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Analytiske tilnærmingen

“Eu não gosto de roupa chique ou cara. Se ganhar, ótimo! Fiquei dez anos sem comprar roupa porque ganhava. Milha filha é muito luxuosa, quando vai comprar roupa escolhe as mais caras. Querer comprar além das

possibilidades é luxar. Se tem dinheiro, e pode, não.” (Dona Moça,

PESQUISA DE CAMPO, ENTREVISTAS, 2012)

Objetivando compreender melhor o imaginário do luxo para os sujeitos aqui investigados, esta pesquisa abordou esta temática de duas maneiras específicas: inicialmente através de entrevistas individuais e, num segundo momento através do debate em dois grupos focais.

É necessário ressaltar que, mesmo a temática tendo sido abordada através de uma questão aberta nas entrevistas, as respostas não fluíram de modo espontâneo, sendo muitas vezes precedida por reflexões como a de Juliana: “É difícil falar de algo que nunca tive”. Reflexões dessa natureza permitem pensar numa primeira consideração sobre luxo para indivíduos das classes populares, como algo que não faz parte de suas possibilidades mais imediatas.

No quadro a seguir encontram-se as definições de luxo apresentadas pelos participantes desta pesquisa através das entrevistas individuais.

122 O que é luxo para você?

Mulheres

“Casa é minha. Poder fazer o que quer.”

“É difícil falar de algo que nunca tive. Forma de viver, digamos com bem estar... Sei lá, é algo vago, é difícil falar.”

“Eu não gosto de roupa chique ou cara, se ganhar ótimo. Fiquei 10 anos sem comprar roupa porque ganhava. Milha filha é muito luxuosa, quando vai comprar roupa escolhe

as mais caras. Querer comprar além das possibilidades é luxar. Se tem dinheiro e pode, não.”

“Luxo é você querer e ter algo que você não precisa... Algo que esteja fora de sua realidade... Como um carro, para quem não tem nem o que comer.”

“Luxo para mim... Não sei nem te dizer mulher. É viver todo dia bem e em paz.” “Não consigo dizer...”

“Não sei... Coisas de valor... Pessoas que gostam de luxo.”

“Não sei... Tem gente que compra muita coisa... Coisa cara sem poder pagar... Tem gente que luxa.”

“Nunca tive. É ter tudo o que quer. É poder comprar e pagar.”

“Poder viajar... Fazer tudo que gosta... Ter saúde. Meu sonho é sair daqui de dentro... Moro aqui porque não tenho outra oportunidade, se tiver saio... A violência é demais...

Pensar em criar as filhas assim...”.

“Se sentir bem... Dar um lar de conforto para a família... Dar estabilidade para sua família.”

“Sei lá ... Depende do dinheiro.” “Sei lá...”

“Ter coisas boas, caras”

“Ter tudo o que gosta e não faltar nada. Comprar tudo o que a filha quer.” “Todo mês, toda semana comprar roupa... Querer comer do bom... Tudo sem poder

comprar... As vezes arruma dinheiro emprestado, sem poder.”

Homens

“Acho que é riqueza... É ser rico... É nunca faltar... Nunca faltar dinheiro.” “Comprar carro chique. Comprar aquilo que eu não tenho condições... Comprar é

luxo.”

“É você ter a condição, o dinheiro, de comer do bom e do melhor, mais do que você quer... 5 quilos de peru, peixe da melhor qualidade. Tem gente que pode mas tem pena

de gastar. Poder comprar roupa e perfume bom... Além do necessário é luxo. Poder ir no

restaurante. “Riqueza... Poder.”

“Tem várias formas de luxo... Ter uma casa boa... Ter um carro ou moto que você possa... Que sinta prazer de tá com aquele objeto.”

“Não sei nem dizer... É quem tem muito dinheiro... Ter e usar com o bom e melhor... Quem pode comer bem é um luxo também... Tem muitas coisas que luxa sem ter condições ... Deixa de comer pra luxar... Tem quem usa roupa boa e não cumpre com as

obrigações.” Quadro 11: Imaginário do Luxo

Fonte: Pesquisa de Campo, 2012

A análise dos discursos apresentados no quadro 11 aponta para três possibilidades de compreensão da concepção sobre o luxo, duas das quais, já estabelecidas na teoria, e a terceira como uma construção do grupo, e que ainda não encontra espaço nos dicionários: luxo como verbo.

A primeira, em consonância com uma definição que classifica luxo como um substantivo, e o define como um “modo de viver em que há uso e ostentação de bens caros e supérfluos”, e a segunda, mais próxima da definição de luxuoso, ou seja, como

123 um adjetivo para qualificar algo como caro e requintado (HOUAISS, 2010). Estas duas compreensões aproximam-se daquilo que na teoria específica sobre o tema (D‟ANGELO, 2006; LIPOVETSKY & ROUX, 2005; SOUZA, 2011) vem sendo

apresentado como um conceito “convencional de luxo”, para significar algo caro e supérfluo.

O discurso apresentado a seguir por Joeliton serve para ilustrar esta concepção de luxo relacionado a um estilo de vida que se orienta pelo consumo de coisas caras e que se situam fora do campo das necessidades.

Joeliton: Luxo é gastar em “excessividade”(...) É você ter o bastante pra gastar, fazer tudo o que você quiser (...)Ter o que você quiser sem ter preocupação depois com a condição financeira (...) Eu acredito nisso(...)

Uma concepção de luxo (...): você, você já ter vários sapatos ai você vai e compra mais um sem você nem...só por comprar mesmo. Porque você tem

pra gastar, pra comprar, tá entendendo? Você ter roupa de estourar o

guarda roupa aí vai lá e compra de novo (...)Ter comida dentro de casa,

mas você prefere sair pra ir jantar em restaurante, e tal, tá entendendo? Karina: É um lazer!

(PESQUISA DE CAMPO, GRUPO FOCAL I, 2013)

A terceira compreensão de luxo, aquela que o define como um verbo – luxar – para se estabelecer enquanto conceito toma por referência a questão do efetivo poder de compra. Dito de outro modo, para o grupo aqui investigado, os indivíduos “luxam” quando eles compram algo que está fora de suas possibilidades financeiras. Os discursos de Dona Moça (utilizado na abertura deste tópico) bem como o de Seu Ronaldo – apresentado a seguir – são exemplares desta compreensão de “luxar”:

Não sei nem dizer... É quem tem muito dinheiro? Ter e usar com o bom e o melhor... Quem pode comer bem é um luxo também... Tem muitas coisas (pessoas) que luxa sem ter condições... Deixa de comer pra luxar...Tem

quem usa roupa boa e não cumpre com as obrigações.

(Seu Ronaldo, PESQUISA DE CAMPO, ENTREVISTA, 2012)

Deste modo, o luxo passa a ser compreendido de maneira negativa e “luxar”, é tomado como um elemento para julgar negativamente o comportamento daquelas pessoas que compram sem efetivamente poder. Isso reforça também a ideia de um conceito de consumo legítimo (que toma por referência o efetivo poder de compra dos indivíduos) e a existência de uma lógica do controle social por parte da comunidade, conforme pode ser verificado a partir do seguinte diálogo tecido durante o grupo focal.

124

Katiucha: Mas a gente costuma usar aquele (...): vou luxar hoje (...) Vou comprar algo porque eu não tenho necessidade, mas eu quero comprar. Isso

pra mim né luxo não, é safadeza.

Karina: Então, é o que eu tô dizendo...

Katiucha: Acho que luxo é você sair do dia a dia, pô! Quero tirar isso pra mim (...) Pra mim aquilo ali é um luxo...

Karina: Eu quero um dia de spa...rsrss

Katiucha: É o que eu quero (...) Querer luxar todo dia é safadeza... Daniel: (Referindo-se a Katiucha)Luxo, me falaram, é colocar a piscina no fundo do quintal com um frigobar (...) É, não vou nem dizer, porque é marido de uma pessoa que está por aqui (...) Né, isso é luxo véi... tá! (...) É... porque a necessidade é a geladeira, tá lá (...) Necessidade é a caixa d’água (...) tá

lá (...) mas o luxo é a piscina e o frigobar (...)

(PESQUISA DE CAMPO, GRUPO FOCAL I, 2013)

Portanto, querer possuir bens que não são compatíveis com o poder aquisitivo do indivíduo se apresenta como uma prática intitulada como luxar. Longe de uma ação legítima, ela serve de parâmetro para julgar o comportamento de consumo dos sujeitos considerando ilegítimo o consumo realizado sem que o indivíduo possa “efetivamente” pagar. Mas este parâmetro que se delineia a partir do luxo serve também para outro tipo de julgamento, dessa vez sobre aquelas pessoas que possuem dinheiro, mas “não sabem” usufrui-lo. No imaginário do grupo aqui investigado, quem tem dinheiro deve utilizá-lo com o “bom e o melhor”, consequentemente, percebe-se, mais uma vez a existência de um julgamento negativo sobre a poupança. Deste modo, constrói-se uma compreensão de que o luxo legítimo é ter dinheiro e saber gastar com coisas boas e caras.

Para além dessas concepções sobre o luxo, que partem da ideia de um estilo de vida marcado pela ostentação, pela posse de bens caros e supérfluos e que são legítimos apenas se o indivíduo possui de fato as condições materiais necessárias, foi possível perceber outra compreensão que o relaciona à satisfação de necessidades e torna o debate ainda mais complexo. Para parte dos participantes dessa pesquisa, “luxo é ter tudo o que o que é necessário”, ou seja, não ter carência de nada.

Portanto, se uma compreensão convencional de luxo parte da ideia do supérfluo, de desejar aquilo que se encontra fora do campo das necessidades imediatas, para o grupo aqui investigado, é possível perceber uma imbricação entre luxo e necessidade, fortalecendo a ideia de que este conceito carece de contextualização, não somente a partir de parâmetros individuais (“o indivíduo é a medida para definir o luxo”73

), mas também através de parâmetros de classes sociais distintas.

73 Lipovetsky e Roux, 2005.

125 A análise dos discursos aqui apresentados permite considerar que este é um conceito que precisa ser lido e interpretado tomando em conta o momento histórico e a classe social, pois o que se configura como luxo para indivíduos de um determinado segmento pode se configurar como necessário para sujeitos de um segmento distinto. Assim também, o que é considerado luxo num determinado momento da história pode passar a ocupar a categoria de necessário em outros, como o diálogo a seguir permite perceber.

Hilda: Ah, mulher luxo é ter uma casa bem linda, arrumada... Clélio: rir!

Hilda: (...)É ter todos os móveis da casa. É ter conforto. (...) Tem coisas baratas, que dá pra você comprar, que você não precisa (...) O luxo pra mim é isso. Assim. Eu não tenho muito luxo não, eu não sou de ter luxo não. Eu tenho conforto, eu queria ter conforto. Ter minha casa, que eu moro de

aluguel. (...) Tá entendendo? Eu quero ter minha cozinha, minha geladeirinha, meu fogão. Normal, uma coisa normal. Né? Ter um transporte, porque hoje em dia você tem que ter um transporte, é pra um

hospital, é pra ajudar um vizinho, é pra ajudar uma mãe, um pai que já tá idoso. Deve ter seu emprego. Eu acho que é ter estabilidade. O luxo é ter

estabilidade.

Seu Clélio: (...) Olhe, porque antigamente (...) ter geladeira era luxo, o telefone era luxo, ter um carro era luxo. Mas hoje em dia não é luxo. Dona Moça: É necessidade (...). Eu acho que luxo é querer aquilo... Seu Clélio: Que não pode.

Dona Moça: Fora das necessidades, né. Você tem aquilo, por acaso eu tenho a casa, tenho duas, três casas. Eu tenho uma casa mobiliada (...) e tudo fora das suas necessidades, eu acho que isso é luxo. Não é?Mas se for aquilo

de acordo com as suas necessidades, um telefone, uma casa pra morar, roupas pra você vestir, uma casa que tenha, é, seus móveis direitinho, você precise, eu não acho que isso é luxo, é apenas conforto, como ela tá

falando. Agora luxo...

Hilda: Luxo é tudo aquilo que você vai além ... Clélio: Todo mundo aqui quer ter um bem estar? Hilda: É

Clélio: Querviver numa casa bem limpa? Hilda: Confortável!

(PESQUISA DE CAMPO, GRUPO FOCAL II, 2013)

Mais do que revelar o que é considerado luxo em momentos históricos distintos, este debate, revela o impacto do gosto de necessidade sobre os participantes dessa pesquisa. Deste modo, é possível perceber que os conceitos de “necessário” e de “supérfluo” não estão estabelecidos no imaginário do grupo aqui investigado, e isso se percebe quando se verifica que os sujeitos precisam mobilizar um conjunto de motivos de ordem moral para justificar o desejo (ou até mesmo a posse) por um bem que, na teoria, seria considerado de luxo. Interessa notar que este exercício de mobilizar um conjunto de valores morais para justificar o desejo por um bem de luxo se aproxima

126 daquele realizado para justificar a “legitimidade” dos sonhos de consumo, expressando o predomínio de uma “estética pragmática e funcionalista” no grupo aqui investigado.

Como considerou Bourdieu (2008) a “necessidade impõe um gosto de necessidade” que implica uma forma de adaptação e de aceitação do necessário. Isso tem implicações de ordem objetivas, mas também subjetivas, uma vez que incapacita os sujeitos a terem acesso ao “sistema de necessidades” implicado em um nível superior. Esta consideração se traduz aqui através da dificuldade que os sujeitos expressam em situar determinados bens na categoria do necessário ou supérfluo. Neste sentido, ressaltar a utilidade de um bem, otimizando a sua funcionalidade, parece ser a estratégia mais mobilizada para legitimá-lo como necessário. A dificuldade em categorizar os bens em relação aos conceitos de necessário e de supérfluo pode ser percebida através do diálogo a seguir, construído como resposta ao questionamento sobre se uma máquina de lavar pode ser considerada um bem de luxo.

Angeluce: (...) Uma máquina de lavar, é um luxo ou não é? Seu Clélio: Não, isso é necessidade.

Hilda: Hoje todo mundo pode ter essa necessidade. Então pra muita gente que luta muito, pra ela é luxo ter uma máquina de lavar. Depende, porque

vocês tão falando porque a gente tem, mas pra quem não tem? Tudo é

uma conquista.

Dona Moça: (...) Viu Angeluce (...) mas ai eu trago pra cá.

Seu Clélio: (...) Hoje em dia, o dia-a-dia é tão corrido que a máquina... Dona Moça: Porque é assim, pra mim, no meu caso, uma máquina de

lavar, pra mim não seria um luxo, seria uma necessidade. Por quê? Eu

trabalho a semana todinha, até o sábado, muitas vezes eu vou pro Jardim Botânico, então fico só com o domingo. Então quer dizer que no domingo eu não tenho tempo pra mim, que é pra lavar roupa, é pra lavar prato, é fazer... Se eu tivesse uma máquina, é claro que no período da tarde eu teria um pouco de folga, mas, não, tem dia que não vou nem pra igreja porque ...

Seu Clélio: A geladeira é luxo?

Silvana: Eu comprei uma pra mim, mas por necessidade. Porque, eu não

posso mais espremer roupa. Lavar, eu lavo, porque eu tenho a minha

máquina em casa, mas eu não boto minha roupa todinha dentro da máquina não. Primeiro eu lavo ela na mão, eu lavo assim: lavo ela todinha na mão e depois eu boto dentro da máquina. (....) Pra ela espremer pra mim, porque a minha necessidade a máquina é assim, ela espremer, porque no caso eu não tenho mais (...) lavar ainda lavo, mas espremer não tem como. Ai meu marido disse: “Por que você comprou?” Porque eu necessito de uma máquina aqui em casa. Eu não tenho mais condições de espremer. Eu

trabalho a semana todinha, ainda lavar um mói de roupa!

Hilda: Mas tem muita gente que olha pra você e diz assim: “ela comprou

uma máquina. Ela é rica”.

Silvana: Não, eu acho que não. É necessidade. (...) Eu no meu caso, eu comprei porque eu tava necessitando. Adriana aqui sabe, quantas vezes eu

pedi pra Adriana comprar uma pra mim, não foi. Mas ela disse: agora eu

não posso

Hilda: (...) Você comprou por necessidade. Silvana: Eu comprei por necessidade...

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Hilda: Mas tem pessoas que olham assim: “Pia74, Silvana (...) comprou uma máquina...

Silvana: Eu comprei por necessidade.

(PESQUISA DE CAMPO, GRUPO FOCAL II, 2013)

O fato de que os sujeitos aqui investigados precisem justificar moralmente o lugar atribuído a um bem (como necessário ou supérfluo), e mais do que isso, justificar o desejo por esse bem ou até mesmo a sua posse tomando preponderantemente a sua funcionalidade como motivo maior, permite verificar a presença relevante do controle social por parte da comunidade impactando as ações desses sujeitos. Como será possível perceber com mais clareza no capítulo cinco desta tese, o desejo de adequação ao grupo social de origem é o que parece está na base desse comportamento que aceita como “natural” a ação da “fofoca” dentro de uma comunidade e faz com que o indivíduo precise prestar conta de suas escolhas para os seus pares.

De um modo mais amplo, tomando em conta as diferentes concepções sobre o conceito de luxo para os sujeitos aqui investigados, é possível considerar o delineamento de uma lógica social que, ao estimular o consumo de luxo, o utiliza como parâmetro para julgar e classificar os sujeitos. Isso significa dizer que, gastar sem “poder” é suficiente para que o indivíduo seja rotulado como “alguém que gosta de luxar”. Assim, é possível questionar se a concepção pós-moderna de luxo que assume como sendo possível o trânsito do indivíduo por diferentes papéis sociais, tendo este o direito de “brincar de ser rico” (LIPOVETSKY & ROUX, 2005) é algo possível neste contexto social. Neste sentido, considerando a forte presença de um controle social por parte da comunidade, capaz de questionar até mesmo a posse de uma máquina de lavar, é possível pensar que, para os sujeitos aqui investigados, existe uma liberdade muito menor do que aquela visualizada por Lipovetsky e Roux (2005) ao considerar que a “medida para definir o luxo é apenas o indivíduo”, e que este pode “brincar” na construção de sua identidade. Deste modo, a compreensão do luxo que surge a partir do contexto dos sujeitos aqui investigados aponta para a necessidade de relativizar as afirmações dos autores supracitados, sobretudo, quando estas são utilizadas para iluminar a compreensão dos mesmos processos sociais por eles estudados no interior de classes sociais distintas.

As descobertas em torno da concepção de luxo para os sujeitos aqui investigados, também permitem tecer uma consideração mais geral sobre a questão da

128 imitação, com vistas à distinção social. Neste sentido, foi possível perceber que o luxo também é utilizado pelos participantes desta pesquisa como mecanismo para distinguir socialmente o indivíduo. No entanto, o que aqui parece predominar é um processo de distinção dentro da própria classe75, no qual o processo de imitação realizado pelos participantes desta pesquisa considera muito fortemente os valores culturais do grupo de origem. Uma das justificativas para que isso ocorra é o forte desejo de adequação ao grupo originário que vem se delineando no decorrer desta pesquisa. Deste modo, paralela à vontade de consumir o que a classe diretamente superior consome, caminha o desejo de ser aceito pelos pares, a vontade de conservar os vínculos de sociabilidade já existentes, como será possível perceber com menos opacidade no capítulo cinco.

No que se refere a pensar numa concepção de luxo como um estilo de vida caracterizado pelo maior volume de tempo livre, capacidade de viajar, e de consumir mais lazer e cultura (LIPOVETSKY & ROUX, 2005) foi possível perceber que esta ideia apenas se delineou de maneira secundária em alguns discursos dos grupos focais. Isso significa que apenas indiretamente os sujeitos apontaram o lazer e as viagens como um exemplo de luxo, e a noção de mais tempo livre como “bem” de luxo, apenas foi tangenciada quando os participantes dos grupos focais justificaram a legitimidade de possuir alguns eletrodomésticos (como a máquina de lavar) como uma possibilidade de liberar um pouco mais de tempo de suas rotinas diárias muito pesadas, que envolvem trabalho fora e dentro do lar, sobretudo para as mulheres. De fato, a ideia de luxo que toma forma nos discursos dos sujeitos aqui investigados é uma concepção tradicional que significa o consumo de bens supérfluos, raros e caros.

Neste sentido, perpassando o delineamento de uma concepção sobre luxo, este debate permitiu perceber também que os sujeitos participantes desta pesquisa, refletindo inicialmente sua carência material – logo sua dificuldade em definir algo que não faz parte de sua rotina – questionam se o luxo é algo de fato destinado a eles. A ideia da existência de um luxo que não cabe num determinado contexto social, também foi percebida por Souza (2011) quando estudou o significado do luxo para mulheres da Nova Classe C no Rio de Janeiro:

No entanto, quem fala sobre joias, carro com motorista e viagem à Europa, três hábitos de consumo ligados às classes mais altas das sociedades americanas (tanto do sul como do norte), e exibido em filmes e revistas como

75

Castilhos (2007) também chega a conclusão de que predomina uma diferenciação intraclasse junto ao grupo por ele investigado no Rio Grande do Sul.

129

glamorosos, como luxo, reconhece esses hábitos como representantes do luxo, mas não para si mesmas. Esse tipo de luxo é reconhecido como