Ao se examinar o processo de instalação da escola secundária em Osasco, é importante considerar tanto as especificidades dessa instituição naquele período, quanto as ações sociais que se desenrolaram na localidade e deram características próprias a esses episódios.
Em termos de escola secundária, o pequeno número de ginásios públicos existentes no início dos anos 50 — que gradativamente foram se multiplicando — fez com que com que, ao final da década, fosse "inegável a percepção das significativas transformações ocorridas no ensino oficial da cidade de São Paulo em nível ginasial", embora "o número de escolas secundárias públicas ainda [fosse] insuficiente para atender à procura que assumia a cada dia maiores proporções" (Sposito, 1992:75). Aquela unidade escolar mostrava-se insuficiente para atender a demanda e os exames de admissão continuaram a excluir uma parcela de candidatos ao ginásio. Mas é inegável que um contingente estudantil oriundo das camadas operárias da sociedade local e que antes não tinha acesso à essa escola começa a poder freqüentá-la, principalmente quando, em 1963, o prédio próprio foi inaugurado.
Apesar de toda a debilidade de infra-estrutura, esse conjunto de operários/estudantes, que conheciam as dificuldades da vida do trabalho, teve o privilégio de conviver com um seleto corpo docente que fora formado no período em que essa função ainda era privilégio de poucos — pois o quadro de professores da rede pública, em função do reduzido número de escolas, era pouco extenso e seu processo de seleção podia ser mais rígido, como lembra a professora Helena Pignatari Werner.
— No começo de 54, eu prestei um concurso público, em que nós tínhamos uma prova escrita duríssima, uma prova oral em público e uma aula didática. Então, essa prova foi feita na USP. A aula foi no Colégio Pedro II, em São Paulo, ali naquele caminho que vai pra Mooca, onde
tinha o Colégio Pedro II, estadual. Tudo isso com banca. Na prova oral, nós sorteávamos, 24 horas antes, de uma lista de 40 questões — que você tinha que preparar as 40, porque te davam 24 horas pra você fazer uma dissertação sobre um assunto. Isso era público: você subia numa espécie de um púlpito, expondo, durante 40 minutos, as suas questões, para ser aprovado (Helena Pignatari Werner, entrevista concedida à autora em 19/5/2004).
Entre tantos outros, vale destacar o privilégio que aqueles estudantes tiveram de contar com profissionais do gabarito do professor Emir Macedo Nogueira, o qual, além de docente de Português no período noturno, atuava como jornalista no período diurno, chegou a ocupar o cargo de secretário de Redação na Folha de S. Paulo, foi eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas, em 1981, e, segundo Eduardo Rodrigues "influenciou toda a sua geração".
No início do processo de expansão da escola secundária, que definitivamente se consolidaria a partir dos anos 70, ainda se encontra a escola que defende a expressão para a formação crítica.
O ensino público da época, contudo, era de primeira qualidade, superando largamente as entidades particulares. Logo a disputa por uma vaga num colégio estadual se transformaria numa verdadeira guerra [...] Desde o final dos anos 50 e principalmente durante a turbulenta e criativa década de 60, o Ceneart juntou seu nome à história de Osasco e sua fama ultrapassou os limites da cidade, atraindo estudantes dos municípios vizinhos e da Capital (CENEART faz 40 anos pensando no passado, Primeira Hora, 20 a 26 de outubro de 1990, p. 5).
O mesmo periódico, na mesma matéria, afirma que os professores do Ceneart formaram "a primeira geração de artistas da então nascente cidade de Osasco".
Junte-se a essas especificidades o fato de que o movimento emancipacionista que se desenrolou entre 1953 e 1962 proporcionou um espaço de envolvimento dos estudantes/operários osasquenses com as questões políticas do lugar, familiarizando-os com a prática de atuar de forma
participativa em ações sociais mais amplas. Isso leva a afirmar que, em alguns momentos, mal se pode perceber um movimento social como externo ao outro.
Para concluir, se não consegui analisar a fundo todos os textos que pretendia, nem todos os documentos que deveria, nem conversei com todos os atores desse episódio, pois o tempo e solicitações inesperadas impediram-me de realizar o projeto que almejava, tenho bem claro que estes obstáculos não me atingem exclusivamente nem justificam as possíveis falhas. Contudo, espero que este seja o ponto de partida para desenvolver outras pesquisas e que as lacunas remanescentes possam ser preenchidas.
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Anexo 1
DEPOIMENTO DE EDUARDO RODRIGUES (nascimento: dez/42)
- Em 1957, entrou no 1o. ginasial noturno, ainda no prédio do Grupo Escolar Marechal Bittencourt.
- acredita que neste momento já encontrou o grêmio funcionando na escola.
- Professores que influenciaram a sua geração:
- Emir Macedo – professor de português no período noturno e jornalista no período diurno:
• Chegou a ser Secretário de Redação da Folha de São Paulo e
• Presidente do Sindicato dos Jornalistas
• Influenciou a movimentação dos estudantes em torno do grêmio.
• Apesar de polido e reservado, tinha espírito de liderança forte e era bastante esclarecido, além de apresentar visão crítica (até por ser jornalista) dos fatos.
- Hélio de Filosofia – Eduardo não tem certeza, mas parece que veio transferido do interior por problemas políticos.
• as meninas do colégio suspiravam por ele, o que causava a ira dos alunos que, apesar de admirá-lo, o viam como um rival.
• era comunicativo e expansivo.
• casou-se com uma aluna (das mais cobiçadas) do colégio.
- Contou uma história do prof. Emir, bastante pitoresca:
... o portão do colégio fechava às 19 horas e depois disso ninguém mais entrava.
Certo dia um aluno foi pego pelo inspetor (sr. Mane – apelido: Compostura) ao pular o muro para entrar no colégio e foi levado para a diretoria onde recebeu uma suspensão.
O professor Emir, que não costumava ser de espalhafatos, tomou as dores do aluno e foi à diretoria onde argumentou com o diretor (Walter Silvio Dominas), que não havia lógica aquela punição, uma vez que, pela primeira vez um aluno pulava o muro para entrar na escola e não para sair.
- Além dos alunos do ginásio estadual, havia ainda secundaristas de dois outros colégios particulares locais:
Colégio Nossa Senhora da Misericórdia (as meninas que podiam pagar) fundado por freiras, em 1943, e que formava normalistas (quem não podia pagar o Misericórdia tinha que ir estudar o normal no Colégio Anhanguera, que ficava na Lapa)
Colégio Duque de Caxias (os meninos que podiam pagar), que formava técnicos em contabilidade.
- Ser estudante secundarista representava status junto aos jovens da localidade.
- Quem não passava no exame de Admissão do GEART virava paria local, ninguém dava prestígio.
- Só se projetava na sociedade entrando no ginásio.
- Quem não tinha dinheiro, tinha que se projetar intelectualmente para fazer parte da elite.
- No ginásio encontrava-se o filho do comerciante, do sapateiro, do operário, e todos tinham por ideal o reconhecimento intelectual.
- As classes eram heterogêneas, pois as mais diferentes faixas etárias estudavam juntas no noturno (de 11 a 40, 50 anos), mãe e filha chegaram a estudar na mesma classe.
- No movimento pela emancipação de Osasco, que durou de 1953 a 1962, existe a participação dos estudantes da escola, muitas vezes influenciados pelos professores ou por grande parte desses alunos que já era bastante adulto para entender o que se passava na política local.
- A UEO é anterior ao CEO – parece que o CEO foi criado quando a UNE caiu na ilegalidade e, portanto, caiu também as UEE’s,
Nessa época já existiam outros ginásios em Osasco: pelo menos o GEPA já existia.
Em 63, o grêmio do CEART paralisou a Câmara de Osasco contra o aumento dos salários dos vereadores recém-empossados em Osasco.
Em 1963, o presidente era o Gabriel Figueiredo.
A sede ficava na Rua Antonio Agú, em cima do bar Central (ponto de encontro dos estudantes).
A sede ficava ao lado do consultório dentário do Dr. Fortunato Antiório, que cedia a sala para a UEO. Ele foi professor de matemática do ginásio e fazia parte do Rotary Club local e, ainda, tinha um filho que trabalhava na Cobrasma durante o dia e à noite era estudante do ginásio (José Antiório – apelido: Pingüim - é presidente do Rotary Club ainda hoje).
A UEO sofria influência da célula do PC em Osasco (Papa, Lino, Sergio Zanardi).
Por que um Rotariano (que não era PC, é claro) cederia uma sala para a UEO?
Talvez porque seu filho também fosse operário/aluno do ginásio e convinha manter boas relações com uma entidade que apoiava o governo federal.
As eleições para a UEO eram disputadas e as chapas faziam campanha tentando ganhar adeptos, além do CENEART, nas outras escolas locais como: GEPA, Misericórdia e Caxias.
Em 1964, no fim do mandato do Gabriel, que indica o Helio Bahovski como candidato à sucessão, aparece como oposição a essa chapa: Francisco Rossi de Almeida.
O Rossi era funcionário do Bradesco. Conta-se uma história que para se eleger, ele, que era bonitão e encantava as garotas, teria insinuado junto às alunas do Colégio Misericórdia que estava muito doente e que logo morreria e que, por isso, precisava vencer as eleições da UEO, pois era seu último desejo - até onde é verdade ou imaginação da oposição não sabemos.
Em 1966, Guaçu sai candidato a prefeito de Osasco e recebe o apoio dos estudantes de Osasco e se elege.
- Com a UNE na ilegalidade nasce o CEO
Em 68, o presidente era o Eduardo, que já cursava a USP e seu vice era o Zequinha Barreto (José Campos Barreto). A cúpula do movimento estudantil em Osasco já estava na
universidade, mas ainda carregava origem secundarista e mantinham elos com os secundaristas locais.
No governo Guaçu Piteri, a prefeitura pagava o aluguel do CEO que ficava na Rua Antonio Agú, quase esquina com a
Marechal Rondon, numa sala no primeiro andar de um prédio comercial.
Roque participa do CEO (tinha origem no ginásio do Helena Maria e depois o GEPA e CENEART).
Luizão foi liderança e veio do Julia Lopes de Almeida, no Rochdale.
Do Caxias vieram: Antonio Salgueiro e João de Deus Pereira Filho.
Antes disso, ainda quando UEO, já se buscava forças junto às escolas particulares (Misericórdia e Caxias) e estaduais que começam a funcionar.
68 – invasão do CEO pela repressão.
. Osasco já tinha 2 grandes escolas públicas (CENEART e GEPA), além das 2 particulares.
. Os jovens de Osasco normalmente trabalhavam como funcionários do Bradesco ou das metalúrgicas (principalmente grupo Cobrasma).
Anexo 2
ENTREVISTA COM FRANCISCO ROSSI DE ALMEIDA, REALIZADA EM 29/08/05
- Concluiu o Curso Ginasial, em 1955, no G. E. de Agudos, tendo cursado o 1o. semestre do 3o. ginasial no GEART, Osasco.
- No começo de 1956 mudou-se para Osasco.
- Primeiramente fez Curso Técnico de Contabilidade, em São Paulo. Trabalhava no Bradesco, à tarde, e fazia curso técnico pela manhã. Nos dois últimos anos trabalhava durante o dia, no Bradesco, e fazia o curso à noite.
- Fez curso técnico de contabilidade seguindo os passos do pai, que também foi contador e bancário, além de lecionar em curso preparatório para concursos.
- Depois, em 1963, começou o Curso Clássico no CENEART, como preparatório para ingressar na faculdade de Direito.
- No segundo Clássico prestou vestibular para a Faculdade de Direito e entrou em São José dos Campos, abandonando o curso Clássico.
PERGUNTA - Havia atividades, na escola, no final de semana?
RESPOSTA - Não me lembro – se tinha eu não participava. Não participava, seguramente, eu não participava.
PERGUNTA - Você diria que o Curso Clássico influenciou a sua cidadania? RESPOSTA - Influenciou porque naquela época se discutia muito política dentro da escola, a gente participava de muitos movimentos contra o governo, contra o prefeito – e havia uma corrente de esquerda muito forte no CENEART e eu não gostava muito dessa posição de esquerda radical, eu era mais moderado e eu era taxado de direita, porque não fazia parte daquele movimento estudantil que freqüentava o sindicato dos metalúrgicos.
PERGUNTA - Você tinha alguma filiação partidária?
RESPOSTA - Não – eu tinha assim uma visão – talvez influenciada pelo interior - contra o comunismo – eu tinha uma visão distorcida do que seria o comunismo.
- Porque meu pai era do Partido Comunista e a gente sofreu muito dentro de casa – eu não tenho muito clara essa participação dele, mas eu me lembro que a gente comentava que ele era comunista e a minha mãe, o pessoal dentro de casa detestava isso.
PERGUNTA - Qual era o seu grupo dentro da escola?
RESPOSTA - Eu liderava um grupo que tinha o Alexandre (não se lembrou do sobrenome), o Lincon, que depois entrou na esquerda bem radical e o Espinosa. Era um grupo mais moderado.
- Nós tínhamos também uma postura de esquerda, mas éramos taxados de direita, porque não entravamos naquele esquema mais ligado ao sindicato - liderado pelo Papão que, comentava-se era do Partidão.
PERGUNTA - Havia linha divisória entre o movimento operário e o movimento estudantil ou era um movimento só?
RESPOSTA - O movimento de esquerda estudantil era muito identificado com a esquerda mais estruturada que era o Partidão, mas confesso que eu não tinha uma visão muito clara a cerca disso. É comunista: eu tô fora.
- Depois eu vi quanto equivoco cometi achando que era uma coisa e era outra. O Papão era um idealista, era uma pessoa que lutava pelos direitos dos operários, se posicionou contra o governo militar e eu tive aquela coisa de me filiar pelo movimento estudantil – como o pessoal mais de esquerda se filiou ao MDB, e como eram dois partidos, eu acabei me filiando à ARENA, pois nasceu em mim o desejo de disputar as eleições em Osasco e eu fui parar na ARENA – tive a maior dificuldade para ser candidato porque eu era tido como de esquerda. Dentro da ARENA eu era tido como comunista. Tive a maior dificuldade, não foi fácil conseguir a candidatura. Fizeram a intervenção na
ARENA para que fosse o Enio Grup candidato, no meu lugar, e nós ganhamos aquela convenção. Eles achavam que a gente era comunista – agitador.
PERGUNTA - Você tinha participação no Grêmio, na Fanfarra...? RESPOSTA - Eu gostava da Fanfarra e tudo que eu podia fazer para ajudar a
Fanfarra – era o Helio Barrovisk que dirigia a Fanfarra – Tinha um pessoal legal na Fanfarra, mas eu nunca tive vontade de participar porque era um regime quase que militar a Fanfarra e o HB era severo – era quase que militar, tinha que marchar era muito bem organizada e a Fanfarra do CENEART era maravilhosa.
PERGUNTA - Você ganhou a presidência da UEO ou do CEO?