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Desde o surgimento dessas comunidades, foram necessários mais de mil anos para que a música sinalizasse com a possibilidade de querer se tornar menos dependente da poesia para sua expressão, livrar-se das amarras e censuras impostas pelos religiosos, sair da situação de mera acompanhadora do canto e deixar definitivamente para trás o império absoluto da letra sobre a música, da poesia sobre a melodia e trilhar caminho próprio a partir do século XVI. Fora do templo, entre os séculos XII e XIII, desenvolveu-se a música profana praticada pelos trovadores, do canto acompanhado por instrumentos não aceitos pelos sacerdotes. Os

107 RÉAU, Louis. L‟art religieux en France: étude sur les origines del l‟iconograpraphie du moyen age. Paris:

Librairie Armand Colin 1947, p. 193. “ao redor do monastério que guarda a tumba do mártir” (tradução minha).

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ARIÈS, Philippe. Sobre a história da morte no Ocidente: desde a Idade Média, p. 27; e CAMPOS, Adalgisa Arantes. Locais de sepultamentos e escatologia através de registros de óbitos da época barroca. Varia História, n. 31, Belo Horizonte: PPGHIS/UFMG, jan. 2004, p. 159-183.

exemplos musicais remanescentes dessa época são poucos e, “até por volta de 1250, a música profana é, toda ela, canto. Por outro lado não há uma poesia que não esteja associada a uma melodia. Música e poesia têm assim realizada sua união íntima”.109

“A partir do século XII – e por vezes um pouco antes – as inscrições funerárias, que quase

tinham desaparecido na Alta Idade Média, reaparecem nos túmulos das personalidades ilustres”.110

Dá-se real valor para além dos epitáfios, gravuras, versos, danças macabras e cenas teatrais que expressam o pensamento medievo a respeito do tempo e da morte. Ante a sepultura de pessoas de destaque, o que se colocava de forma explícita era a certeza de que todos morrem, uma geração passa e outra a sucede. Ao tempo incerto da vida terrena,

esperançoso da vida plena, “o homem agarra-se como um náufrago à substância do para-

além-das-sombras, procura valores que transcendem o tempo e a morte”.111 Esse pensamento da morte amadureceu ao longo dos tempos para se dirigir aos vivos, em forma de epitáfios, sermões, lendas, cenas para lembrar-lhes de que também haviam de morrer.112 Desenvolveu- se, portanto, ao longo da Idade Média até chegar aos séculos XV e XVI, uma arte funerária que objetivava demonstrar o quão efêmera é a vida, que a morte não tarda, chega para todos: papas, imperadores, reis, rainhas, camponeses, pastoras, jovens ou adultos, ricos ou pobres.113 Atentos aos novos comportamentos das pessoas que se achegavam aos templos com cantos e danças ou outras manifestações consideradas inadequadas ao ambiente, reagiram as autoridades religiosas com seus conselhos. Em 1231, o Concílio de Ruão proibiu a dança “no cemitério e na igreja, sob pena de excomunhão”. Outro Concílio, de 1405, manteve a

desaprovação da dança no cemitério, ou que “se jogasse fosse o que fosse e proibiu aos atores, aos malabaristas, aos músicos e aos charlatães o exercício de sua atividade suspeita”.114

Verdadeiramente, nos primórdios da música ocidental, a dança executada por menestréis profissionais fazia parte da música popular cujo gênero não se confundia com o da música sacra, do cantochão entoado pelos clérigos na liturgia. No entanto, não foi possível evitar as aproximações, os intercâmbios e influências mútuas; daí, a preocupação dos líderes religiosos

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MASSIN, Jean. História da música ocidental, p. 161. 110

ARIÈS, Philippe. Sobre a história da morte no Ocidente, p. 39. 111

MARTINS, Mário, S. J. Introdução histórica à vivência do tempo e da morte. 2 v. Braga: Livraria Cruz, 1969, v. 1, p. 9.

112

MARTINS, Mário, S. J. Introdução histórica à vivência do tempo e da morte, p. 173.

113A “danza de la muerte” por Ruan de Pedraza. In: MARTINS, Mário, S. J. Introdução histórica à vivência do

tempo e da morte, v. 2, cap. 4, p. 32

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com o trânsito de pessoas, materiais, músicas e músicos que punham em contato aquilo que para eles deveria estar distante, separado.115

Apesar de o predomínio da música vocal sobre a instrumental ter ocorrido até meados do século XVI, é evidente a importância dada aos instrumentos musicais ao longo da história da humanidade. E os sinais acerca desse fato são muitos. A história nos ensina que o povo hebreu dedicava especial interesse à música, tendo no próprio Rei Davi, poeta-músico, um

ilustre representante. “Possuíam cantos de guerra, e de misteres, salmos e cânticos: os seus instrumentos eram igualmente a trombeta, a flauta, a harpa e vários tipos de tambores”.116

Assim, Davi, em seus 150 Salmos, não se cansou de louvar a Deus e de convidar os fiéis a adorá-lo como o fez no último deles: Louvai-o ao som a trombeta; louvai-o com saltério e com harpa. Louvai-o com adufes e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas. Louvai-o com címbalos sonoros; louvai-o com címbalos retumbantes (Sl 150, 3-5).117 No princípio, a música foi linguagem mágica, invocação das divindades do homem primitivo, e, mais adiante, se tornou ciência, como a matemática e a astronomia estudadas no tempo do filósofo grego Pitágoras. Por séculos, permaneceu como oração para, finalmente, misturar-se com o mundo profano, tornar-se uma arte, o que lhe proporcionou enriquecimento considerável. Essa passagem do ritual para o artístico se dá quando os sons, promessas de

música, passam a ser “organizados sob ato humano consciente”, isto é, quando o ser humano

sente a necessidade de transformar e registrar o que pensa, planeja.118 “A arte, no sentido verdadeiro, é o modo de trabalhar uma obra de acordo com alguns métodos adquiridos, seja

pelo aprendizado, seja pela inventividade”.119

A “música”, desde os tempos mais remotos – independentemente do fato de ser ou não entendida como arte –, sempre teve a sua serventia. E se nós nos valemos dela para atos cotidianos é porque ela provoca alguma “reação que tende a melhorar nossa situação

emocional”. Talvez, por isso, o ser humano, ao longo de sua existência, a tenha usado tanto

em seus momentos de alegria quanto de tristeza. Como percebeu o psicólogo John Sloboda:

A razão pela qual muitos de nós nos envolvemos em atividades musicais, de composição, execução ou escuta, é que a música consegue despertar

115

HARNONCOURT, Nikolaus. O discurso dos sons, p. 228. 116

STEHMAN, Jacques. História da música europeia, p. 22. 117

BÍBLIA SAGRADA. O Livro dos Salmos. São Paulo: Maltese, s/d, p. 552. 118

STRAVINSKY, Igor. Poética Musical em 6 lições. Tradução Luiz Paulo Horta. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1996, p. 29.

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emoções profundas e significativas. Essas emoções podem variar desde o „simples‟ deleite estético diante de uma construção sonora e desde emoções como a alegria e a tristeza que a música às vezes evoca ou realça, até um simples alívio da monotonia, tédio ou depressão que pode ser proporcionado pelas experiências musicais cotidianas.120

É nessa perspectiva de busca de conforto para os momentos de desgosto, de angústia ante a morte de uma pessoa querida, que a música fúnebre instrumental e profana se inscreve e dá seus primeiros sinais de vida.