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Detection of X rays and γ rays

In document Gamma-ray flow imaging (sider 40-55)

Cogitei um devaneio no qual os sujeitos abriam seus espaços corporais para a expressão do corpo disforme, rompendo com o mito do corpo perfeito. Entendendo que qualquer indivíduo tem o direito de ampliar seu universo cultural, apostando em qualidade de vida e formas saudáveis de expressão pela arte, que traz em si a possibilidade de criação de formas livres e originais de ser e fazer, libertando energias negativas latentes em todo e qualquer ser humano.

Arte comunica desde o momento da sua produção até o momento da sua contemplação, ocasionando reações e sentimentos distintos. A experiência da criação amplia a capacidade do sujeito de perceber a sua realidade cotidiana e histórica, de compreender o entorno através da observação crítica do que existe na sua cultura, de criar

possibilidades múltiplas de comunicação com as pessoas – o que vai além da habilidade

intelectual e solicita a visão, a escuta e os demais sentidos. Através da dança podemos ligar motricidade à atividade mental, possibilitando a aquisição de um vocabulário gestual

13 Propus-me qualificação profissional na Faculdade de Teatro da Universidade Federal de Uberlândia nas disciplinas Consciência e Expressão Corporal, ministradas pela professora Drª. Renata Meira, a quem apresentei o Projeto Cidadão Deficiente. Com os desdobramentos do projeto desenvolvi esta pesquisa no PPGArtes/UFU em 2013.

fluente e expressivo, que pode ser encontrado nos jogos populares de movimento, cirandas e cacuriás. O teatro, por sua vez, tem grande poder de comunicação, por articular a ação dos atores (corpo, fala, gestos, interações) a diversos recursos cênicos de expressão e comunicação.

Nessa ação de cogitar, perguntei-me como “posso verdadeiramente passar do sonho

noturno à existência do sujeito sonhante” (BACHELARD, 2006, p. 142).

E assim, no chão, o devaneio pegou delírio. O movimento alimentou mudanças sutis, de gestos mínimos, de imagens que suscitaram uma variabilidade de novos cogitos com o que me é essencial, e nas minhas relações dinâmicas no coletivo.

Nessa “inteireza de articulações, combinada a uma resistência a sistematizações” (PRECIOSA, 2010, p. 23), novas nuanças em imagens irradiantes acercaram-se de mim, despertando um movimento de opção, decisão, compromisso com uma experiência pedagógica em arte na qual o corpo é entendido como passível de comunicações libertadoras das opressões culturais e sociais. Corporeomental de ação reflexiva em busca de constantes aprendicismos com o xão (ONDJAKI, 2011).

Chão de ir e vir da academia para a instituição APAE, em aperfeiçoamento profissional que possibilitou diálogos e criação no coletivo.

A formiga, a formiga carrega folha para comer. A formiga, a formiga carrega folha para comer. E o que mais ela faz?

Ela pica doído, ela pica doído.

(MÁRCIA OLIVEIRA, Caderno do Eu, 2012).

A liberdade de criação me deslocou de um lugar que se opunha ao lugar do apaeano para um lugar paralelo de “representações construídas com base no conhecimento humano” (THIOLLENT, 2011, p. 10).

E cantamos as subdivisões do pé (dedos, peito, arco, calcanhar), caminhamos em diversas direções, utilizando diferentes apoios. Criamos som de mexer o corpo e dançamos. Vocalizamos. Massageamos e desenhamos o rosto.

Para não usar “o silêncio como arte” (BARROS, 2013, p. 214) conversamos imagens. Imaginamos o devir no voo de um golfinho (ONDJAKI, 2010) que “gosta de aproveitar os sulcos da natureza e da vida” (BARROS, 2013, p. 214). Observamos, comentamos e somamos a diferentes pisares sobre bolinhas a história daquele “golfinho bico diferente”, e depois voamos para todos os lados ao som do caxixi.

Bolinha nas pernas, nas costas, na cabeça, pescoço, rolamentos e roda de conversa: foi tudo ótimo, bom, show de bola, uma delícia, muito morango, aula boa, ficou doido mexendo. A percussão foi no peitoral, na coxa, escápula, cabeça, com andar lateral, esquerda/direita. Saltos e giros equilíbrio/desequilíbrio dinâmico. Equilibramos com apenas pé, sobre as bolinhas, e descobrimos os giros, os saltos, os diferentes apoios no desequilíbrio.

O enraizamento de equilíbrio corporeomental respingou em cores no desenho de uma árvore que cresce na grama verde, seu tronco marrom se bifurca, sua copa é verde. O vermelho se expande e envolve a árvore do chão para a copa. O alaranjado brota do chão como uma mancha, que também está no céu e parece envolver a árvore. Nesse dia de enraizamento, a proposta colocava o corpo no chão para descobertas dos movimentos pelas bolinhas, num maturecer. E quando, na roda de conversa, desenhando a árvore de seus enraizamentos de equilíbrio corporeomental, Flor de Pequi falou do fim de semana em que ela tocou na folia do Oripe, suspirei as suas delícias em cores.

Agradô. É muita emoção. O povo fica chorando. (Música) “Salve a mãe do rebento” (ela gosta dessa música). O povo acha interessante que a gente toca. Eu já nasci pra isso. Minha mãe já nasceu com isso. Eu tô seguindo o rumo, eu fiz essa promessa de acompanhar eles pro resto da vida. Porque eu fico com muita alegria quando eles toca lá em casa. Quem sabe conhece tanto que é bom. (MÁRCIA OLIVEIRA, Caderno de Registro de Aulas, 2013).

O que significa alcançar um equilíbrio corporeomental?

A cisão do corpo-mente causadora de desequilíbrio acontece quando o indivíduo é subjugado pela sociedade que, por ser autoritária, desrespeita suas características, seus valores, sua cultura, suas percepções individuais (F. COSTA, 2010).

Quando essa sociedade autoritária inverte sutilmente os valores culturais, menosprezando e subjugando os indivíduos, ela se apodera da sua integridade corporeomental, realizando uma cisão entre o corpo e a mente do indivíduo, transforma-o

em corpo marginal. Corpo-mente desempoderado de cidadania (MEDINA, 1998)14.

Numa perspectiva somática, verificamos que o nosso corpo vai sendo modelado por regras socioeconômicas domesticadoras, sufocantes, opressoras, repressoras,

14 Um exemplo de menosprezo pelos valores culturais brasileiros esteve no academicismo do lirismo burguês de 1914: “que não queria que a gente pintasse nossos dramas de luta pela vida, que se falasse da tragédia da seringueira, do cacau, da cana-de-açúcar, do algodão, da castanha, em seus terrores mais chegados ao labor brutal do nosso homem. Não queria, porque isso seria falar mal do Brasil” (BASTOS, 1979, p. 169).

“educativas”: as couraças musculares vão surgindo, segundo as características socialmente impostas às pessoas. (MEDINA, 1998, p. 82).

(Re)criar a integridade corporeomental pela sensibilização corporal nas danças brasileiras foi reconhecer meu corpo de hibridismo cultural, ganhando identidades, equilíbrio e sustentação corporal, para romper as couraças musculares que me impeliam para a invisibilidade social (F. COSTA, 2010). Couraças de desmerecimento, desamor, de estreitamento da relação vida e morte, desvalorização e esquecimentos das raízes, racionamento das necessidades primordiais (alimentação, saúde, educação, lazer). Couraças de marginalização que doíam e me levaram a médicos e curandeiros. Dores que foram diluídas no processo de criação da performance e hoje não as sinto mais.

Vai, pesadelo, noites de insônia [...]

vai para o diabo que te carregue.

(BARROS, 2013, p. 62).

1.6. E no início não havia o verbo, tudo era yby, fogo e caxixi

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