interlocutor.
2.2.2.1. Os estudos pioneiros
Para alguns autores os estudos fundadores da cortesia remontam à teoria das máximas conversacionais postuladas por Grice13
(1975, citamos pela tradução portuguesa de 1982) em que o autor apresenta sua formulação do princípio cooperativo na conversação, o que, para Boretti e Rigatuso (2004: 139), relaciona-se com a cortesia, ainda que indiretamente. Já para Bravo (2004: 7), às máximas de Grice poder-se-ia acrescentar “uma máxima de cortesia que estabelece os princípios que os falantes devem respeitar nesse aspecto para serem cooperativos”. Brown e Levinson, (1987), por sua vez prevêem uma série de estratégias de cortesia que seriam verdadeiras violações das máximas griceanas. Para Kerbrat-Orecchioni (2004), as violações a tais máximas só poderiam ser explicadas em nome da cortesia.
Nesse sentido, Lakoff (apud Silva, 2008) é um dos primeiros teóricos a adotar os postulados de Grice (1975), fazendo uma releitura de suas máximas conversacionais. Para esse autor, as referidas máximas nem sempre têm de ser respeitadas em nome do princípio cooperativo, pois o falante, ao respeitar a máxima “seja claro” pode correr o risco de interromper a interação. Assim o locutor poderá lançar mão de alguns recursos que lhe possibilitem a abordagem de temas ou assuntos mais polêmicos sem que, com isso, tenha de ver a interação comprometida. Desse modo o autor propõe um conjunto de
13Ao formular o princípio de cooperação no intercâmbio conversacional, Grice (1982: 86-87)
prevê quatro categorias – Quantidade, Qualidade, Relação e Modo – “sob uma ou outra das quais cairão certas máximas e submáximas mais específicas, que produzirão, em geral, resultados em acordo” com tal princípio. À Quantidade correspondem as seguintes máximas: 1. “Faça com que sua contribuição seja tão informativa quanto requerido”. 2. “Não faça sua contribuição mais informativa do que é requerido”. À Qualidade também correspondem duas máximas: 1. “Não diga o que você acredita ser falso”. 2. “Não diga senão aquilo para que você possa fornecer evidência adequada”. À categoria da Relação corresponde apenas uma máxima: “Seja relevante”. Finalmente, à categoria de Modo corresponde a máxima “Seja claro”.
regras de cortesia que devem ser seguidas com o intuito de evitar ou minimizar os conflitos na interação. Silva (2008: 171) resume essas regras em três máximas, as quais transcrevemos a seguir:
1. Não imponha! Mantenha distância! O comportamento linguístico do locutor não deve transparecer nenhuma impressão autoritária sobre o interlocutor. Quando o locutor considerar necessário
entrar em assunto que seja da alçada do interlocutor, deve pedir permissão, sem invadir o território alheio.
2. Ofereça alternativas! Use a deferência! Neste caso, o locutor permite que o interlocutor tome suas próprias decisões acerca das possíveis interpretações da mensagem. Dessa forma, o locutor não parecerá impositivo, pois permitirá que o interlocutor tenha liberdade de ação. O emprego de eufemismo tem o objetivo de dar ao interlocutor a opção de não entender e, assim, optar por outra interpretação da mensagem.
3. Seja amigável! Empregue a camaradagem! O interlocutor deve sentir-se bem por meio de um comportamento amistoso. Esta máxima busca dar ao interlocutor certo conforto na interação ou, mais ainda, visa a deixá-lo à vontade durante a interação, por meio da aproximação.
A primeira máxima, que no dizer de Silva (2008: 172) resume-se a “Não
importune!”, pode ser aplicada em “situações formais em que há uma clara
diferença social ou falta de intimidade entre os interlocutores.” Tais características interacionais podem ser encontradas nas entrevistas do NURC/SP, conforme já mencionamos anteriormente.
O efeito de distanciamento aparece, muitas vezes, logo no início dessas interações em que o entrevistador mantém, quase sempre, uma postura respeitosa em relação ao entrevistado. Para Hilgert (2008: 143), isso se deve a fatores como diferença social ou de faixa etária entre os interlocutores. Além disso, nessas interações, os entrevistados são vistos pelos entrevistadores como alguém que participa “voluntária e gratuitamente” de um evento comunicativo que se insere num projeto de pesquisa científica. Assim, ao iniciar o evento, o entrevistador emprega, muitas vezes, recursos linguísticos de manifestação da cortesia tais como os desatualizadores temporais: o futuro do pretérito e o pretérito imperfeito, como veremos no capítulo seguinte.
A segunda máxima, por sua vez, aplica-se, de acordo com Silva (2008), em situações de igualdade social entre os interlocutores, mas com ausência de familiaridade ou confiança entre eles. Assim, o falante procurará disfarçar a imposição de seus atos, permitindo liberdade de ação ao ouvinte. O eufemismo aparece como um recurso adequado à criação desse efeito.
A terceira máxima – Seja amigável – “aplica-se às situações em que a relação entre os interactantes é muito próxima” (Silva, 2008: 172). O efeito dessa máxima é, portanto, o de igualdade entre os interlocutores. O autor cita como exemplo o emprego de formas de tratamento. Entretanto, poderíamos acrescentar que, nas entrevistas que analisamos, embora o distanciamento entre os interlocutores seja patente, algumas brincadeiras funcionam como recursos que possibilitam a aproximação entre os interlocutores. Produz-se assim o efeito de uma interação mais amistosa.
Apoiando-se em ideias de Blas Arroyo, Silva (2008: 177) conclui que nos estudos de Lakoff, a cortesia não é vista “unicamente como uma mostra de reverência ou respeito por parte do falante, mas também como um fenômeno pragmático que preside as estratégias linguísticas destinadas a reduzir a tensão que todo intercâmbio interativo carrega.” Além desse mérito, para o autor, o modelo de LaKoff permite “explicar as diferenças nos graus de aplicação das máximas entre distintas comunidades, grupos sociais e até considerando um único falante.”
Outro estudo que segue essa mesma direção é o modelo de Leech (apud Boretti e Rigatuso, 2004). Nesse trabalho, o princípio de cortesia é também apresentado por máximas que poderiam ser sintetizadas em duas direções, segundo Boretti e Rigatuso (2004: 139): “minimizar a expressão de crenças descorteses e maximizar aquelas que implicam crenças corteses sobre o outro, o que supõe, por exemplo, tato, e em vez de um custo, um maior
benefício para o ouvinte” (Grifos das autoras). Nessa teoria, ser cortês equivale
a usar formas linguísticas de indirecionalidade com o intuito de evitar a tensão social. Admite-se também – como o fazem Brown e Levinson (1987) – a existência de atos inerentemente corteses (o oferecimento) ou descorteses (a
ordem). Quanto a esses dois últimos aspectos, a teoria de Leech tem sido alvo de críticas.