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“Não, tu não vai pra excursão. Tu é pobre. É pra lotação que tu vai”. (Karina, PESQUISA DE CAMPO, GRUPO FOCAL I, 2013)

No dia 20 de abril de 2013, um dia de sábado, cheguei por volta das dezoito horas na comunidade São Rafael. Na entrada da comunidade, na praça, recém construída, algumas crianças brincavam, e alguns adultos instalavam barraquinhas para venda de espetinhos, o que sinalizava que, em alguns momentos, haveria uma mudança

160 no público frequentador da praça. No percurso até casa de Katiucha84 era possível encontrar muitas pessoas sentadas nas calçadas e crianças brincando na rua. Ouvia-se som, mas não de modo “exagerado”, e o que mais se destacava era aquele do moço que vende CD, localizado ao lado de um espetinho.

Sentada em frente à sua casa estava Katiucha, em companhia de sua amiga Pida, que eu conhecia desde 1998, e havia sido convidada para participar do grupo focal. Pida estava bastante animada para participar daquela atividade, o que foi possível perceber pelo fato dela ter dito a sua irmã que só iria ajuda-la nos preparativos para a excursão depois que participasse daquela “reunião”. Quando cheguei, Katiucha, Pida e sua irmã (Guia) conversam sobre a compra de um chip defeituoso e logo em seguida passaram a falar da excursão, que estavam organizando na comunidade.

Inicialmente não dei muita importância ao assunto, mas no caminho para o CPCC, local de realização do grupo focal, perguntei a Katiucha sobre a excursão questionando por que ela não havia me avisado, pois eu teria interesse em participar. A mesma riu, e perguntou se eu teria mesmo “coragem” de ir. Eu disse que sim, que era muito importante para minha pesquisa. Ela, meio que retrucando, apontou para uns quatro homens que, ao redor do espetinho e do carrinho do vendedor de CD estavam bebendo e disse: “esses daí já estão prontos para a excursão”. Este comentário parecia demonstrar para mim o tipo de frequentador daquele evento, e tinha a intenção de testar se eu teria de fato coragem para ir. Esclarecendo seu comentário ela reforçou: “eles vão ficar bebendo até a hora de pegar o ônibus”.

Pida interferiu no nosso diálogo e disse: “mas tu pode ir na Van. Eu vou na Van”. Ao explicar que na Van era melhor, mais confortável e tinha ar, Pida parecia pretender dizer também que os frequentadores eram “diferntes”. Perguntei sobre questões de segurança do ônibus, se era de alguma empresa “respeitada” e se o motorista era de confiança. Mas ela não sabia informar maiores detalhes, só adiantou que sua irmã (a organizadora da excursão) já estava acostumada a trabalhar com aquela empresa e que o motorista não bebia. A excursão sairia às quatro horas da manhã da rua principal da comunidade, rumo a uma praia em “Natal”, no Rio Grande do Norte, aproximadamente 150 quilômetros de viagem, e o preço era de R$ 40,00.

84 Informante chave desta pesquisa que estava colaborando na organização do primeiro grupo focal,

mobilizando os participantes e colaborando na logística de arrumação do espaço no qual os grupos focais iriam acontecer.

161 Chegando ao CPCC, depois de organizar o espaço para a realização do grupo focal, enquanto esperava pelos demais participantes, abordei novamente o assunto sobre a excursão, questionado mais uma vez a Katiucha o fato dela não ter me avisado antes. E, novamente, em tom de espanto ela perguntou: “e tu ia mesmo?”. Ao responder que sim, recebi logo o adjetivo de “farofeira”.

Passando a conversar sobre o processo da excursão85 Pida explicou que todo mundo compra e prepara sua comida para levar, e que ela já havia temperado suas carnes (bistecas e coração de galinha) e já tinha até feito os espetos, faltando preparar apenas o baião de dois, mas isso era rápido e seria feito depois da reunião. Durante esta conversa, o seu filho, um garoto de oito anos, comentou que já havia comido o biscoito recheado, e a ela chamou sua atenção dizendo que não teria outro para a excursão.

Pida estimulou a minha ida, dizendo que seria bom, que o lugar era maravilhoso, embora não soubesse precisar nem o nome da praia nem sua localização, e que ainda existiam duas vagas. Neste momento sua irmã passou no CPCC e Pida, em tom de surpresa, disse: “Pia, Angeluce quer ir!”. Sua irmã enfatizou o convite e afirmou a existência de uma vaga. De minha parte, precisava terminar o grupo focal, para organizar minha vida familiar, e só então confirmar, ou não, a viabilidade de minha participação na excursão, e assim pedi para responder mais tarde.

Logo em seguida teve início o grupo focal e a conversa sobre a excursão foi interrompida até o momento no qual se iniciou a discussão sobre coisa de rico e coisa de pobre. Neste momento, Karina – que iria participar da excursão – relatou uma discussão86 entre ela e outra jovem sobre o conceito de excursão. Para a interlocutora de Karina, excursão era coisa de rico, uma vez que representava um lazer, no qual as pessoas viajavam como turistas, num ônibus confortável, para conhecer um determinado lugar. Deste modo, o lazer que seria praticado por Karina não preenchia as condições para ser chamado de excursão, logo a sua denominação correta seria “lotação”.

Ao expor o julgamento feito por sua interlocutora, Karina ressaltava que a mesma não sabia em que condições aquele evento seria realizada, logo não podia julgá- lo. Importa notar que este argumento de Karina legitima a opinião de sua interlocutora,

85 Importa informar que este não era o meu primeiro contato com esta modalidade de lazer. Quando

adolescente, morando no interior da Paraíba, esta era uma modalidade muito comum para as pessoas usufruírem do lazer da praia. Recordo-me de ter participado de duas excursões, uma para a praia e outra para um balneário. Mas as minhas informantes não conheciam minha trajetória, e talvez por isso, também, se espantavam tanto com a possibilidade de minha participação naquela excursão.

162 uma vez que concorda com o fato de que existem elementos que devem ser conferidos antes de definir se é uma excursão ou lotação. Os demais membros do grupo riram de tal situação, ao mesmo tempo em que refletiram que, na essência, a prática era a mesma, a única coisa que de fato parecia diferenciar era a classe social das pessoas que frequentavam o lazer.

Por fim, quando retornei a minha residência depois do grupo focal (por volta das vinte e duas horas) pude verificar que podia confirmar minha participação na “excursão”. Assim, liguei para Katiucha e pedi que a mesma reservasse minha vaga. Mais uma vez ela surpreendeu-se com esta história e me perguntou se eu tinha mesmo certeza daquela decisão. Respondi que sim. Alguns minutos depois, Katiucha retorna a minha ligação informando que tinha ido à residência de Pida, mas que não havia mais vaga. Não acreditei, e perguntei se aquela não era uma desculpa para que eu não participasse de tal evento, uma vez que desde o início da conversa ela dava sinais de que não aprovava a minha ida. Katiucha afirmou que de fato não tinha mais vaga. Alguns meses mais tarde, Pida me convidou para outra excursão, e aí tive a confirmação de que, de fato, as vagas tinham se esgotado na outra ocasião.

Portanto, a discussão em torno de minha possível participação na excursão ou lotação, permitiu perceber que embora o lazer seja utilizado, pelos sujeitos desta pesquisa, preponderantemente em função da sociabilidade e mobilidade que ele proporciona, ele configura-se também como um importante elemento capaz de classificar as pessoas. As reações imediatas de Katiucha sobre a minha vontade de participar daquele evento pareciam informar que aquele não era um “lugar” para mim.

A medida para operar este julgamento distintivo é sempre construída tomando como referência o padrão de classes sociais mais elevadas, o que permite considerar a existência de uma legitimação das práticas de lazer realizadas por segmentos abastados da sociedade e um não reconhecimento das possibilidades imediatas apresentadas pela comunidade de origem.

Uma consideração mais ampla pode ser elaborada a partir da análise deste episódio. Embora o grupo afirme, de modo refletido, a inexistência de uma diferenciação entre ricos e pobres87 esta “pseudo igualdade” parece não se sustentar, uma vez que, mesmo práticas consideradas a princípio idênticas, precisam ser avaliadas segundo critérios estabelecidos tomando como referência as classes mais altas. Isso

163 reflete como a diferença entre as classes sociais está sempre em jogo, não somente de modo objetivo, mas também subjetivo.

Retomando o objetivo deste capítulo, que é conhecer o significado do consumo de lazer para o grupo aqui investigado, no intuito de aprofundar a compreensão que vem se delineando, mostrando que o lazer preferido é aquele capaz de promover sociabilidade e mobilidade, mas que ao mesmo tempo estas práticas são utilizadas como elemento para distinguir os sujeitos, este trabalho passa a discutir de modo mais direto a representação do lazer para os participantes desta pesquisa.