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Chapter 1. Bank´s capital structure and quality of capital under capital

1.2 Determinants of leverage

A partir de 1990, o poder público estadual e municipal passou a investir no bairro da Cidade Velha com intuito de reafirmar o papel do local como testemunho histórico, cultural e simbólico de Belém. Neste sentido, várias medidas passaram a orientar as diretrizes que deveriam ser consideradas nos projetos de revitalização do seu Centro Histórico (Brito 2007).

A Praça do Carmo foi um dos locais onde ocorreram mudanças que estavam nos moldes das políticas brasileiras modernas de resgate a Centros Históricos. Em 1993 inicia-se então o projeto de revitalização ,no qual o ponto de partida foi dado com as pesquisas realizadas por arqueólogos do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), solicitados pela Fundação Cultural do Município de Belém (FUMBEL), para realizar os trabalhos de localização das estruturas do sítio arqueológico da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos (Belém 1994 apud Andrade 2008b). Com isso, dentro do programa de transformações ocorreu o projeto de Arqueologia Urbana, no ano de 1994, na Praça do Carmo com a investigação e o salvamento deste sítio colonial que “parecia ter se apagado da memória coletiva de forma irreversível” (Derenji 2009: 50).

A coordenação geral do projeto de Revitalização da Praça do Carmo ficou a cargo da arquiteta e historiadora Jussara Derenji que na época era diretora do Departamento de Patrimônio Histórico da FUMBEL. Com relação ao projeto de arqueologia, este estava sob a consultoria do arqueólogo Arno Kern5 e como coordenador das escavações o arqueólogo Marcos Magalhães (MPEG), que não pôde continuar as atividades no

5 O arqueólogo é professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul/PUC-

projeto por conta de sua saída para cursar doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A partir disso, os trabalhos de campo ficaram sob a responsabilidade dos arqueólogos Fernando Marques e Vera Guapindaia pesquisadores do Museu Goeldi. A ação teve como meta primordial a valorização do patrimônio histórico arqueológico existente no subsolo, enfatizando a importância que a igreja e o cemitério tiveram e tem para a história colonial de Belém. Entre os dias 26 de julho e 6 de agosto de 1994 foram realizadas as atividades no sítio colonial Rosário dos Homens Brancos no Largo do Carmo. O objeto da pesquisa eram as estruturas remanescentes da igreja a fim de se determinar a planta baixa, assim como coletar os materiais arqueológicos e os esqueletos humanos para análises bioarqueológicas (Guapindaia et al 1996).

De acordo com projeto intitulado “Largo do Carmo”, a proposta arquitetônica/paisagística procurou contemplar dois aspectos que foram considerados como significativos para o espaço da Praça do Carmo: “o tratamento do sítio e a manutenção dos elementos tradicionais da área” (FUMBEL s/d: 1). Assim, procurou-se valorizar os hábitos que eram mantidos na Cidade Velha no período, como a Festa da Seresta e a exposição anual de brinquedos de miriti na temporada do Círio de Nazaré. Vale dizer que atualmente não ocorrem mais esses dois eventos na praça. Sobre esse aspecto Jussara Derenji, coordenadora do projeto na época fala:

(...) aquela área foi feita, inclusive aqueles postes com alto falantes, foi feita pra que ali as pessoas pudessem dançar numa área iluminada, numa área tranquila, porque eles faziam isso! Naquele período ainda faziam! E a outra questão que foi levada em consideração que nós todos achávamos que era importantíssimo e que foi mudado e que eu pessoalmente acho que foi um desastre a mudança, foi a saída da feira de brinquedos de miriti. Que quando nós fizemos aquele projeto era tradicional naquele lugar as pessoas chegavam de barco na sexta feira, na sexta à noitinha ou sábado de manhã já começavam a vender os brinquedos pro Círio e era só naquele dia e todo mundo ia lá e compravam, as pessoas ficavam na sombra ali vendendo. Dalí eles levaram para frente da Sé que era muito calor, depois acabaram levando pra praça Dom Pedro II que tinha um pouco mais de sombra e agora ficaram encerrados num negócio de Senai, Senac, não sei, distantes. Então no meu ponto de vista mudou completamente o espírito da coisa. Que eu acho que no ponto de vista do bairro da Cidade Velha era um acontecimento importante, como era importante também a Seresta... Ao que eu saiba as duas coisas desapareceram. Então os norteadores do nosso projeto foi isso, foi proporcionar que essas duas atividades que eram já tradicionais no bairro continuassem configurando no novo espaço. (Jussara Derenji. Entrevista realizada em: 11/06/2013).

Desse modo, para a concretização do segundo aspecto do projeto foram levados em consideração os usos e as vivências das pessoas na Praça do Carmo. Foi construído, portanto, para realização da Seresta e da Feira de Miriti o anfiteatro usando simples

diferença de níveis, havendo uma especificação clara entre as duas funções pensadas para o lugar, a de praça de lazer e sítio histórico/ arqueológico (FUMBEL s/d).

Figura 16: Planta baixa da proposta de reconfiguração da Praça do Carmo. Fonte: FUMBEL, 1996.

No que diz respeito aos cuidados com o sítio arqueológico, foram marcados no piso o traçado da antiga igreja, seu limite e os locais encontrados com esqueletos. Todos os seus elementos posteriores, como: vegetação, bancos, monumentos, pisos, etc foram removidos. Além disso, colocaram-se pontos de observação das ruínas tratados na forma de pirâmides de vidro (FUMBEL s/d).

Figura 17: Tratamento do sítio arqueológico. Inventário da Fundação Cultural do Município de Belém (FUMBEL). Fonte: Albuquerque 2008.

As escavações revelaram além das estruturas arquitetônicas, ossos humanos em significativa quantidade. Do lado oeste da igreja, junto à parede da nave, foram evidenciados quatro esqueletos inteiros, articulados e em boas condições de conservação. Estes sepultamentos encontravam-se em posição horizontal, com a cabeça em direção a rua e os pés para a igreja. No lado leste, anexo a parede frontal do prédio, também foram encontrados dois esqueletos inteiros e diversos fragmentos de ossos. Neste setor, os esqueletos, desarticulados e friáveis, igualmente, estavam em posição horizontal, um deles com os pés voltados para o altar e a cabeça para frente da igreja e o outro em posição oposta. É importante dizer que fragmentos de ossos foram recorrentes em todos os setores escavados, dentro e fora da igreja, menos nos dois casos citados onde estavam inteiros (Guapindaia et al 1996).

Segundo informações preliminares contidas do relatório redigido pela equipe de arqueologia e antropologia biológica da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, sobre os esqueletos encontrados, seis sepultamentos estavam completos e vários ossos encontravam-se dispersos. As análises osteológicas identificaram a presença de pelo menos nove indivíduos adultos ou subadultos de ambos os sexos, com dismorfismo sexual bem marcado e crianças (Tuma et al. s/d).

Marcos Magalhães, arqueólogo e coordenador das escavações sobre os sepultamentos descobertos diz que:

(...) de fato a gente encontrou enterramentos tanto na área externa quanto interna na nave da igreja, de modo que ficou claro que de fato só a elite era enterrada dentro da igreja, mas alguns podiam ser enterrados nas margens da igreja, aíficou essa questão quem eram aqueles que eram enterrados do lado de fora, pelo que parece também não era qualquer um (...). Isso é muito interessante, porque não era só dentro da igreja que eram enterrados, no caso da praça né, eram enterrados no entorno dela, não era qualquer um que podia ser enterrado no entorno dela. (Marcos Magalhães. Entrevista realizada em 22/02/2013).

O arqueólogo Fernando Marques afirma:

(...) com a pesquisa histórica acabou se descobrindo referências dessa igreja e as escavações foram já direcionadas pra procurar os vestígios dessa igreja nossa Senhora dos Homens Brancos, só que com o decorrer do trabalho acabaram encontrando outras coisas além né, que foram os sepultamentos, que também não era tão inesperado né, porque os enterramentos eram feitos dentro da igreja, mas tinha também cultura material pelo menos indicador de uma presença até anterior, da pré-história. (Fernando Marques. Entrevista realizada em: 22/02/2013).

Como visto uma das interpretações propostas pela equipe de arqueologia foi que os enterramentos encontrados dentro da igreja eram de pessoas pertencentes à elite colonial. Os sepultamentos encontrados na área externa também podem, na visão dos arqueólogos, pertencer a pessoas mais abastadas da sociedade. Porém, análises osteológicas apresentadas no relatório mostraram a presença de dentes bem preservados com poucas cáries e incisivos em forma de pá simples ou dupla, o que sugere, segundo os pesquisadores, ascendência indígena (Tuma et al. s/d). Outro dado significativo que indica uma ocupação pré-colonial é que o cemitério foi implantado sobre uma área de terra preta6, detectada a poucos centímetros de profundidade (Marques 2010). Assim, de acordo com os vestígios sugere-se que o local onde se encontra a Cidade Velha possa ter sido, genuinamente, uma aldeia indígena que foi ocupada pelos europeus nos tempos do contato (Marques 2006a).

Figura 18: Indicação dos setores escavados com as respectivas evidências de alicerces do prédio e local de sepultamentos. Fonte: FUMBEL, 1996.

6 A terra preta é um indicativo bastante significativo da presença indígena. Os sítios de terra preta são

localizados ao longo dos rios e às margens de lagos e possuem uma terra de coloração escura e bastante fértil, onde se encontram fragmentos de cerâmica e rocha, resultantes de uma ocupação densa e prolongada. Ver: Schaan, D. P. 2009. Marajó: arqueologia, iconografia, história e patrimônio - Textos

Além dos esqueletos, outros materiais foram encontrados na parte interna da igreja, como fragmentos de lajotas, telhas, pratos e tigelas de faiança e porcelana, cerâmica, contas de madeira, crucifixo de metal, adornos, amostras de reboco com várias camadas de tinta, assim como também, grande quantidade de pequenos fragmentos de porcelana, faiança, ferragens muito oxidadas e moedas datadas do século XIX que foram recolhidas em outras áreas da praça (Guapindaia, Marques e Magalhães 1996).

De acordo com Derenji (2009) a planta da igreja era comum, com nave e capela-mor, sendo esta última mais estreita. A nave tinha 19 metros de comprimento, o que caracteriza uma igreja de porte mediano, com dois anexos, provavelmente uma sacristia e uma torre sineira. A construção da igreja era muito simples e apresentava pouca ornamentação. Ainda segundo a autora, a importância desta escavação no Largo do Carmo se relaciona primeiramente à irmandade a qual a ermida pertencia, pois “são raras as igrejas ou capelas das Irmandades do Rosário dos Homens Brancos, pois a maioria delas, no Brasil, está ligada aos Homens Pretos. Só uma capela do Rosário de Brancos é tombada no país, a de Padre Faria, em Ouro Preto” (Derenji, 2009: 51). Em segundo lugar, pelo fato de que os trabalhos realizados na Igreja do Rosário dos Homens Brancos introduziram prospecções históricas na rotina das restaurações arquitetônicas na cidade de Belém.

Figura 19: Desenho que representa a perspectiva da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos. Fonte: FUMBEL, 1996.

Figura 20: Novo Projeto de Reconfiguração da Praça do Carmo. Fonte: FUMBEL.

Vale ressaltar que este trabalho de intervenção arqueológica na Praça do Carmo constitui uma ação inédita quanto à arqueologia na cidade Belém nos anos 1990. Seu principal objetivo foi a recuperação das estruturas da Igreja do Rosário dos Homens Brancos a fim de trazer a tona este “patrimônio cultural que estava abandonado e esquecido sob os canteiros e caminhos de uma praça atual” (Kern 1996:25).