Chapter 5: Presentation of results, interpretation and discussion
5.5 How is development and education related to ADA in practice?
A Internet provocou finalmente novas experiências jornalísticas. Hoje, o jorna- lismo cidadão surge como a segunda fase do jornalismo público fortemente relacio- nada aos avanços no jornalismo online. O Grupo de Interesse de Jornalismo Cívico da Associação para Educação em Jornalismo e Comunicação de Massa que começou em 1994, durante os anos de formação do jornalismo público, voltou-se para novas maneiras de expressar o empenho cívico, especialmente através do jornalismo online, alterando o seu nome para Jornalismo Cívico e do Cidadão.
De acordo com Nip (2006:12) o "jornalismo participativo" tem algumas particu- laridades distintas de jornalismo cidadão. Foi cunhado dentro do jornalismo tradi- cional, aceitando a ideia de dar aos utilizadores a oportunidade de expressar as suas opiniões sobre assuntos públicos. A colaboração é solicitada dentro de um quadro desenhado pelos profissionais através das seguintes categorias gerais:
• i) a participação do público na imprensa tradicional incluindo weblogs associ- ados, que incorporam comentários dos leitores, enviado através de e-mail ou colocados directamente em caixa de comentário;
• ii) blog´s sancionados pelos editores mas escritos por pessoas do exterior; • iii) fóruns;
• iv) artigos escritos por leitores;
• v) fotos, vídeos e relatórios enviados pelos leitores;
• vi) sites de notícias e informações que editam trabalhos de escritores indepen- dentes que fornecem entrevistas originais, pesquisa e relatórios previamente filtrados por profissionais.
A diferença entre o jornalismo cidadão e o jornalismo participativo reduz-se à intervenção ou a ausência de jornalistas profissionais (cf. Nip, 2006:14). Ao invés deste ponto de vista, considera-se que os pontos comuns e diferenças significativas de jornalismo online devem situar-se na sua contribuição para a esfera pública e e par- ticipação democrática. Aqui surgem duas perspectivas muito diferentes sobre o que diz respeito à vida pública: no jornalismo participativo, a participação das audiências e do público afirma-se como uma forma (a nosso ver, improvável) de corrigir o jorna- lismo tradicional. A ideologia subjacente apoiada pelos defensores e praticantes de jornalismo participativo enfatiza a distinção entre utilizadores activos e comprome- tidos e jornalistas encerrados na torre de marfim de suas práticas de rotina e normas profissionais.
No caso do jornalismo cidadão afirma-se o seu compromisso com a detecção e discussão de problemas colectivos. A distinção não é apenas sobre a interactividade com redações mas também sobre a qualidade da interacção entre os cidadãos. A pre- ocupação do jornalismo do cidadão, ou como se prefere, um jornalismo deliberativo, não é mais apenas sobre a superação dos limites do profissionalismo jornalístico mas vai além e tenta superar os limites impostos sobre a cidadania e sobre os jornalistas pelos definidores primários.
Neste sentido, o conteúdo e as forma de comunicação podem adicionar ao fenó- meno que apresentamos como jornalismo deliberativo uma diferença específica que se traduz em dois níveis:
• a) o interesse e pertinência da informação produzida para a vida social; • b) a preocupação de descobrir métodos de auscultação dos cidadãos e das suas
práticas que se traduzam na qualidade e inclusão do diálogo efectuado com os utilizadores;
• c) a manutenção de um mediador - jornalista - que permaneça sintonizado com a natureza social das notícias e acrescente às suas competências a percepção do ambiente social, a capacidade de colocar a comunidade a falar de si e, até, ocasionalmente, a falar por si.
Ao distinguir-se desta forma, o jornalismo deliberativo manteria muitas caracte- rísticas do jornalismo público. Eventualmente careceria de uma maior sistematização teórica que o distinguisse das propostas comunitaristas, das quais não se consegue diferenciar exactamente por não conhecer conceitos como "sociedade civil", "comu- nidade" e "proximidade", "diálogo" e "deliberação". Precisaria de um maior rigor metodológico que assumisse essa dimensão deliberativa expressa em géneros e defi- nição de estilos que, transpostos para a Internet, fossem justamente indutores de uma maior inclusão dos cidadãos nos assuntos públicos.
Por um lado, define-se uma clara distinção em relação ao jornalismo participativo ou colaborativo. Ao conceber "participação" sem se interrogar sobre "o quê" e "para quê", os jornalismos que não reflectem criticamente sobre o papel dos utilizadores assumem a participação como virtuosa em si mesmo, quando é verdade que há muitas formas de participação que nem sequer revestem a dignidade de uma colaboração quanto mais de uma conversação cívica.
Ao optar-se por uma participação "não importa como nem sobre quê" encara- se o espaço público através de um modelo que estabelece uma equivalência entre a dinâmica política e o mercado. Esta é a questão que parece mal resolvida nos debates sobre o jornalismo participativo: a diferença entre participação e escolha ou mesmo entre participação e acção individual com vista à obtenção de gratificação. A notícia é eminentemente social: é um processo, em que a sociedade se relata a si própria. A
individualidade e a idiossincrasia podem alimentar essa dimensão social - alimentam concerteza - mas, simplesmente, não a podem substituir.
Resta saber que tipo de relações manteria o jornalismo deliberativo com um jor- nalismo comunitário de causas, semelhante aquele que se identificou na alínea a). Certamente aproximar-se-ia muito daquele ao debruçar-se sobre a identificação de problemas e a prestação de serviços à comunidade. Porém, quando o jornalismo se dilui no movimento social ou se identifica com ele há alguns aspectos que convém ressalvar. O jornalismo deliberativo estará comprometido com a definição conflitual de bens comuns e com a legitimidade das decisões e opções colectivas que impli- quem os cidadãos. No limite, nas situações de fechamento, esse compromisso passa pela recusa em perder a sua dimensão e identidade de "jornalismo", assumindo o conflito como preservação da própria deliberação. Aí, os modelos deliberativos pa- recem evitar o problema pois toda a sua arquitectura é vivida em função de situações democráticas legítimas e normais.
Assim, haverá ocasiões em que o jornalismo deliberativo, acrescentando valor a dimensões da democracia liberal, aprofundará questões como sejam a legitimidade decisória, a qualidade da participação, a prestação de contas e a responsabilidade social dos titulares do Estado.
Haverá outras em que o problema não será a burocratização mas a exclusão, a violência e a coerção. Ai a própria noção de deliberação não permite que o consenso se torne um novo horizonte, porque a obtenção de um novo consenso, de um novo contrato social e político exigira um esforço emancipatório acrescido.