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In document W ASTED POTENTIAL (sider 38-44)

Neste capítulo, expomos aspectos extrínsecos à enunciação em Recordações. Nosso objetivo é observar o diálogo entre o intrínseco e o extrínseco e, por isso, apoiamo-nos na História, na Sociologia, na Filosofia e na Crítica Literária para ampliar nosso olhar sobre os efeitos de sentido possíveis de serem construídos na cenografia de Recordações. Para isso, dividimos nosso percurso de pesquisa em dois tópicos. Primeiramente, desvelaremos as ações que enunciativo-discursivamente representariam as unidades tópicas, observando na vida do escritor de Recordações as atividades assumidas como a de um grupo, seu percurso escolar, acadêmico e as rotinas propriamente ditas. Em segundo lugar, construímos um percurso que reflete sobre as formações discursivas, que incidem sobre o negro no final do século XIX e início do XX. Isso nos dará condição de desvelar na enunciação de Recordações aspectos discriminatórios e racistas sobre o negro, que não foram assumidas por um grupo, mas reconhecidos, quando observados pelos vieses da História, da Sociologia e da Crítica Literária. Debruçamo-nos, portanto, sobre as unidades não tópicas.

Essa postura se justifica porque é pela cenografia que os leitores têm contato direto com o campo literário (Maingueneau, 2013). A cenografia se instaura no agrupamento de práticas enunciativo-discursivas, tópicas e não tópicas que, materializadas em textos, integram o quadro cênico literário. Analisar as unidades tópicas e não tópicas, na cenografia (a representação das atividades do coletivo, que têm relação com as rotinas, com a vida) é examinar a correspondência extrínseca ao enunciado e perceber a condição paratópica do discurso constituinte literário. Observar em Recordações a cenografia engendrada enunciativo-discursivamente é também considerar a emersão de uma imagem de autor nascida no discurso, que cria rotinas da vida possível em

seu enunciado, unindo o “dentro” e o “fora” do discurso numa fronteira impossível, em um impossível lugar (Maingueneau, 2010).

O estudo da imagem de autor ancora o intrínseco e o extrínseco literário em um período sócio-histórico, às formações discursivas, sujeitos de uma contemporaneidade. Por outras palavras, a imagem de autor dá uma possibilidade de leitura da condição paratópica, pois fixa o discurso literário em um lugar, em um momento histórico, às formações discursivas que, na enunciação literária, são sombras do mundo empírico, por conseguinte, sombras do próprio autor. O estudo do extrínseco, a partir da condição dada pela imagem de autor, em Recordações, é também o estudo do intrínseco, pois no discurso literário, extrínseco e intrínseco são pares indissolúveis.

Nossa preocupação está na delineação das fronteiras que compõe, primeiro, as unidades tópicas em Recordações, ou seja, as rotinas autorizadas que são “sombras” das rotinas extrínsecas á enunciação literária, como a juventude em uma família suburbana, o ofício de jornalista, o funcionalismo público e o que está em volta dessas rotinas como prática de um sujeito ou de um grupo. Depois disso nossa exporemos aspectos de uma prática que não é pertencente a um grupo e que, além disso, não é autorizada: o racismo. O racismo é uma unidade não tópica, pois não é aceita como atividade que pertence a um grupo, contudo, é executada por grupos e só pode ser percebida como ação cristalizada na história e nas rotinas que estão nas formações discursivas de um grupo quando a delineamos, a partir dos pressupostos dados pela História, pela Sociologia, Filosofia e Crítica Literária.

A rejeição ao racismo não o impede de ser reconhecido impregnado em diversas práticas do quotidiano. O racismo recaiu sobre o homem negro como uma chaga de grande preconceito, herdado dos anos de escravidão a que foi submetido e dos discursos ideologicamente construídos sobre a perspectiva do homem branco (Nascimento, 2010:65).

Nesse sentido, o que se manifesta como não tópico no discurso são as formações discursivas do racismo, que foram historicamente construídas, no Brasil, em um processo de inferiorização do negro e do mulato em relação ao branco. A manifestação do racismo no discurso Recordações também é parte

da composição da cenografia que sustenta, na mesma medida que é sustentada, uma imagem de autor, pois as representações não tópicas se localizam na fronteira entre intrínseco e extrínseco na enunciação literária do quotidiano, como práticas

que produziram a ideologia dominante e fixaram as diferenças e a superioridade dos brancos sobre os negros e indígenas. Nesse sentido, o branco se perpetuou como sinônimo de sabedoria, superioridade, e o negro e o indígena, de forma particular, o negro, como sinônimo de ignorância, inferioridade. Assim, as desigualdades sociais, construídas historicamente com base na superioridade do branco, na submissão dos negros e na violência da escravidão geraram, em nossa sociedade, uma mentalidade racista não somente no modo de pensar, mas também no modo de agir. (NASCIMENTO, 2010:65)

Esse “pensar” e “agir” são percebidos no discurso Recordações no esconderijo das relações e só podem ser percebidos pelo percurso instruído pelo olhar do analista, amparado por bases epistemológicas de áreas distintas do conhecimento.

De agora em diante, construiremos um percurso histórico das condições de produção que cercam a paratopia literária em Recordações, apontando as fronteiras perceptíveis e tornando possível exibir a emersão de uma imagem de autor. Nossa finalidade é perceber unidades tópicas e não tópicas baseadas no desvelamento das características realçadas na imagem de autor, ou seja, um homem mulato que presenciou como jornalista e funcionário público, os desmandos raciais do Brasil em parte dos séculos XIX e XX.

Quando tratamos de condições de produção de determinado discurso, podemos incorrer em dois erros correlacionados. O primeiro é tratar as condições de produção como “contexto”,

Condições de produção é um termo empregado [...] como variante de contexto. Mas é cada vez menos utilizado, pois ele minimiza a dimensão interacional do discurso e o caráter construído enquanto dada da situação comunicacional (MAINGUNEAU, 1998:31)

O segundo equívoco se localiza na necessidade de o pesquisador enxergar nas condições de produção de seu objeto, a justificativa do discurso. O discurso literário é parte integrante da sociedade e sua enunciação está na impossibilidade de pertencimento a esta sociedade, ou seja, a enunciação literária não pode ser justificada pelo extrínseco, tanto quanto o intrínseco enunciativo não pode justificar o extrínseco.

A partir disso, delinearemos o percurso fronteiriço do final do século XIX e início do século XX. Em AD, delinear o percurso do discurso literário já é uma conduta de análise; por isso, direcionaremos nosso olhar, desde já, à imagem de autor que se consagrou como cânon literário em Recordações. Enfocamos, assim, o escritor Lima Barreto e o discurso racista, o qual foi objeto de denuncia em Recordações.

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