4 KJEMISK ANALYSE
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Muitas das características das entrevistas realizadas no interior do Projeto NURC/SP já foram apontadas nos itens anteriores. Entretanto consideramos pertinente discutir o grau de formalidade presente nesses eventos.
Vale ressaltar, ainda, que realizadas para fins de análise sociolinguística – o objetivo do Projeto NURC é registrar e descrever a norma culta urbana efetivamente realizada pelos falantes brasileiros – essas entrevistas são classificadas por Castilho (apud Urbano, 1988: 1) em dois tipos básicos: “entrevista narrativa” e “entrevista gnômica ou instrucional”. O primeiro tipo constitui um relato em primeira pessoa, de caráter intimista, no qual o informante discorre sobre alguma vivência passada que tenha alguma relação com o assunto proposto. O segundo caracteriza-se como “um depoimento de caráter impessoal e genérico sobre alguma atividade”. Esses dois tipos frequentemente ocorrem no interior de uma mesma entrevista, ocasionando
segmentos gnômicos e segmentos narrativos num mesmo diálogo.
Um traço bastante típico da maioria das entrevistas em questão são os turnos mais longos do entrevistado. No caso das entrevistas do NURC/SP, a
extensão dos turnos do informante liga-se a um fator relevante para a análise desses eventos: o grau de formalidade. Ao tratar desse aspecto, Urbano (1988: 5) distingue entre narração e conversação. Apoiando-se em ideias de Criado de Val, o autor assevera que, nesta última, a intersubjetividade provoca um alto grau de envolvimento entre os participantes, sem o qual “a estrutura dialógica da conversação se altera para uma estrutura monológica de caráter descritivo, dissertativo ou narrativo.” Para o autor (1988: 6), “a linguagem das conversações ou diálogos seria então não só mais natural, como também, em regra, mais informal do que a das narrações e monólogos, recolhidos pelo Projeto NURC.”
Ao tratarmos dos conceitos de formalidade em oposição à informalidade é preciso ter em conta que não estamos diante de dois extremos, mas antes de um continuum. Esses conceitos ligam-se diretamente ao problema de registro ou níveis de fala, variação linguística decorrente da situação comunicativa que inclui o espaço físico em que se dá a interação, o grau de intimidade entre os interlocutores (Cf. Preti, 2003: 37), o tipo de temática (especializada ou não), bem como o tipo de relação social e funcional entre os participantes da interação (Albelda Marco, 2004: 110).
A análise comparativa entre entrevistas de caráter sociolinguístico e gravações secretas de conversações espontâneas no espanhol, tendo em vista os parâmetros situacionais mencionados, leva Albelda Marco (2004: 111-112) a classificar as interações do primeiro tipo como semiformais e as do segundo como tipicamente informais. Urbano (1988: 3), de modo semelhante considera que as entrevistas do NURC/SP, se comparadas às elocuções formais e aos diálogos entre dois informantes recolhidos pelo Projeto, no que diz respeito ao grau de formalidade, ocupariam uma posição intermediária entre os outros dois tipos de interação. Desse modo, para o autor, as entrevistas “apresentam, ao mesmo tempo, marcas de formalidade presentes nas EF e de informalidade, patentes nos D2”. Entretanto, é necessário considerar que, de modo geral, os inquéritos do NURC, em decorrência das próprias condições de gravação, sempre com o conhecimento dos informantes, situam-se numa posição mais ou menos intermediária no continuum formalidade / informalidade.
Importa ressaltar ainda que, de modo geral, nas entrevistas do NURC/SP, predomina o interesse pela forma linguística em detrimento do conteúdo informativo. Desse fator derivam algumas peculiaridades destacadas por Barros (1991: 260) tais como “os elementos fáticos, as perguntas sobre questões já mencionadas e as perguntas repetidas”. Tais marcas de organização textual evidenciam a necessidade de o entrevistador sustentar por um tempo maior a conversação. Além do mais, esses elementos, associados ao pouco interesse pela informação, conferem a essas entrevistas “um estatuto particular” uma vez que “as relações não se sustentam nem por meio da troca de informações, nem graças a relações intersubjetivas fortemente estabelecidas, já que o diálogo se abre para outros destinatários” (p. 261). Assim, os laços interacionais podem ser caracterizados como frouxos.
Urbano (1988:7) elenca, ainda, uma série de características presentes nas entrevistas do projeto NURC/SP, as quais transcrevemos a seguir:
1. planejamento conversacional, característico das entrevistas, por parte do documentador, e presença de gravador, circunstâncias que criam certo formalismo situacional, com reflexos na linguagem;
2. relacionamento assimétrico dos participantes com a interação orientada pelo documentador. Este – é bem verdade – muitas vezes procura quebrar esse formalismo, tentando facilitar um diálogo interativo e uma fala natural do entrevistado. Mesmo assim fica difícil reconhecer nessas entrevistas dois interlocutores que se alternem regular e espontaneamente, como deveria ocorrer numa estrutura realmente dialógica;
3. intersubjetividade ou intercâmbio esporádico (perguntas raras e breves do documentador, com longos turnos do informante, que representam respostas, porém descaracterizadas como tais); 4. tensão coloquial fraca – principalmente afetiva – por falta de
dinamismo na interação e interlocução conversacionais;
5. estrutura dialógica frequentemente alterada para uma estrutura monológica de caráter descritivo, dissertativo e, principalmente, narrativo, frequentemente com estruturas sintáticas completas;
6. certo distanciamento entre os falantes, embora, normalmente, o documentador procure minorar tais condições no momento da entrevista.
Vale ressaltar que, caracterizada, de modo geral, como interação face a face, a entrevista constitui um evento comunicativo adequado à análise de recursos linguísticos de manifestação de cortesia, pois é na imediaticidade da interação que melhor se explicitam os aspectos ligados ao nível da relação
interpessoal. Diante dessas considerações passaremos a tratar, no item seguinte, dos aspectos relativos ao fenômeno da cortesia verbal.