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Det vitenskapelige og det kunstneriske perspektiv

2. Teori

2.1 Det vitenskapelige og det kunstneriske perspektiv

A história de Mato Grosso, durante o período da República Velha (1889-1930), foi intensamente marcada por acontecimentos que provocaram intervenções federais, seja por conta da mudança da forma de governo seja por causa do golpe do Marechal Floriano Peixoto, que levou à renúncia do Marechal Deodoro da Fonseca24 ou, ainda, por causa das disputas entre os grupos que queriam controlar o governo estadual, como aconteceu, por exemplo, em 1917. Além de ser uma região de fronteira, ainda marcada pelos eventos recentes da Guerra do Paraguai (1964-1870), a então província se transformou também em terra de destino de diversos elementos revolucionários de outras regiões do país. Os farrapos foram o principal grupo que passou a ocupar a região sul, para onde levaram os ideais revolucionários gaúchos, ao mesmo tempo em que passaram a praticar uma pecuária mais desenvolvida, com as técnicas de manejo dos bovinos utilizadas no Rio Grande do Sul. Além de terra de destino, o território mato-grossense se tornou também terra de desterro – antes, no período colonial, principalmente os contrabandistas de ouro ou de metais preciosos eram deportados para Angola ou Moçambique – para elementos revolucionários de outros estados,

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No dia 3 de novembro de 1891, o presidente Deodoro da Fonseca fechou o Congresso. Houve o contragolpe de 23 de novembro, no qual Floriano Peixoto obrigou Deodoro a renunciar. Esse fato repercutiu em Mato Grosso na recusa das autoridades locais em aceitar o presidente estadual enviado pelo Rio de Janeiro, o General Luís Henrique de Oliveira Ewbank durou poucos dias

como foi o caso de Francisco Sabino Vieira, líder da Sabinada (1837-1838), que passou boa parte de seus dias confinado nas adjacências da Fazenda Jacobina, na região de Cáceres, a poucos quilômetros da fronteira com a Bolívia.

Porém, o Estado de Mato Grosso, desde a fundação de Cuiabá, no século XVIII, nem sempre dependeu de variantes externas para caracterizar o seu perfil de zona de conflito. Os governantes tiveram sempre que agir com violência para manter a ordem diante dos abusos perpetrados por migrantes que encontravam na região a possibilidade de reconstruir suas vidas marcadas por pretéritas ações violentas. Por exemplo, em 1723, os irmãos Lourenço e João Leme depuseram o primeiro Intendente das minas de ouro de Cuiabá, Pascoal Moreira Cabral. Foram considerados como bandidos e assassinos dos mais infames que já passaram pela face da terra. O episódio aconteceu porque Pascoal Moreira Cabral defendeu o Vigário que se havia recusado a reconhecer o casamento de uma bastarda de Lourenço Leme. Diante disso, Lourenço Leme reuniu o povo no Largo da Mandioca e propôs a substituição do Regente das Minas de Cuiabá por Fernão Dias Falcão.

Quase cem anos depois (1821), às vésperas da Independência do Brasil, após um governo descrito como ambicioso, concussionário, caprichoso, brutal e hipócrita, que fez crescer o crime e o nepotismo, sacrificando o bem público, o capitão-general Francisco de Paula Magessi foi deposto por uma junta governativa encabeçada por Dom Luís de Castro Pereira, Bispo de Ptolamaida, bispo titular da Diocese de Cuiabá entre 1804 e 1822, que encabeçou uma junta que entregou o governo ao primeiro presidente da província, já no Brasil independente, José Saturnino da Costa Ferreira, tendo exercido o cargo entre 1825 e 1828.

Esses eventos revelam dados importantes de uma Capitania, posteriormente Província e, por fim, Estado de Mato Grosso, que foram criando uma composição política eivada de personalismo e capacidade de arregimentação de forças para manter “homens com nome” à frente do governo em Cuiabá, ao mesmo tempo em que esse poder foi alargando suas abas, a ponto de criar grupos antípodas que travavam disputas acirradas pelo controle político do estado. Diante de tal situação, é que passaram a aflorar os ilegalismos que se tornaram uma constante no cenário político mato-grossense. Esses ilegalismos, embora sérios do ponto de vista da ordem político-administrativa, em épocas posteriores, tornaram-se a fonte na qual os grupos rivais se inspiravam para reforçar suas bases de apoio e partir para o confronto, sempre relançando os projetos políticos pessoais ou grupais na conquista do governo.

O período da Primeira República em Mato Grosso (1889-1930), posteriormente, assistiu ao crescimento da estratégia dos coronéis, os grandes proprietários de terra, os comerciantes e também os usineiros espalhados ao longo dos rios navegáveis, em um primeiro momento ligados ao entorno de Cuiabá, e, em um segundo momento, após a Guerra do Paraguai, alternados com os grandes proprietários do sul do estado, que deram origem aos grupos dos Murtinho, Corrêa da Costa, Ponce, Barros, Celestino que exerciam efetivamente o poder de decisão em âmbito local ou estadual. Eles passaram, então, a manter o controle dos empregos públicos e outros privilégios econômicos e sociais e a dispor de uma grande capacidade de mobilização de forças em seus respectivos redutos. Esses grupos, não apenas familiares, mas também grupos afins, eram unidos por interesses comuns e momentâneos, ao mesmo tempo em que preservavam uma relativa autonomia de mando local, onde concentravam suas posses e seus patrimônios.

Foi dentro desse espaço vital, em que os interesses privados se imiscuíam com os públicos, eivado de projetos políticos personalistas, que aconteceram os grandes embates que transformaram os coronéis ao mesmo tempo em homens de governo e bandidos, conforme o lado em que se encontravam na disputa pelo poder. Assim, os ilegalismos passaram a conviver com o poder e as deposições ou reconduções de governantes e as ações de bandos e bandidos passaram a ser entendidas como verdadeiras “revoluções” entre os grupos que lutavam pelo poder no estado25.

Os episódios de deposição e recondução de governos transformaram o território mato- grossense num território propício ao aparecimento de um banditismo político paralelo ao dos chefes políticos. As autoridades acabaram perdendo o controle sobre a situação. O auge desse descontrole ocorreu no final da segunda década do século XX quando os grupos que se apresentavam como “revolucionários”, mas sem projeto político, econômico ou social definido, naquele momento, ligados às legendas partidárias republicanas, não foram capazes de criar uma agenda política apta a responder às reais necessidades do estado.

A tentativa de pacificar os ânimos sempre exaltados entre os partidos políticos se deu em 1917 quando os coronéis, sempre divididos, não conseguiram impor de consenso entre as facções, que inspirasse confiança nos partidos e na sociedade coronelista. Esse foi um momento decisivo para a política de Mato Grosso, porque os grupos que disputavam o poder

25 Em certo sentido, a palavra “revolução” parece ter sido o melhor termo encontrado pelos historiadores para

classificar os diversos tipos de disputas existentes – de caráter político – e também os ideais de paz – que vicejavam dentro da sociedade – que se faziam presentes logo após a Proclamação da República, em 1889 (BARROS, 1996).

vislumbraram no bispo Dom Francisco de Aquino Corrêa (1885-1956) a única pessoa capaz de estabilizar o “poder” e controlar os “ímpetos revolucionários” sempre recidivos e reincidentes no estado26.

Quando Dom Francisco de Aquino Corrêa assumiu o cargo de Presidente, em 1918, tinha consciência tanto de que as lutas, revolucionárias ou não, estavam não somente prejudicando o progresso do estado, mas também estavam deixando para trás um rastro de violência. Como presidente, ele assumiu um tom de conciliação, inclusive com as lideranças coronelistas do Garças e Araguaia, abrindo caminho para “soluções” ulteriores, de outros presidentes estaduais, que teriam reflexos até os dias atuais no construto cultural e político dos poxoreenses.

Já no seu discurso de aceitação da candidatura à presidência, no dia 25 de outubro de 1917, Dom Aquino procurou fixar a atenção dos políticos num projeto de reconstrução das bases de sustentação da administração estadual. No centro do discurso, Dom Francisco de Aquino Corrêa procurou colocar a palavra “paz”, palavra de ordem à qual estariam subordinadas as outras questões mais urgentes de caráter administrativo, econômico e financeiro. Para Dom Aquino, não era a um bispo que se ia pedir a solução de problemas de ordem administrativa, econômica, financeira, industrial, que eu sei? Mas ao problema social da paz, este, sim, cabe perfeitamente nos âmbitos da missão apostólicas dos ministros daquele que veio dizer aos homens: ‘A paz esteja convosco!”. [...] É de paz que, antes de tudo e acima de tudo, precisa o nosso caro Mato Grosso. Não vos esconderei, portanto, os meus ideais de conciliação, de congraçamento, de confraternização, certo de que outros não são os vossos. [...] Devo contar com a vossa generosidade e o apoio do vosso patriotismo. Faz-se mister que os partidos desistam, ao menos temporariamente, de pleitear interesses que possam, de qualquer forma, obstar ao pronto e completo reerguimento do estado.

A paz, naquele momento, tornou-se o contraponto para as “revoluções”, palavra usada para definir as ações dos diversos movimentos armados que explodiam em diversas regiões do estado. Na zona diamantina do Garças e Araguaia, o coronel José Morbeck, seguindo o seu projeto de secessão da região em relação ao estado, definiu a recusa em aceitar a operacionalização da Concessão da exploração de metais preciosos de 1914 como um ato revolucionário. O convite à paz feito aos grupos que disputavam o poder em Cuiabá, portanto,

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No próximo tópico, relataremos o evento que culminou no Acordo entre as lideranças dos Partidos Republicano Conservador e Republicano Mato-Grossense para atender ao apelo do Presidente Wenceslau Braz para solucionar a crise de governabilidade que se havia instaurado em Mato Grosso.

não chegou ao território liderado pelo agrimensor baiano. José Morbeck, além de ter negada a verba de 10 Contos de Réis prometida para a realização do plebiscito de 1918 que daria a posse definitiva do Mato Grosso Goiano a Mato Grosso, pondo fim às disputas de limites entre Mato Grosso e Goiás, também recebeu do governo estadual o indeferimento da homologação da posse sobre os 500 mil hectares de terra, na qual formaria a grande fazenda Patagônia, que abarcaria diversos municípios entre o Rio Araguaia e o Rio das Mortes.

Do Garças e Araguaia, o coronel enviou um telegrama ao presidente com o seguinte teor: “ou cai a Concessão27

ou arrebenta a Revolução!”. A recusa de Dom Aquino de liberar a verba prometida para a realização do plebiscito em 1918 e a possibilidade de a Concessão entrar em operação28 abriram caminho para que os coronéis das 44 corrutelas do Garças e Araguaia espalhassem a ideia de que os garimpeiros seriam os mais prejudicados pelo governo do estado e que somente a criação de uma Liga Garimpeira29 é que poderia fazer frente aos planos do governo (Cf. Anexo 2). Certamente, essa Liga, que se reuniu em 1925, seria o embrião de um território governado por coronéis na zona diamantina do Garças e Araguaia, ideia que Jose Morbeck somente partilhava com um grupo restrito de seguidores.

A revolução de José Morbeck se daria, portanto, dentro do quadro conturbado no qual se encontrava a administração do estado, marcado pelas disputas entre o norte e o sul e pela presença dos militares que entravam nas disputas pelo governo estadual. José Morbeck, naquele momento, dispunha de uma teia de relações que dava suporte ao seu projeto. No entanto, não levou em consideração as próprias questões internas do território diamantino, como as disputas entre os grupos de baianos e maranhenses, a inaptidão dos coronéis sob o seu comando para resolver os casos de violência que surgiam entre os garimpeiros e a própria disputa pelo poder no território.

De todo modo, as disputas entre os diversos grupos que lutavam pelo controle da administração levaram ao esgotamento as disputas entre os partidos e as personalidades que compunham o mosaico de múltiplas cores da política estadual30. Dom Francisco de Aquino Corrêa, naquele momento bispo Coadjutor de Cuiabá, no entanto, não alcançou o objetivo

27 A “Concessão” de que se fala aqui é aquela concedida, no ano de 1914, ao coronel Antônio Mota Moreira para

explorar os metais, metalóides e fósseis minerais, entre outros, existentes no Vale do Rio das Garças e seus tributários até o Rio Araguaia, num raio de 70 léguas de extensão

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Na verdade, a Concessão foi feita, mas, devido à resistência de Morbeck, ficara em suspenso até segunda ordem.

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A Liga Garimpeira se transformou no embrião daquele que, ulteriormente, seria chamado de Partido Morbequino.

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esperado de promover a união entre os partidos31 e de suas lideranças em torno da pacificação política estado. Terminou o seu mandato em meio a desentendimentos e intensas disputas pela sua sucessão e sem que as lideranças os partidos entrassem no clima de conciliação auspiciado em 1918.

Em relação ao Garças e Araguaia, coube a Dom Aquino resolver a questão dos limites do estado com Goiás. Para isso, contou com o apoio do Senador Antonio Francisco de Azeredo, que chefiou a Delegação Mato-Grossense no Sexto Congresso de Geografia ocorrido em Belo Horizonte, em 1919. Quando partiu para esse Congresso de Geografia, o Senador Azeredo tinha em mãos farto material histórico enviado por Dom Aquino e também o resultado do plebiscito realizado em 1918 entre os habitantes da zona garimpeira do Garças e Araguaia por José Morbeck.

Os acontecimentos posteriores à incorporação administrativa por Mato Grosso da região do Garças e Araguaia é que abriram as portas para o conflito armado, naquela que ficou conhecida como “guerra Morbeck-Carvalhinho32

. A partir do esgotamento das forças dos coronéis do garimpo, é que os garimpeiros, e com eles todos os que dependiam direta ou indiretamente do garimpo, passaram a sentir o poder do estado, com medidas administrativas inibidoras da ação dos coronéis ligados principalmente a José Morbeck.