3 Datamaterialet
3.2 Deskriptiv statistikk
Uma das tarefas que foi legada pela Gaudium et Spes é a de entender as consequências de sua teologia para o que deve ser coerente com a espiritualidade cristã. Contra a tentação do eclesiocentrismo há, de fato, na constituição, um duplo descentramento da Igreja: com relação
ao mundo e com relação a Jesus. “A Igreja não tem o fim em si mesma. É meio, instrumento,
está a serviço do mundo. E a única maneira de não se absolutizar é deixar que Jesus Cristo
seja de fato o seu Senhor”.372 Mas para que isso ocorra, é necessário relativizar todos os pequenos senhores que ela tende a fazer ao longo da história.
Segundo Palácio, “falta-nos, desesperada e urgentemente, uma teologia da história
capaz de articular em bases totalmente novas o ‘humano’ e o ‘divino’, o ‘mundano’ e o
‘espiritual’”.373 Ou melhor, uma teologia da vida e da existência cristã no mundo, a qual seja cristologicamente consequente. E a Cristologia só será consequente quando se deixar de projetar sobre Jesus Cristo o que as nossas antropologias pensam do homem, e se aceitar que é possível pensar e viver a partir de Jesus Cristo. “Ou seja, quando o Espírito de Jesus nos fizer encontrar a unidade perdida entre criação, salvação e história, porque no fundo é disso
que se trata”.374
A consistência de uma nova presença da Igreja no mundo exigia repensar
372 PALÁCIO, C. O legado da Gaudium et Spes: riscos e exigências de uma nova condição cristã. Perspectiva
Teológica, ano XXVII, n. 73, p. 349, set./dez. 1995.
373 Ibid., p. 347. 374 Id.
teologicamente a questão fundamental da relação entre fé cristã e história. Para isso, “basta repensar a salvação como o primeiro e mais fundamental dom pelo qual Deus cria dando-se e para dar-se. O resto é ‘consequência’ desse gesto totalmente livre de amor”.375
Mas era preciso traduzir essa teologia numa espiritualidade coerente com ela. Considera-se essa uma das necessidades que se destacou com força no tempo pós-conciliar. Reconhecer esse problema é aceitar o que a Gaudium et Spes considerava como “um dos mais
graves do nosso tempo”: a separação, até a ruptura, entre fé e vida (GS 43,1). Por isso, fala-se
aqui de uma nova espiritualidade como um dos legados da Gaudium et Spes.
Essa experiência é inseparável daquilo que a Lumen Gentium chamou de a vocação de todos os cristãos à santidade, fato que significou uma revolução na maneira de entender a vida
espiritual. Longe de ser algo apendicular na vida do cristão, a “vida espiritual é experiência
radical e unificada de viver no mundo, mas segundo o Espírito de Jesus. O lugar da experiência, portanto, é a vida, o mundo, a história”.376 O novo que Jesus trouxe não é passar das coisas da terra para as coisas do alto, mas deixar de viver segundo a carne e começar a viver segundo o Espírito.377 O cristão não tem que abandonar o mundo para chegar a Deus. Essa teologia e essa espiritualidade produziram consequências eclesiológicas. A Igreja não tem um fim em si mesma. É meio, está a serviço do mundo.
3.4.1 A nova evangelização
Para um entendimento melhor do sentido da realidade nova evangelização, precisa- se saber inicialmente o que é evangelizar. Na introdução da Evangelii Nuntiandi (1975), ensina Paulo VI:
O empenho em anunciar o Evangelho aos homens do nosso tempo, animados pela esperança mas ao mesmo tempo torturados muitas vezes pelo medo e pela angústia, é sem dúvida alguma serviço prestado à comunidade dos cristãos, bem como a toda humanidade (EN 1).
Considerando a tarefa de evangelizar, o pontífice procurou reconfortar “os nossos irmãos na missão de evangelizadores, a fim de que, nestes tempos de incerteza e de desordem,
375 PALÁCIO, C. O legado da Gaudium et Spes: riscos e exigências de uma nova condição cristã. Perspectiva
Teológica, ano XXVII, n. 73, p. 347, set./dez. 1995.
376 Ibid., p. 349.
377 “Essa perspectiva, por si só, significa a subversão de todo o sistema cultural no qual vivemos (o modo de
pensar, o sistema de valores e as traduções simbólicas), no que diz respeito ao ‘mundo’ e no que se refere a ‘Deus’”. (Id.).
eles a desempenhem cada vez com mais amor, zelo e alegria” (EN 1).
Essa exortação de Paulo VI, considerando as propostas dos bispos de 1974, tinha como tema A evangelização no mundo de hoje. Trata-se de um documento que vem influenciando decisivamente na vida da Igreja até o momento presente. Nesse compasso, optou-se, nessa pesquisa, citar alguns trechos da exortação que definem para todas as pastorais e movimentos da Igreja uma identidade e um caminho que são um referencial permanente para a sua vida e atuação.
Segundo a Evangelii Nuntiandi, “evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação
própria da Igreja, sua mais profunda identidade” (EN 14). Logo, onde faltar o empenho em
evangelizar, aí falta também a identidade eclesial, ou melhor, aí não está presente a Igreja de Jesus Cristo.
Mas o que é evangelizar? A evangelização é “uma realidade rica, complexa e dinâmica” e, por isso, “é impossível captá-la se não se procura abranger com uma visão de
conjunto todos os seus elementos essenciais” (EN 17). Nesta realidade “rica, complexa e
dinâmica”, uma coisa não pode jamais faltar: “não haverá nunca evangelização verdadeira se
o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, não forem anunciados” (EN 22). E ainda:
A evangelização há de conter também sempre ao mesmo tempo como base, centro e ápice do seu dinamismo uma proclamação clara que em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus (EN 27).
“‘Não haverá nunca’ e ‘há de conter sempre’ são expressões muito fortes que nos
fazem questionar: por que será que o papa insiste nisto que é tão óbvio, tão evidente? É que sem isso não há nem evangelização, nem Igreja, nem pastoral”.378 A razão de ser da Igreja, é o encontro com Cristo Vivo e, nele, a comunhão com o Pai no Espírito, constituindo seu mistério e a raiz permanente de sua missão.
É nessa perspectiva que a Igreja necessita oferecer uma resposta ao momento de crise que abrange também a vida cristã. A nova evangelização reclama uma renovada modalidade de anúncio. Num primeiro momento, a Igreja deve ter a coragem de se colocar, para ousar um
378 RODRIGUES, E. B. S. A nova evangelização. Disponível em: <[email protected]>.
recomeço da sua vocação espiritual e missionária. A nova evangelização379 quer uma Igreja que reconhece o bem que também existe dentro dos novos cenários, dando nova vitalidade à própria fé e ao seu empenho evangelizador.380