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Conclusion

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Finalmente, há um ponto que distingue o jornalismo deliberativo do discurso po- pulista do "faça-você-mesmo". De forma mais ou menos radical, as competências jornalísticas acabam por ser insistentemente questionadas sejam no sentido da sua refomulação seja no sentido da sua quase-dissolução, através de uma passagem da crítica à ilusão da participação e transparência universais.

O problema é antigo e tem a ver com a própria reflexividade dos jornalistas sobre a sua profissão. Porém, olhar para o conhecimento e para as competências dos jorna- listas em termos exclusivos da sua relação com processos de controlo social parece uma preocupação obsessiva de alguns discursos online.

Desde logo, desvia a atenção de questões essenciais, estabelecendo uma dicoto- mia errónea entre conteúdos gerados pelo utilizador e discursos gerados pelos profis- sionais. Expressa uma crise de confiança e de legitimidade das especializações que aflorou nos anos de vigência intelectual do "pós-modernismo" e hoje, curiosamente, aparece associada a discursos produzidos no contexto do pensamento neo-liberal, originando a ideia de que os jornalistas seriam uma elite geradora de inércia social

que urge decepar e substituir pelos conteúdos gerados pelos utilizadores. Adicional- mente, parece desconhecer dois factos: o primeiro é que os conteúdos gerados pelo utilizador não são todos virtuosos, reflectindo as contradições da sociedade civil que, igualmente, não é em si mesma boa ou má. O segundo é que os constrangimentos dos jornalistas encontram-se, por vezes, a montante da sua actividade profissional, não se podendo ignorar a hipótese que os mesmos constrangimentos se exerçam sobre a so- ciedade civil e os utilizadores.

Finalmente, alguns dos discursos "faça-você-mesmo" ignoram ou pelo menos, relativizam quaisquer competências de apuramento narrativo, verificação dos factos e técnicas de pesquisa das fontes. A insistência no manuseamento das ferramentas faria esquecer que há peças jornalísticas que reclamam competências de produção e de descodificação em que se aliam de forma particular sensibilidade estética (seja no multimédia, seja no audiovisual seja na escrita) inteligência, capital cultural, criativi- dade e o espírito crítico que vão além de uma visão degradada do senso comum.

Nesse sentido, a imaginação e a criatividade (resgatadas pelo reconhecimento da proximidade do jornalismo em relação à comunidade) será uma das formas de olhar o mundo que atenue as componentes mais rígidas de uma concepção demasiado rígida da profissionalização.

A associação do "saber" ao "poder", uma das fontes da crítica ideológica, lançou uma suspeita radical sobre todos os mecanismos que geram processos de significa- ção gerando equívocos: como todo o "saber" seria "poder", isto é teria interesses e motivações estratégicas na sua raiz e como todas as competências especializadas são formas de atribuir a determinadas elites profissionais o poder de configurarem a reali- dade, as próprias competências e a institucionalização de profissões devem tornar-se objecto de suspeita.

O conceito de "desprofissionalização" inclui um conjunto de factores: a evolução tecnológica que difunde o exercício das competências profissionais já não apenas aos iniciados mas também aos leigos; a desvalorização das competências através da re- valorização progressiva dos saberes empíricos, susceptíveis de serem aprendidos por pessoas sem formação académica; a crítica crescente, por parte dos consumidores ao elitismo e à impunidade dos profissionais e a reivindicações progressivas dos pú- blicos no sentido de uma maior participação nas decisões dos próprios profissionais (Fidalgo, 2008:53).

O movimento crítico em relação às competências jornalísticas ocasionou o abai- xamento dos níveis de exigência de responsabilidade social e profissional.

A reflexão sobre as fontes foi torneada de uma forma equívoca pois os processos de dominação seriam identificados com as próprias elites jornalísticas (o que revela as debilidades críticas desta forma de pensar) aos quais se oporiam, numa apressada linguagem pretensamente deliberativa, as comunidades de leitores iluminados.

o direito de multiplicar exponencialmente o direito a qualquer comentário, qualquer que seja a sua pertinência. A capacitação mediática de múltiplos agentes dos quais nem todos são cidadãos iluminados por virtuosas intenções cívicas, mais justifica que, em lugar de pedir a diminuição da competência especializada dos jornalistas, antes se peça a sua transformação, no sentido duplo da sua adaptação e reforço.

Nesta situação complexa, o discurso dito participativo na sua deriva populista pode ser uma forma de descapacitação dos jornalistas não em prol dos públicos mas de múltiplos agentes de poder. O jornalismo deliberativo (inclusive e, particular- mente, o jornalismo deliberativo online) que aqui se mencionou não será pois uma demissão das competências especializadas mas o seu refinamento no sentido de uma relação mais profíqua com a comunidade.

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Jornalismo interactivo e vida cívica: pode o online tornar o

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