuma prevalecer na transmissão de clássicos da literatura adulta. Na literatura infantil, porém, predomina um segundo modo, caracterizado pela variabilidade e por mudanças no texto de partida a fim de adequá-lo aos novos tempos e ao público receptor. Isso implica especialmente redução e cortes nas obras: “[...] em vez de obras completas, encontramos compilações [...]” (O’SULLIVAN, 2005, p. 123). Mas em função de quê é determinado o modo como esses clássicos serão traduzidos? Segundo O’Sullivan, o principal fator é a origem do clássico: se originalmente escrito para crianças, como Alice, Pinóquio ou João Felpudo; se emprestado à literatura adulta, como Robinson Crusoe, Viagens de Gulliver ou Dom Quixote; se oriundo da tradição oral, como os contos de fada e de encantamento. Apenas o primeiro caso favorece o

que ela chama de tradução literária. Tal segmentação esclarece os comentários que fizemos anteriormente sobre, de um lado, as adaptações de Jansen ou Pimentel e, do outro, a tradução que João Ribeiro fez de Cuore. Jansen, lidando com textos oriundos da literatura adulta, e Pimentel, trabalhando com contos folclóricos, adaptaram livremente as obras para as crianças brasileiras. João Ribeiro, por sua vez, verteu um texto que já era infantil na sua origem, dispensando-se da tarefa de modificá-lo muito além do que exigia a diferença entre as línguas. Vê-se, portanto, que o sistema literário infantil se caracteriza por obras de origem bastante heterogênea. Esta é uma das razões pelas quais normas tão diversas são encontradas dentro de um mesmo sistema literário, em um mesmo momento histórico. Nas intersecções entre a literatura adulta e a infantil, entre os século XVIII-XIX e a literatura contemporânea, entre o cânone e o livro ilustrado, o que se traduz, quem traduz e como traduz? E, mais importante, o que essas traduções têm a dizer sobre os desenvolvimentos do sistema literário? Em relação à posição da literatura infantil no seio do sistema literário como um todo, Shavit (1986) observa seu caráter periférico, funcionando como um repositório de normas em declínio no sistema não infantil. Aqui, Shavit toma norma como um conceito mais amplo que aquele de normas de tradução (TOURY, 1995), referindo-se a tendências estéticas que predominam na sociedade em geral, em especial na literatura. Sua tese é assentada nas pesquisas de Phillipe Ariès (1962) acerca da história social da infância, que vê nela um depósito de costumes abandonados pelos adultos. Shavit (1986, p. 74) exemplifica esse fenômeno pela persistência do romantismo na literatura infantil em fins do século XIX:

O declínio do Romantismo no sistema adulto canonizado e a ascensão das normas do Realismo não implicaram um repentino desaparecimento das normas do movimento romântico. Em vez disso, como ocorre com frequência, as normas em declínio foram empurradas para a periferia do polissistema literário – o sistema infantil. Daí o sistema infantil serviu, como em muitos outros exemplos históricos, como um agente perpetuador. Ele absorveu normas que haviam perdido o poder no sistema adulto, mas que começaram a funcionar como as novas normas do sistema infantil.45

A partir do exame das diferentes versões alemãs do clássico sueco Pippi Långstrump (Pippi Meialonga, nas traduções brasileiras mais recentes, publicadas pela Companhia das Letrinhas), de Astrid Lindgren, Emer O'Sullivan (2005) observa o mesmo fenômeno em relação às normas de tradução. A princípio bastante livres e ambientadas, as primeiras versões

45 “The decline of Romanticism in the canonized adult system and the rise of the norms of Realism did not imply

a sudden vanishing of the norms of the Romantic movement. Rather, as is often the case, the declining norms were pushed to the periphery of the literary polysystem – to the children's system. Hence the children's system served, as in many other historical examples, as a perpetuating agent. It absorbed norms that had lost power in the adult system, but which began to function as the new norms of the children's system.”

de Pippi na Alemanha foram revisadas na década de 1980 – justamente quando se começava a discutir a sério a instituição de um cânone infantil:

Este exemplo mostra como um comportamento considerado inaceitável em um texto fonte pode ser modificado na tradução e como, após um lapso de tempo, durante o qual as normas mudaram, ela pode ser novamente aproximada do texto original. Mudanças gerais nas noções de aceitabilidade no nível do enredo no seio de literaturas infantis “estrangeiras, mas culturalmente próximas” são responsáveis por este retorno ao original, mas também o fato de que, no domínio dos clássicos infantis, ao qual Pippi Långstrump agora sem dúvida pertence, a prática tradutória mudou parcialmente no que havia sido anteriormente uma norma de tradução somente na literatura adulta canonizada – o respeito à integridade do original – agora é adotado em traduções “literárias” de clássicos infantis.46 (O'SULLIVAN,

2005, p. 73. Grifos nossos).

As versões mais recentes de Pippi na Alemanha revelam que agora os enredos suecos são aceitos como no original, não havendo mais a necessidade de alterá-los para adequar-se aos costumes e ideologias alemães. Trata-se de um exemplo de deslocamento das normas de tradução de um sistema central – a literatura adulta – para a periferia do polissistema literário – a literatura infantil.

No corpus desta pesquisa, buscamos avaliar em que medida se observa este retorno ao original, considerando o estatuto canônico dos textos fontes, o perfil dos tradutores e os projetos editoriais. A partir daí, refletimos acerca do lugar desta obras no sistema literário brasileiro e do seu significado para a nossa literatura infantil.