5. DISCUSSION
5.2 Discussion of the main results
5.2.2 Diagnostic delay and impact of treatment on self-rated health status
João Vaqueiro que ali estava, o mais prestimoso servidor da casa, cuja família a vinha servindo de pais a filhos, também tinha as suas queixas, se tinha! A formular contra aquele pé de cousas (RAMOS, 1964, p. 153).
A literatura, como linguagem universal, ocupa um lugar de destaque para expressar concepções e representações acerca dos homens, do mundo e dos lugares. Existe uma literatura que apresenta uma concepção de que o mundo rural é o espaço dócil, comportado, disciplinado. Como consequência apresenta os sujeitos que vivem neste espaço também articulados com estas características. Ainda é incipiente a produção literária sobre a realidade tocantinense. No entanto, quando nos valemos das obras produzidas na literatura goiana, também observamos uma forte presença de situações e relações sociais desse território que hoje forma o Tocantins.
A literatura regional goiana e, também em parte a tocantinense em razão de nossa “irmandade” durante longo tempo, é uma literatura que assumiu um estilo caracterizado pela descrição dos hábitos, costumes, problemáticas e modos de vida do homem simples do sertão. Quando tomamos esta literatura como um dos pontos de partida para a compreensão das relações sociais estabelecidas em diferentes períodos da história, verificamos que estamos incluídos nesta literatura e que o trabalhador rural, o sertanejo do Tocantins, é possível de ser visto e revelado nesta literatura.
Entende-se que a literatura é uma rica fonte de produção cultural e que os autores não apreendem apenas a realidade literária, no interior dessa variada produção, conto, romance, poesia e outras, eles falam da realidade social e histórica vivida pelos homens de uma determinada época. Nossa idéia é buscar na produção de alguns autores da literatura goiana e tocantinense a materialidade das relações sociais que envolvem o camponês, por intermédio da escrita literária (ARAÚJO, 2005). Como produção cultural, datada e situada no tempo e no
espaço e falando de um lugar específico: o homem e seu cotidiano, a literatura não está livre de (re) produzir discursos que contribuam com processos de dominação do homem.
De tal modo, a literatura também pode ser portadora de elementos que contribuam com tais formas de dominação, visto que a escrita literária define- se, ainda, como conhecimento representativo da realidade social, e dessa maneira pode expressar as contradições inerentes a tal realidade (Araújo, 2005, p.15).
Essa literatura regional, ao emprestar sentidos ao universo das experiências vividas no âmbito da história de segmentos excluídos da sociedade, como os camponeses e trabalhadores pobres excluídos da terra, constitui-se em elemento importante, pois os sentidos e significados atribuídos a esse vivido assumem um caráter dinâmico e polissêmico e de representação simbólica de importantes aspectos da realidade social. Os trabalhadores rurais sem terra, com longo histórico de sofrimento nas periferias das cidades, e com acesso a terra via pressão política, no contexto do enfrentamento do Estado e seus representantes, criam, recriam e negam representações sociais acerca dessas experiências.
Neste universo, a literatura assume papel importante de representação, de invenção e comprometimento com a realidade. Ianni (1999, p. 10) discutindo acerca de diferenças entre as ciências e as artes, afirma que
(...) a ciência e a arte podem ser tomadas como duas linguagens distintas, ambas compreendendo formas de conhecimento e imaginação. Ambas revelam algum compromisso com a realidade, taquigrafando-a ingênua ou criticamente, procurando representá-la, sublimá-la ou simplesmente inventá-la.
O contato com produções literárias de diferentes gêneros confirma que essa capacidade de “invenção” da realidade apresenta-se como um recurso para aproximar-se e representar ainda mais a realidade da qual o autor faz parte, negando e/ou afirmando visões de mundo. O que significa dizer que pela literatura, os autores percebem e falam de pessoas, crenças, valores, economia, política e tantas outras questões. Ianni (1999, p. 40) afirma ainda que:
Enquanto todo em movimento, o texto sempre expressa, traduz, sugere ou induz alguma forma de percepção, compreensão, entendimento, representação ou fabulação. Mesmo que esteja radicalmente dissociado de qualquer contexto, necessariamente expressa ou induz algo que resulta do processo de elaboração realizado pelo autor, da sua criação. Como é óbvio, a criatura nem sempre se comporta como pretende o criador. Este é o momento em que o texto pode revelar algo ou muito de uma situação ou conjuntura. Há ocasiões nas quais o texto pode ser uma excepcional síntese de tensões e vibrações, inquietações e perspectivas, aflições e horizontes de indivíduos e coletividades, em dada situação, conjuntura ou emergência. Nesse sentido é que algumas obras da literatura (...) podem ser e têm sido tomadas como sínteses de visões do mundo prevalecentes na época.
Compreende-se também que nem sempre o autor tem a intencionalidade de produzir uma obra, visão de mundo, que esteja articulada geograficamente com os lugares e os tempos de forma absoluta. O próprio autor é parte da realidade, do tempo e do espaço que está re- criando literariamente. Conforme aponta Araújo (2005, p. 22):
O autor não está fora da vida cotidiana e ao produzir sua obra ele não se distancia da realidade, pois nela está imerso. Ele não é um indivíduo abstrato, mas um ser situado sócio-historicamente, um ser real que por meio do recurso linguístico representa a realidade, transmitindo ao leitor seus sentimentos, convicções e ideologias. Desse modo, a literatura demonstra-se fundamental para a compreensão de processos
correntes em determinados agrupamentos sociais, visto que recria aspectos culturais que exprimem a vida social de um povo. (Grifo meu).
A literatura regional de Goiás e Tocantins contribui para ajudar-nos a apreender elementos constitutivos das culturas e identidades dos homens que ocuparam e ocupam esses territórios, além de ser elemento chave na constituição do pertencimento a determinado lugar. Isso pode ser visto no pensar de Pessoa (1996, p. 167):
[...] podemos conhecer muito sobre a nossa realidade social goiana através de nossa literatura. A relação entre campo e cidade, a organização social específica do sertão goiano, as relações de trabalho, de idades e de gêneros, as festas populares, a religião na vida da gente camponesa – tudo parece ter uma compreensão significativa nos nossos textos literários.
É neste sentido que vou tomar como referência obras de cinco autores clássicos da literatura goiana: Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921), Bernardo Élis (1915-1998), Carmo Bernardes (1915 – 1996), Bariani Ortêncio (1923 -) e, Eli Brasiliense (1915-1998). Além de um autor da literatura tocantinense: Moura Lima (1950- ). Não há pretensão de fazer uma hermenêutica de cada autor e de suas obras, mas apresentar, de forma sintética, elementos da constituição de nossa realidade a partir da linguagem da literatura, na perspectiva desses autores.
Os cinco autores de Goiás (lembramos que Eli Brasiliense é um autor tocantinense de Porto Nacional, mas radicado em Goiás há muitos anos) expressaram seu pensar acerca do homem e da realidade do campo e da cidade num contexto histórico específico e que pode ser “caracterizado como o período da primeira República; o período do governo getulista; o período de 1946-1964, e de 1964 até o final da década de 1970”, estendendo suas influências até a atualidade no pensar dos autores tocantinenses, de acordo com Araújo, (2005).
Após a Proclamação da República observa-se que o Brasil começou a dar os primeiros passos rumo à sua industrialização e considerando todo o processo colonizador, com resquícios dessa estrutura ainda na atualidade, verifica-se que a sociedade brasileira se
estrutura tendo por base os trabalhadores rurais e uma classe dominante formada majoritariamente por latifundiários. Vasconcellos (2001), em obra que analisa um “movimento camponês messiânico” acredita que a sociedade goiana reproduziu esse quadro e sua lógica político-cultural de funcionamento e sustentação: “afilhadismo, coronel-fazendeiro, o compadrio” (p. 69). Este autor diz que
O afilhadismo, fenômeno muito conhecido na literatura política e sociológica, era a maneira de que dispunha o coronel para fazer manter em sua dependência famílias inteiras ou mesmo agradecer o apóio dos eleitores, conseguindo cargos na administração pública estadual ou municipal (VASCONCELLOS, 2001, p. 69). E continua este autor afirmando que a descrição da sociedade goiana durante a República Velha está articulada com as atividades desenvolvidas pela população e que neste quadro
A posse da terra era uma condição de classe, uma vez que a atividade junto a ela era a única forma de trabalho e o latifúndio a forma de propriedade mais encontrada, além de serem seus possuidores os donos dos instrumentos de trabalho e do capital para fazê-los reproduzir (p. 71).
Hugo de Carvalho Ramos é um literato que escreveu obras de cunho social e político, retratando os habitantes do sertão de Goiás e que apresentava uma compreensão de que esses sujeitos se dividiam entre caipiras, caipiras isolados e sertanejos, conforme Souza (1978, p. 81-84).
Os primeiros habitavam próximo às fazendas de plantação, situadas nas imediações das vilas. O caipira isolado, considerado pelo autor como Pseudo Sertanejo, é aquele que vive às margens das vias de comunicação, em contato direto com a civilização. Isolado porque a unidade básica de Hugo de Carvalho Ramos é o sertão, base geográfica de povoado, vila e latifúndios. Já o sertanejo para o autor é alguém que toda a vida se resume, por assim dizer, na criação do gado e das manadas cavalares. Vivendo a vida livre do campo, certo é que as condições de resistência desses nossos legítimos e bem denominados sertanejos, são muito diversas do que por aí se tem ultimamente apregoado, a dar ensanchas à natural versatilidade do temperamento indígena. (...) mas a sociedade goiana e a pecuária também produziu outros tipos: o agregado, o ferreiro, o passador, o administrador, o capanga, o correio, o condutor, o arrieiro, o carreiro, o boiadeiro e o tropeiro.
O processo de ocupação do território goiano e tocantinense não foi uma obra do acaso
e que vem acontecendo articulado com processos mais amplos da sociedade nacional e de diferentes interesses de grupos dominantes, primeiro da Europa, via colonização, mais tarde e na atualidade, por aqueles que assumem o controle dos processos de exploração dos mais pobres em nosso país, negando a estes o direito de ter acesso a condições mínimas para se constituir como gente, inclusive o estado brasileiro. Ao longo de nossa história esse processo esteve marcado por diferentes leituras, dentre estas, a leitura do mundo moderno, industrial,
desenvolvido, que supostamente trouxe solução para todos os problemas e que aqueles que pensam, vivem e interpretam este processo numa outra perspectiva são considerados resíduos do atraso.
A rica contribuição da literatura brasileira que explora e ajuda a construir diferentes sentidos à história e à formação sócio-cultural da sociedade brasileira em diferentes contextos históricos, é importante para uma análise de questões relevantes situadas neste percurso da ocupação do território goiano e tocantinense. Há várias obras de diferentes gêneros (contos, romances e outros) que são elementos importantes para o entendimento da relação com a terra, da discussão do moderno e do atrasado, das características do homem do sertão, sua relação com a cidade e outras questões que compõem o quadro do pensar neste processo de compreensão da relação dos homens com a terra, no campo e na cidade. Os sujeitos sociais retratados nessa literatura vivem em um universo de expropriação, exploração e são quase sempre mediados por questões relacionadas à terra.
Hugo de Carvalho Ramos, publicou pela primeira vez em 1917 seu livro de contos denominado Tropas e Boiadas (2001). Nesta obra o autor apresenta quinze contos, que de forma poética apresenta o homem do campo, o universo sertanejo goiano e as relações sociais desses sujeitos nos locais onde vivem. Em seus contos vemos a descrição de diferentes tipos sociais como tropeiros, boiadeiros, vaqueiros, peões, agregados, meeiros, homens da lei, proprietários de pequenos comércios, “todos submetidos ao jugo dos fazendeiros e coronéis” (Araújo, 2005), realidade a que estavam submetidos os camponeses do passado, mas isso não os impediu de continuar existindo.
Em sua produção esse regionalista oferece boas informações sobre o mundo rural goiano do início do século XX. Na obra Tropas e Boiadas, há um conto “Gente da Gleba”, no qual o autor retrata a tradicional relação dos peões e vaqueiros nas fazendas, todos trabalhando fielmente para o coronel e seus familiares a quem devotavam dedicação e obediência.
Geralmente, o empregado da lavoura ou simples trabalho de campo e criação, ganha no máximo quinze mil-réis ao mês. Quando tem longa prática no traquejo e é homem de confiança, chega a perceber vinte, quantia já considerada exorbitante na maioria dos casos. É essa a soma irrisória que deve prover às suas necessidades. Gasta-se em poucos dias. Propicia então a tomar emprestado ao senhor. Dá-lhe este cinco hoje, dez amanhã, certo de que cada mil-réis que adianta, era um elo acrescentado à cadeia que prende o jornaleiro ao seu serviço. Isso, no começo do trato; com o tempo, a dívida avoluma-se, chega a proporções exageradas, resultando para o infeliz não poder nunca saldá-la e torna-se assim completamente alienado da vontade própria. Perde o crédito na venda próxima, não faz o mínimo negócio sem pleno consentimento do patrão, que já não lhe adianta mais dinheiro. É escravo de sua dívida, que, no sertão, constitui hoje em dia uma das curiosas modalidades do
antigo cativeiro. Quando muito querendo dalgum modo mudar de condição, pede a conta ao senhor, que fica no livre arbítrio de lha dar, e sai à procura dum novo patrão que queira resgatá-lo ao antigo, tomando-o ao seu serviço. Passa assim de mão em mão, devendo em média de quinhentos a um conto e mais, maltratado aqui por uns de coração empedernido, ali mais ou menos aliviado dos maus tratos, mas sempre sujeito ao ajuste, de que só se livra comumente, quando chega a morte (Ramos, 2001, p. 107-108).
No conto o autor descreve uma geografia da “escravidão por dívida” e como o trabalhador rural pobre, sem terra perambulava de um lado para outro, mas sempre submetido à dominação dos grandes proprietários de terras. Os camponeses assentados do Brejinho falam dessa experiência em suas vidas ou do conhecimento de gente que viveu essa situação em fazendas da região de Miracema do Tocantins e em outras regiões, em um período bem posterior ao descrito pelo autor do conto.
É moço pra num vê os meninos e a mulher passando necessidade agente passa por mau bocado. Essa história de dar terra de morar de graça, naquela época era assim, mas depois agente via que saia era caro. Fazenderão fazia muito pasto, despejava gado na terra e começava o purgatório que você bem já conhece pra essas bandas, na vidinha de pobre. Gado comia roça e ai o sujeito tinha de comprar os mantimentos de comer na rua. E pagar de que jeito? O socorro era o patrão, mas aí o cabra descobria o que era os infernos, virava assim um tipo de gente que tinha de ser tudo pro patrão, morria de trabalhar com a família e a conta nunca que se findava. Ouvi muitas dessas histórias pra essas bandas nossa aqui e no Maranhão (...). Hoje até que de mudou um pouco (Entrevista de Trabalhador assentado do Brejinho-2012). O espaço e as relações sociais descritas por Ramos (2001), mas também o quadro apresentado a partir da memória de um trabalhador que esteve, ele próprio (ou ouviu a repetição desses casos vividos por outros), envolvido em uma relação dessa natureza indica que essa foi uma característica da sociedade goiana e tocantinense no processo de sua formação histórica, cultural e territorial num quadro de profunda opressão e negação de importantes aspectos da vida. Como afirma Palacin (1990, p. 33):
A literatura de Hugo de Carvalho Ramos, e mais tarde a de Bernardo Élis, nos tem acostumado a ver a vida do camponês sob o jugo do coronel como um quadro sombrio de sordidez e opressão; os estudos sobre o coronelismo destacam os aspectos de dependência total, prepotência e irracionalidade; em Goiás, em concreto, a descoberta ou a redescoberta da lei de contrato de locação de serviços tem levado os historiadores a falar de uma situação de verdadeira escravidão legal.
Bernardo Élis, escritor regionalista goiano de renome nacional e que usa em suas descrições sobre o homem e os lugares onde ele vive nos sertões ou nas cidades, uma crueza muito forte para retratar a vida do homem goiano. Na obra “Veranico de Janeiro”, ele apresenta um conto com esse mesmo nome. Neste conto ele fala de Isidoro que é um trabalhador que anda pelo sertão, trabalhando na diária, de fazenda em fazenda. Ao ficar
doente, morre desamparado, perambulando na periferia de uma cidade. Na obra “Quarto Crescente – Relembranças” (1986), o autor num exercício de buscar as memórias de sua trajetória de vida de menino até a vida adulta em Goiânia, fala acerca do processo de expansão da fronteira agrícola, dos meios de transporte e do costume alimentar em Goiás nos anos de 1930 e afirma que:
[...] o carro de bois, com suas boiadas numerosas, sempre aparelhadas na cor, na idade e nos tipos, esteve em pleno fastígio, devido a estarem longe de alcançar o interior de Goiás, a estrada de ferro e o caminhão como meio de transporte. A produção agrícola alcançava bom preço nas praças de Vianópolis e Pires do Rio, ponta de linha da via férrea, e os carros enfileiravam nas estradas durante a quadra da safra, fazendo um risco contínuo de poeira, e acordando os ermos com a latomia do rechinar menocórdio de muitos carros enfileirados uns após outros. Nos pousos, animados pela colegama reunida, a janta pesada de arroz com carne seca e feijão com toucinho cozido dentro (BERNARDES, 1986, p. 153).
O autor retira de suas próprias memórias elementos importantes da composição da realidade social, cultural, econômica, religiosa de Goiás, trazendo com maestria a constituição de relações sociais típicas do espaço goiano e tocantinense. E ele continua esse processo de situar como alguém de dentro dessa realidade apresentando de forma dicotômica a relação campo-cidade e demonstrando ai neste universo as dificuldades vividas pelas populações do campo:
Em 1945, saí da roça definitivamente12. Cheguei animado em arrumar um meio de vida mais folgado, abandonar os ofícios que meu pai me havia ensinado. Também tudo o que havia aprendido na roça era de pouco valor na cidade, ou nenhum (Bernardes, 1986, p.189).
Bernardes (1986) retrata ainda o sertanejo goiano/tocantinense apresentando-o com uma descrição próxima “dos mínimos vitais e sociais” descrita por Antonio Cândido em sua obra “Os parceiros do Rio Bonito”. Assim se expressa o autor sobre o sertanejo:
A vida levada pelos indivíduos da minha camada social, só pode ser muito singela, assim como também os feitos desses caipirinhas da minha iguala são banais e medíocres. Estas recordações só servem é para tornar o bicho caipira um animal mais conhecido, e mostrar o quanto nossa vida na roça, pelo menos naqueles tempos, era simples, descomplicada, e como decorria serena e ausente de tudo o que
12Numa outra parte do território goiano (Tocantins) vivi processo semelhante: em 1970 cheguei na cidade de Miracema do Tocantins vindo da roça com os outros membros da família. Quando em 1981 fui para Goiânia (trabalhar e investir nos estudos) percebi que minhas experiências anteriores não seriam muito úteis na capital. Minhas experiências de trabalho eram todas mediadas pelo trabalho na roça (roçar pasto, limpeza de roça de arroz, feijão, milho, mandioca, ser oleiro – fazendo tijolos e telhas). Para que serviriam essas experiências numa cidade como Goiânia e no interior de uma instituição pública de ensino superior, a universidade na qual eu estudava? Mas foi também do interior desse processo contraditório que fui dando outros rumos para a vida e o trabalho. Inclusive me encontrando comigo mesmo no trabalho docente posteriormente.
acontecia pelo mundo (p. 163-164).
Dinheiro na roça não corria, não havia trabalho assalariado; e, a bem dizer, comercialização de nada. Todo mundo só fazia para comer, ninguém pensava em fazer mais porque não havia para quem vender. Se se virasse de cabeça pra baixo a maioria daqueles rapazes era perigoso não cair dos bolsos deles nem mesmo lasca de fumo. Vivíamos todos num miserê desgraçado, como lá diz: rapando tatu com machado, mas a nossa pindaibite em nada obstava nossa alegria de viver. Ali estavam as provas de que ninguém sofre necessidade daquilo que ignora [...] miséria só é miséria quando há desigualdade (p. 177) (Grifo meu).